Era perto do meio-dia de 12 de novembro de 2025 quando os celulares de traficantes da Cidade de Deus vibraram quase ao mesmo tempo. A mensagem não vinha de um informante qualquer: vinha de alguém que se identificava como policial militar do 18º BPM (Jacarepaguá), conhecido pelo apelido de Bigode Mexicano. O conteúdo do áudio descrevia, com precisão cirúrgica, o que aconteceria naquela comunidade nos dias seguintes — incluindo o maquinário e as táticas que seriam empregadas. O governo do estado só anunciaria a operação oficialmente cinco dias depois, em 17 de novembro.

O protagonista de um grupo chamado PAZ CDD

As conversas obtidas pelo jornal O Globo revelam que o grupo de WhatsApp identificado como "PAZ CDD" reuniu 162 mensagens trocadas entre 28 de setembro e 1º de dezembro de 2025. Nesse intervalo, o suposto PM não apenas alertou sobre a operação Barricada Zero — ele orientava os criminosos com base em informações recebidas de um superior, tratado nas conversas como "chefe" e aparentemente conhecido pelos próprios traficantes. A estrutura do esquema lembra menos um desvio individual e mais um canal institucionalizado de inteligência invertida: informação pública vendida de dentro para fora, como água escorrendo pelo cano errado.

Após tomar conhecimento da existência do grupo e dos diálogos, a Polícia Militar abriu investigação interna. A corporação, no entanto, não confirmou publicamente a identidade do suspeito nem o vínculo funcional do indivíduo com o batalhão mencionado nas conversas. A ausência de resposta institucional imediata é, por si só, um dado analítico relevante.

Quando a operação vira rotina de vazamento no Rio

O caso da Barricada Zero não é uma anomalia — é um padrão. Pesquisadores de segurança pública que acompanham o Rio há décadas apontam que o vazamento de operações para grupos criminosos é uma das razões pelas quais a taxa de eficácia de grandes ações policiais na cidade permanece cronicamente baixa. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ), o número de apreensões de armas em operações de grande porte caiu 18% entre 2023 e 2025, mesmo com aumento de 22% no efetivo mobilizado — uma discrepância que sugere que parte da surpresa tática foi sistematicamente neutralizada antes do primeiro disparo.

A Cidade de Deus, especificamente, carrega um histórico que vai além da ficção de Fernando Meirelles. Com população estimada em cerca de 48 mil habitantes segundo dados do IPP-Rio, a comunidade ocupa uma posição geográfica estratégica entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá — áreas de altíssima valorização imobiliária. Essa tensão territorial entre a especulação do entorno e a precariedade interna da favela alimenta uma desconfiança histórica da população com relação às forças de segurança, o que torna qualquer operação policial um evento carregado de significado político além do operacional.

  • 162 mensagens trocadas no grupo "PAZ CDD" entre setembro e dezembro de 2025
  • Alerta enviado 5 dias antes do anúncio oficial da Barricada Zero
  • Suspeito identificado como PM do 18º BPM, alcunha Bigode Mexicano
  • PM abriu investigação interna após a exposição do caso pelo jornal O Globo

A leitura de conjunto que o Rio ainda não fez

O que o caso do Bigode Mexicano expõe não é apenas a corrupção de um indivíduo — é a arquitetura de um sistema onde a informação policial circula por canais paralelos com mais eficiência do que pelos canais oficiais. Esse fenômeno tem custos mensuráveis. Operações frustradas representam desperdício de recursos públicos em um estado que, segundo o Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, destinou R$ 8,4 bilhões à segurança pública no orçamento de 2025 — o maior valor da história recente da pasta. Dinheiro que, em parte, financia operações cujo elemento surpresa já foi vendido antes da madrugada de execução.

"O informante, conhecido como Bigode Mexicano, revelou informações estratégicas, permitindo aos criminosos se prepararem", conforme síntese do caso publicada pelo O Globo em 16 de maio de 2026.

A dimensão social do problema é igualmente concreta. Comunidades como a Cidade de Deus vivem sob uma dupla exposição: ao risco do crime organizado e ao risco das operações policiais que, quando vazadas, podem se tornar ainda mais violentas — porque os grupos criminosos têm tempo de se armar, posicionar e reagir. A população civil, que não recebe nenhum áudio de aviso, fica no meio. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2025, o Rio registrou 1.232 mortes em decorrência de intervenção policial — o que coloca o estado no centro de um debate que extrapola qualquer operação específica.

A investigação interna aberta pela PM após a reportagem do O Globo é o próximo passo formal do caso. A Corregedoria da corporação terá de identificar se o suposto PM do 18º BPM agiu sozinho ou como parte de uma rede mais ampla — a referência ao "chefe" nas mensagens sugere que a resposta pode ser mais complexa do que um único servidor desviado. O resultado dessa apuração, com prazo ainda não divulgado publicamente, determinará se o Rio consegue transformar um escândalo pontual em reforma estrutural ou se o caso Barricada Zero virará apenas mais um capítulo arquivado na história de vazamentos que o estado ainda não aprendeu a estancar.