Confesso: eu subestimei a vulnerabilidade defensiva do Botafogo de Franclim Carvalho. Vi os 20 gols marcados em 10 partidas, o segundo melhor ataque do Brasileirão, e concluí que o sistema ofensivo mascararia os problemas na retaguarda por tempo suficiente. Na noite de quinta-feira (14), a Arena Condá me mostrou o porquê do erro.
O que os números de Franclim escondem sobre o Botafogo
Dez jogos com gol. Um sem. E esse um custou a Copa do Brasil.
O recorte de 11 partidas sob o técnico português é, à primeira leitura, positivo: 20 gols marcados, segundo melhor ataque do Brasileirão com 26 tentos — atrás apenas do Flamengo, que soma 27. A linha ofensiva funciona em bloco, com boa mobilidade entre as linhas e transição ofensiva rápida após recuperação de bola.
O problema está no outro lado do campo. Nos mesmos 11 jogos, a defesa saiu ilesa em apenas dois: contra a própria Chapecoense no jogo de ida, no Nilton Santos, e contra o Independiente Petrolero pela Sul-Americana. Em todos os demais, a retaguarda cedeu. Com 27 gols sofridos no Brasileirão, o Botafogo divide com a Chapecoense a pior defesa da competição — dado que, por si só, define o perfil do time: alto risco, alta recompensa.
A análise do SportNavo sobre os jogos recentes mostra padrão recorrente: a linha de pressão do Botafogo sobe bem, mas o espaço entre os setores médio e defensivo fica exposto em transições adversárias. A compactação vertical é insuficiente quando o bloco perde a bola em zonas adiantadas.
O que a Chapecoense leu que o Botafogo não corrigiu
A Chape não venceu por acaso — ela explorou exatamente o flanco que os dados apontavam.
O 2 a 0 na Arena Condá não foi construído por superioridade técnica. Foi produto de organização defensiva e aproveitamento cirúrgico das linhas abertas pelo sistema de Franclim. O Botafogo, ao tentar impor volume ofensivo, deixou espaços nas costas da linha de quatro — e a Chapecoense converteu as duas oportunidades que criou com objetividade.
Do ponto de vista tático, o time alvinegro não conseguiu criar situações de finalização com qualidade. A posse de bola foi estéril: muita circulação horizontal, sem progressão vertical eficiente, sem pivô fixo para segurar a bola e girar. O ataque, que funcionou pelo dinamismo em 10 jogos anteriores, ficou previsível quando o adversário recuou o bloco e fechou os corredores.
Franclim fala, os números cobram, o Botafogo precisa responder
A fala do treinador foi dura — e precisa ser.

"Poderia dar mais 10 minutos e não faríamos gol. Estamos fora de uma competição na qual tínhamos aspiração de chegar às oitavas de final. É um momento que tem que deixar marca, não podemos esquecer. Que todo mundo lembre todos os dias", declarou Franclim Carvalho após o apito final.
A autocrítica pública tem função tática: impõe responsabilidade coletiva e sinaliza que o diagnóstico foi feito. Agora o técnico precisa traduzir isso em ajustes concretos. A defesa com 27 gols sofridos não se resolve com discurso — exige reorganização da linha de pressão, maior cobertura nas transições e, possivelmente, revisão do posicionamento dos volantes.
O Botafogo está em 12º lugar no Brasileirão, com 18 pontos — apenas um acima da zona de rebaixamento. A eliminação na Copa do Brasil reduz as frentes de trabalho, o que pode ser lido como oportunidade de foco, mas também como pressão concentrada sobre o desempenho na liga nacional.
O próximo teste é domingo (17), contra o Corinthians, às 16h, pela 16ª rodada do Brasileirão. São 27 gols sofridos em 2026 — esse número precisa cair antes que o campeonato decida o destino do clube.








