O silêncio do departamento médico da CBF tem soado mais alto do que qualquer entrevista coletiva. Em menos de dois meses antes da estreia contra Marrocos, no dia 13 de junho, cinco jogadores da Seleção Brasileira estão em tratamento — dois deles já praticamente descartados, três numa corrida desesperada contra o calendário.

Hoje: o que já é fato

Rodrygo e Éder Militão estão fora. Não há suspense aqui. Rodrygo se recupera de ruptura no ligamento cruzado anterior e no menisco do joelho direito — o tipo de lesão que exige meses de reabilitação, não semanas. Militão passou por cirurgia após romper o tendão do bíceps femoral da perna esquerda. Os dois eram peças centrais no esquema de Carlo Ancelotti: um como opção ofensiva de lado direito, o outro como possível solução para a lateral-direita em situações específicas.

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Estêvão enfrenta uma lesão muscular de grau quatro na posterior da coxa direita — a classificação mais severa da escala muscular, aquela que frequentemente envolve ruptura completa de fibras. Raphinha sofreu contusão no bíceps femoral da coxa direita. O goleiro Alisson também está em recuperação de lesão muscular na coxa direita. Três jogadores, mesmo grupamento muscular, mesma coxa. Uma coincidência estatisticamente curiosa que o levantamento do SportNavo registra como sinal de alerta sobre a carga física do ciclo de preparação.

Para contextualizar o drama com dados: um atleta com lesão grau quatro raramente retorna ao nível competitivo em menos de 8 semanas. A convocação de Ancelotti sai no dia 18 de maio. As contas não fecham para Estêvão.

Esta semana: o que se desdobra

O nome mais quente desta semana é Vanderson, lateral do Monaco. O brasileiro vai realizar um exame para avaliar a recuperação da cirurgia na coxa esquerda, feita no início de março. Se o resultado for positivo, a expectativa é que ele inicie trabalho de campo nos próximos dias. O Monaco ainda tem duas partidas antes da convocação — janelas que Vanderson quer usar para mostrar que está apto.

"Não fui nos últimos jogos, mas vejo que ele [Ancelotti] está evoluindo muito bem. É um orgulho para a gente ter um treinador assim e aproveitar o máximo da sua experiência", disse Vanderson em entrevista recente.

A lateral-direita é, neste momento, a posição com menos dono definido no elenco. Vanderson foi chamado apenas uma vez por Ancelotti, na primeira convocação do italiano — mas a comissão técnica acompanha sua recuperação com frequência, o que indica que ele está no radar real, não apenas no especulativo.

Do ponto de vista das métricas que importam para uma lateral-direita moderna, Vanderson tem números relevantes no Monaco: lidera a equipe em progressive passes entre os defensores (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário) e aparece entre os mais ativos em defensive actions por 90 minutos — o que combina com o perfil que Ancelotti busca numa lateral que precisa ser ao mesmo tempo linha de quatro e suporte ofensivo.

Próximas 4 semanas: o que vai mudar

O problema estrutural vai além das lesões individuais. Desde que assumiu a Seleção, Ancelotti nunca testou um sistema diferente do seu 4-2-4 de referência — quatro atacantes, dois meias, linha de quatro defensores. Nenhum amistoso serviu para experimentar uma linha de três zagueiros ou uma formação com três meio-campistas. O italiano foi coerente, ou teimoso, dependendo da leitura.

"Há seleções melhores que o Brasil", avaliou Gilberto Silva, pilar do tetracampeonato de 2002, em entrevista recente — reforçando que o favoritismo automático não existe mais neste ciclo.

O que para o argentino é naturalidade tática — alternar entre 4-3-3 e 3-5-2 dependendo do adversário, como Scaloni fez no caminho ao tricampeonato — para o italiano Ancelotti é quase uma heresia. O treinador construiu sua identidade na Seleção em cima de um único modelo, e a rigidez tem custo quando o elenco oscila fisicamente.

Os substitutos disponíveis no ataque são Luiz Henrique, Endrick, Rayan e Gabriel Martinelli. Em termos de xG (expected goals) — a métrica que mede a qualidade das chances criadas, não apenas os gols marcados — nenhum deles chegou perto dos números que Rodrygo e Estêvão acumularam no Real Madrid e no Chelsea nesta temporada. Martinelli tem o xA (expected assists) mais alto do grupo no Arsenal, o que o coloca como opção real de criação pela esquerda, mas não resolve a lacuna pela direita.

Outra opção que o UOL levantou e a análise do SportNavo endossa: o bom momento de Danilo, do Botafogo, poderia viabilizar uma formação com três meias sem sacrificar Bruno Guimarães ou Casemiro — mas Ancelotti nunca ensaiou isso. Após a convocação do dia 18 de maio, o técnico terá apenas dois amistosos e um período de preparação antes do jogo de abertura contra Marrocos para colocar qualquer plano B em prática.

A história já mostrou que cortes de última hora não são novidade: em 2002, Emerson — que seria o capitão — rompeu o ombro em um rachão na véspera da estreia; em 1994, tanto Mozer quanto Ricardo Gomes foram cortados por lesão. A Seleção sobreviveu a todos esses episódios. A diferença é que, desta vez, não são um ou dois nomes — são cinco jogadores monitorados simultaneamente, e o treinador chega à Copa sem ter ensaiado nenhuma resposta tática alternativa. Vale acompanhar o resultado do exame de Vanderson ainda esta semana — ele pode ser o primeiro dominó a cair na definição da lista final de 18 de maio.