Se o São Paulo tivesse demitido Roger Machado no momento em que a pressão atingiu o pico — entre a derrota de virada para o Vasco e o áudio vazado do presidente Harry Massis — talvez a eliminação para o Juventude por 3 a 1 no Alfredo Jaconi, na noite desta quarta-feira (13), nunca tivesse acontecido. Mas o clube não tinha dinheiro para isso. Pelo menos era o que Massis dizia em privado — até que o privado virou público.
A eliminação na quinta fase da Copa do Brasil, com placar agregado de 3 a 2, forçou a mão da diretoria tricolor. Minutos após o apito final em Caxias do Sul, o São Paulo oficializou a demissão de Roger Machado e de toda a sua comissão técnica. O executivo de futebol Rui Costa confirmou a saída em entrevista à imprensa. O treinador havia sido anunciado em 10 de março, após a saída de Hernán Crespo, e acumulou 17 jogos, sete vitórias, quatro empates e seis derrotas — aproveitamento de 49%, com 20 gols marcados e 17 sofridos.
O que Massis disse e o que o vazamento revelou sobre o caixa tricolor
O áudio que circulou durante a semana era um desabafo de Massis enviado a um amigo próximo. Nele, o presidente admitia que o clube ainda carregava o peso financeiro de demissões anteriores — e que esse passivo impedia qualquer movimento no mercado de treinadores. A fala foi direta:
"Nós não temos condição de contratar, de trocar o técnico. Não temos dinheiro. Será que vocês não entendem que pegamos o São Paulo sucateado? Estou pagando multa do Dorival Júnior, do Zubeldía, que não tenho nada com isso, multa do Crespo da primeira passagem, que não tenho nada com isso. Está sobrando tudo para mim. Não tem dinheiro. Não vamos ser campeões e não vamos ser rebaixados."
O trecho expõe uma equação brutal: o clube acumulava obrigações rescisórias de pelo menos três ex-treinadores simultaneamente — Dorival Júnior, Luis Zubeldía e Hernán Crespo (da primeira passagem) — enquanto tentava sustentar um novo projeto técnico. Nenhum grande clube brasileiro costuma divulgar os valores exatos dessas multas, mas contratos de técnicos de alto nível no futebol nacional costumam variar entre R$ 500 mil e R$ 2 milhões mensais. Três passivos simultâneos, somados ao salário corrente de Roger, representam uma sangria considerável para um clube que o próprio presidente classifica como "sucateado".
O Juventude não deixou a ironia passar despercebida. Nas redes sociais, o clube gaúcho provocou o São Paulo com referência direta ao áudio, celebrando a classificação às oitavas de final da Copa do Brasil com uma mensagem que misturava o resultado em campo com o constrangimento institucional tricolor.
Roger chegou marcado antes de entrar em campo
A análise que o SportNavo vinha acompanhando desde março se confirmou: Roger Machado nunca conquistou a confiança da torcida do São Paulo. Um detalhe simbólico resume esse distanciamento — o site ForaRogerMachado.com.br, com contagem regressiva apostando na demissão do treinador, foi criado antes mesmo de sua estreia oficial no comando do clube. O comentarista Raul Moura, da CNN Brasil, sintetizou o fenômeno com precisão: "Infelizmente, no futebol brasileiro, ele chegou demitido."
A falta de identificação com a torcida foi agravada por coletivas de imprensa consideradas evasivas e por um desempenho que oscilou sem nunca consolidar uma identidade de jogo. A derrota por 2 a 1 de virada para o Vasco — pouco antes da eliminação para o Juventude — foi descrita internamente como a gota d'água, segundo apuração do UOL. Roger havia completado exatamente um mês no cargo naquele momento.
O ex-lateral Cicinho, campeão da Libertadores e do Mundial pelo São Paulo, não poupou palavras após a queda na Copa do Brasil. Nas redes sociais, ele escreveu:
"Espero que depois do que viram hoje, o 'sr Tapa Buracos' e o 'sr Ruim Costa' mudem de opinião e tomem a sábia decisão de trocar o treinador. O torcedor não suporta mais tanta incompetência e vexames seguidos. O melhor mesmo seria vocês irem embora juntos com o treinador no mesmo barco. Vocês destruíram o São Paulo."
A crítica de Cicinho mirou tanto a gestão quanto o técnico, o que ilustra como a insatisfação no entorno do clube transcendia a figura de Roger Machado. O próprio atacante Calleri, em declaração crua na saída do gramado em Caxias do Sul, não buscou desculpas: "Foi uma merda, essa é a verdade. A gente não brigou pela segunda jogada, a gente fez merda na expulsão. Merecemos ser cobrados e vamos ser cobrados." A expulsão citada foi a de Ferreirinha, que entrou no lugar de Luciano aos 44 minutos do primeiro tempo e ficou apenas 30 segundos em campo antes de ser expulso por cotovelada em Rodrigo Sam — episódio que definiu o segundo tempo com o São Paulo em inferioridade numérica.
O que o São Paulo deve resolver antes de escolher o próximo técnico
A ironia mais cruel desta demissão é que o clube pagará agora mais uma multa rescisória — a mesma que Massis dizia não ter condições de arcar. O contrato de Roger Machado era válido até 31 de dezembro de 2026, o que significa que haverá um novo passivo se somando às obrigações com Dorival, Zubeldía e Crespo. A parede de dívidas rescisórias que o presidente descreveu no áudio ficou ainda mais alta em menos de 24 horas.
O nome que desponta como favorito para assumir o comando é Dorival Júnior — demitido pelo Corinthians há algumas semanas e com defensores históricos no Morumbis desde que deixou o clube pela Seleção Brasileira em janeiro de 2024. A ironia não é pequena: Massis estava pagando a multa de Dorival enquanto considerava recontratá-lo. Há também a questão política interna — a diretoria está concentrada em renegociação de dívidas e qualquer novo ciclo de instabilidade técnica pode ampliar o desgaste administrativo que já é público.
O São Paulo retorna a campo na sexta-feira (16), às 19h, contra o Fluminense, pelo Campeonato Brasileiro, onde ocupa a 4ª colocação. Na sequência, enfrenta o Millonarios pela CONMEBOL Sul-Americana, no dia 19, às 21h30 — única competição em que Roger Machado deixou o clube ainda vivo e na liderança do grupo. Se o áudio que o São Paulo não queria que você ouvisse revelou um clube sem dinheiro para agir, a demissão desta quarta mostrou um clube sem escolha para não agir.









