Diz-se que o VAR brasileiro evoluiu tanto que os erros graves praticamente desapareceram do Brasileirão. Na 17ª rodada, o jogo entre Flamengo e Palmeiras no Maracanã mostrou que a realidade é mais complicada — e que divulgar áudio não é o mesmo que esclarecer uma decisão.

Aos 21 minutos do primeiro tempo, Jorge Carrascal levantou o pé numa disputa aérea e atingiu Murilo. O árbitro Davi de Oliveira Lacerda não hesitou: cartão vermelho direto. O Flamengo terminou o jogo com dez jogadores e levou 3 a 0.

O que o árbitro de campo disse no rádio

No áudio divulgado pela CBF neste domingo (24), Lacerda justificou a decisão para a cabine do VAR com uma frase que já virou meme nas redes:

"Cartão vermelho número 15. Essa bola se joga com a cabeça, não com o pé."

A frase é direta, mas não necessariamente técnica. A regra que embasa expulsões por jogo brusco grave exige que o contato coloque em risco a integridade física do adversário — e foi exatamente isso que o VAR Caio Max Augusto Vieira confirmou ao analisar os ângulos disponíveis.

"Toca no rosto, sim. Ele assume o risco. Davi, segue sua decisão de campo. Apesar de ele atingir a bola, ele acaba acertando no peito e no rosto do adversário com as travas da chuteira", sentenciou Vieira pelo rádio.

O ponto central da análise do VAR foi o movimento subsequente ao toque na bola. Carrascal tocou primeiro — fato aceito pela arbitragem —, mas a sequência do gesto colocou as travas da chuteira no rosto de Murilo. Nesse critério, o vermelho se sustenta tecnicamente.

O que a leitura labial captou no Maracanã

Enquanto o áudio oficial mostrava a frieza da cabine, o campo contava outra história. O dublador profissional Gustavo Machado reuniu em vídeo os momentos de tensão captados pelas câmeras de transmissão — e o material explodiu nas redes, ultrapassando 2 milhões de visualizações em menos de 24 horas.

Logo após o vermelho, o atacante Pedro foi ao árbitro com questionamento direto.

"Não! Ei! Ei! Tá de brincadeira?!" — disse Pedro, segundo a leitura labial.

Carrascal tentou se defender com o argumento mais óbvio: "Eu toquei na bola primeiro!" Lacerda encerrou o diálogo com uma palavra: "Confirmado."

A tensão voltou no final. Depois do terceiro gol, marcado por Paulinho, jogadores do Flamengo como De la Cruz e Varela foram em direção ao camisa 10 do Palmeiras, irritados com a comemoração. Paulinho se explicou: "Não, eu sou daqui do Rio, porque minha família está lá no camarote, irmão. É só isso." Ayrton Lucas não ficou satisfeito: "Não, tudo bem, mas a forma como tu comemorou..." O clima esfriou sem maiores consequências.

Com um a menos, o Palmeiras cresceu e o placar foi inevitável

O Flamengo pressionou nos primeiros 21 minutos, desperdiçou chances e pagou caro pela expulsão. Com um jogador a mais, o Palmeiras reorganizou o jogo e abriu o placar aos 37 minutos do primeiro tempo com Flaco López. Os outros dois gols vieram na segunda etapa, incluindo o de Paulinho que gerou a confusão final. Placar: 3 a 0. Com a derrota, o Flamengo viu o Palmeiras abrir sete pontos na tabela do Brasileirão.

Na súmula, Lacerda registrou jogo brusco grave como motivação do cartão vermelho. A consequência imediata é suspensão automática: Carrascal desfalca o Flamengo na próxima rodada, contra o Coritiba.

Transparência no VAR ainda tem lacunas estruturais

A CBF divulgou o áudio — e isso é positivo. Mas o modelo atual ainda deixa perguntas sem resposta: por que determinados lances são revisados por minutos enquanto outros passam em segundos? Qual é o protocolo exato para definir que um toque na bola não anula o risco ao adversário?

O SportNavo mapeou as últimas cinco divulgações de áudio do VAR no Brasileirão 2026 e nenhuma delas veio acompanhada de explicação escrita sobre os critérios aplicados — apenas o áudio bruto, que pressupõe que o torcedor domina a linguagem técnica da arbitragem.

Países como Inglaterra e Alemanha já adotam relatórios pós-jogo com justificativas escritas para cada revisão do VAR. No Brasil, o áudio é o teto da transparência disponível.

Carrascal saiu de campo sob vaias da torcida rubro-negra. Murilo levantou, seguiu jogando. O Maracanã ficou em silêncio quando Flaco López estufou a rede — e aquele silêncio durou o resto da noite.