Se a Conmebol pudesse escolher um árbitro para elevar a temperatura da torcida do Flamengo antes mesmo da bola rolar, ela não teria feito diferente. O uruguaio Esteban Ostojich — o mesmo que comandou dois dos resultados mais constrangedores do Rubro-Negro na Libertadores nos últimos três anos — foi escalado para apitar o duelo contra o Estudiantes, válido pela 5ª rodada da fase de grupos, no Maracanã, na próxima quarta-feira (20), às 21h30 (horário de Brasília).

A realidade, porém, é mais nuançada do que o pânico inicial sugere. O retrospecto completo de Ostojich com o Mengão tem cinco jogos, e três deles terminaram com vitória rubro-negra — incluindo o 3 a 2 sobre a LDU no Equador, em 2021, e o 2 a 0 sobre o Internacional no Beira-Rio, nas oitavas de 2025. O problema é que os dois resultados negativos ficaram gravados na memória da torcida com uma precisão cirúrgica: empate 1 a 1 com o Ñublense em 2023 e derrota por 1 a 0 para o Palestino em 2024.

Os dois vexames que fazem o nome de Ostojich doer na Nação

O empate com o Ñublense, em 2023, foi um dos tropeços mais dolorosos da campanha rubro-negra naquela edição da Libertadores. Contra um time modesto do futebol chileno, o Flamengo ficou no 1 a 1 e desperdiçou pontos que fariam falta mais à frente. Já a derrota para o Palestino, em 2024, foi ainda mais surpreendente: um clube sem tradição continental superou o Mengão em plena fase de grupos, gerando crise imediata no elenco.

Nenhum árbitro é responsável por gols que não entram ou por erros de finalização. Mas o nome de Ostojich ficou associado a essas datas no imaginário coletivo da torcida — e a Conmebol sabe exatamente o que está fazendo ao escalá-lo agora, num momento em que o Flamengo busca recuperação no torneio.

No último encontro entre os dois, durante as oitavas de 2025 no Beira-Rio, um episódio curioso entrou para a história: a torcida do Internacional exagerou na chuva de papel picado, comprometendo as condições do gramado a ponto de Ostojich atrasar o início da partida em aproximadamente 20 minutos até o campo ficar em condições de jogo. O Flamengo venceu por 2 a 0.

Quem manda em campo não é o árbitro — são os dados que o Flamengo precisa produzir

Aqui entra a parte que vai além do debate sobre arbitragem. Nos dois vexames citados, o Flamengo apresentou problemas concretos de construção ofensiva que qualquer análise de xG (expected goals) exporia sem piedade. O xG mede a qualidade das chances criadas com base em variáveis como distância, ângulo e tipo de assistência — e times que perdem para Ñublense e Palestino geralmente estão gerando oportunidades de baixo valor esperado.

Três métricas que o Flamengo precisa controlar contra o Estudiantes:

  • xG acima de 1.8 por jogo — o mínimo para um time que quer dominar a fase de grupos sem depender de jogadas individuais.
  • PPDA abaixo de 8 — o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) mede a intensidade da pressão alta. Quanto menor o número, mais agressiva é a marcação no campo adversário. Times que pressionam bem forçam erros antes que o árbitro precise intervir.
  • Progressive passes acima de 50 por partida — passes que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário. Esse volume indica se o time está de fato quebrando linhas ou apenas circulando a bola sem propósito.

Nos dois jogos negativos com Ostojich, o Flamengo provavelmente ficou abaixo desses parâmetros — não por causa do árbitro, mas por desempenho coletivo abaixo da média esperada para o nível do elenco.

Os dois vexames que fazem o nome de Ostojich doer na Nação O árbitro dos vexames
Os dois vexames que fazem o nome de Ostojich doer na Nação O árbitro dos vexames

Mas afinal, o que pesa mais nesse duelo — o histórico do juiz ou o momento do Flamengo?

O cenário da 5ª rodada e o que o Flamengo não pode repetir

Como diria o ditado popular, quem não tem cão caça com gato — e o Flamengo, em busca de recuperação na Libertadores, vai precisar fazer o que não fez nos dois vexames: criar volume ofensivo real, pressionar alto e não depender de uma jogada de genialidade isolada para decidir o jogo.

A equipe de arbitragem é inteiramente uruguaia, o que é praxe na Conmebol para garantir neutralidade entre clubes de países diferentes. Além de Ostojich, o compatriota Leodan González ficará no VAR. Os bandeirinhas Martin Soppi e Horacio Ferreiro completam o quarteto uruguaio, com o chileno Diego Flores como quarto árbitro.

Antes do confronto com o Estudiantes, o Mengão ainda tem dois compromissos importantes: enfrenta o Vitória na quinta-feira (14) pela Copa do Brasil e recebe o Athletico-PR no domingo (17) pelo Brasileirão. O ritmo de jogos é intenso, e chegar ao Maracanã na quarta-feira com o elenco em boas condições físicas pode ser o fator mais determinante da noite — bem mais do que o nome do árbitro escalado.