A última vez que uma negociação de direitos de TV rasgou a unidade de uma liga de futebol no Brasil de forma tão explícita foi em 2012, quando o modelo de cotas individuais do Campeonato Brasileiro jogou grandes e pequenos clubes em lados opostos da mesa — e o imbróglio durou anos. Em 2026, o roteiro se repete, desta vez dentro da Libra, com Flamengo e Grêmio no centro do conflito e o Palmeiras disparando acusações públicas de mentira.
O acordo de R$ 150 milhões que ninguém viu ser fechado
O Flamengo firmou um acordo com a Libra para receber R$ 150 milhões extras pelo contrato de transmissão do Brasileirão com a Globo, válido de 2026 a 2029 — ou seja, R$ 37,5 milhões adicionais por temporada. A negociação encerrou um processo judicial que o clube carioca mantinha contra a liga e foi conduzida diretamente entre Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, e Raul Aguirre, CEO do Bahia, sem que representantes do Grêmio participassem das tratativas.
Para cobrir esse bônus anual de R$ 37,5 milhões, a Libra redistribuiu cotas dos demais membros. A estimativa é que cada clube perca cerca de R$ 4 milhões por ano de suas fatias de audiência — uma conta silenciosa que poucos queriam ver impressa em papel.
Em paralelo, o Flamengo fechou um acordo bilateral com o Grêmio: o clube carioca se comprometeu a repassar um valor ao time gaúcho para compensar perdas históricas. Em 2025, o Grêmio havia registrado prejuízo de aproximadamente R$ 7 milhões por ano em função de uma garantia de pay-per-view que não se concretizou. O montante exato do repasse não foi confirmado, mas fontes ligadas à negociação estimam que o valor esteja na mesma ordem de grandeza da perda — em torno de R$ 7 milhões.
A nota conjunta que acendeu o estopim
Na quarta-feira, 6 de maio, Flamengo e Grêmio divulgaram nota conjunta celebrando o novo modelo de divisão de audiência da Libra.
"O acordo garante que, no período de 2026 a 2029, Flamengo e Grêmio ampliarão suas participações nas receitas de audiência em relação ao modelo anteriormente proposto, assegurando receitas adicionais para ambos os clubes", diz o texto assinado pelos dois clubes.
O problema, segundo outros membros da Libra, é que o acordo de audiência é exclusivo do Flamengo com a liga — e não do Grêmio. O clube gaúcho, que trocou de presidente com a chegada de Odorico Roman, estava ao lado do Flamengo desde o início do ano nessa disputa, defendendo o modelo de cadastro de PPV como o mais vantajoso para ambos. Mas a negociação que gerou os R$ 150 milhões não incluiu os gaúchos formalmente.
O incômodo se espalhou entre os membros da Libra porque a nota conjunta deu a entender que o Grêmio também havia saído vitorioso em um acordo coletivo — quando, na verdade, o que o clube recebeu foi uma compensação bilateral do próprio Flamengo, não da liga.
Palmeiras acusa e sai do silêncio
Na manhã desta quinta-feira, 7 de maio, o Palmeiras — que já havia deixado a Libra antes desse capítulo — publicou nota oficial no X acusando Flamengo e Grêmio de mentira.
"É mentiroso o conteúdo da nota conjunta divulgada na quarta-feira (6) por Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e Clube de Regatas do Flamengo", afirma o comunicado do clube paulista, que apresenta versão divergente sobre a partilha dos direitos de transmissão no contrato com a Globo para 2026-2029.
O Palmeiras dá outra leitura sobre como o bolo será dividido e contesta a narrativa de que o acordo beneficiou coletivamente os membros da Libra. Para o clube de Abel Ferreira, o que houve foi uma blindagem financeira ao Flamengo às custas dos demais — e o Grêmio teria sido usado como escudo de legitimidade para a nota.
Apesar do ruído, fontes dentro da Libra reconhecem que não há caminho de volta. O acordo já está assinado, o processo judicial foi encerrado e o dinheiro da Globo, que estava travado pela disputa, agora pode ser liberado. O entendimento predominante entre os membros é de que o fim da briga desobstrui o fluxo financeiro para todos — mesmo que a distribuição seja desigual.
O risco estrutural para a Libra
O episódio expõe uma fragilidade que qualquer gestor de carteira de investimentos reconheceria: quando um sócio majoritário negocia condições especiais fora da mesa coletiva e depois apresenta o resultado como decisão conjunta, a credibilidade da governança do fundo desmorona. A Libra enfrenta exatamente esse dilema — e o Palmeiras, fora da liga mas com voz ativa, amplifica o problema.
A perda de R$ 4 milhões por clube ao ano pode parecer marginal para Flamengo ou Palmeiras, mas para equipes menores da Série A representa entre 3% e 6% de uma receita anual típica — não é ruído, é orçamento de departamento de base.
O contrato com a Globo cobre quatro temporadas: 2026, 2027, 2028 e 2029. Isso significa que o modelo de distribuição agora selado vai reger o futebol brasileiro por quatro anos — com o Flamengo recebendo R$ 37,5 milhões a mais por temporada do que os demais, e o Grêmio sendo compensado paralelamente por um valor estimado em R$ 7 milhões, fora da estrutura oficial da liga.
O próximo teste da coesão da Libra virá nas assembleias de votação do calendário 2027, previstas para o segundo semestre de 2026. Se o Palmeiras decidir formalizar uma liga alternativa com apoio de clubes descontentes, o acordo Flamengo-Grêmio terá sido o gatilho — e a pergunta que fica é: quantos clubes da Libra estão dispostos a engolir R$ 4 milhões a menos por ano antes de mudar de lado?








