O auditório da Cidade do Futebol, em Lisboa, tinha lotação esgotada. Roberto Martínez leu os 27 nomes — 26 oficiais mais um simbólico — e, quando chegou ao último, a reação do ambiente confirmou o que todos já sabiam e ainda assim precisavam ouvir: Cristiano Ronaldo, 41 anos, Al-Nassr, convocado para a Copa do Mundo de 2026. Nenhum jogador na história do futebol havia chegado a seis participações num Mundial. A partir de 17 de junho, em Houston, contra a República Democrática do Congo, essa fronteira deixa de existir.

A aritmética que nenhum predecessor conseguiu fazer

Cristiano Ronaldo participou de cinco Copas consecutivas — 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022 — e marcou gols em todas elas, feito que nenhum outro jogador reproduziu na história do torneio. O total acumulado é de 8 gols. Para alcançar Miroslav Klose, o alemão que encerrou a carreira em 2014 com 16 tentos e detém o recorde absoluto de artilharia em Mundiais, seriam necessários mais 8 gols em seis jogos de fase de grupos — uma missão matematicamente possível, mas que exige uma campanha até a final. O que está ao alcance imediato é mais concreto: qualquer gol marcado nos Estados Unidos, México ou Canadá tornará Ronaldo o único jogador da história a balançar a rede em seis edições diferentes do torneio.

A comparação com uma geração anterior ajuda a dimensionar o que esse número representa. Em 1994, quando Romário e Bebeto formavam a dupla que conquistou o tetracampeonato brasileiro, o recorde de participações em Copas era de cinco edições, ostentado pelo mexicano Antonio Carbajal — marca estabelecida entre 1950 e 1966. Levou quatro décadas para que alguém chegasse ao mesmo patamar: Lothar Matthäus, em 1998. Ronaldo vai além de todos eles em 2026, e o faz jogando profissionalmente há mais de 20 anos no mais alto nível.

A aritmética que nenhum predecessor conseguiu fazer O auditório da Cidade do Fut
A aritmética que nenhum predecessor conseguiu fazer O auditório da Cidade do Fut

A convocação foi anunciada com uma particularidade que o próprio Martínez fez questão de nomear publicamente. O técnico espanhol estruturou o grupo com quatro goleiros — Diogo Costa (Porto), José Sá (Wolverhampton), Rui Silva (Sporting) e Ricardo Velho (Gençlerbirligi) — mas declarou que a lista carrega um 28º nome invisível.

"Ele é nossa força, nossa alegria. Perder o Diogo foi um momento inesquecível e muito difícil, mas no dia seguinte cabia a todos nós lutar pelo sonho do Diogo e pelo exemplo que ele sempre deu na nossa seleção. O espírito, a força e o exemplo do Diogo Jota são o +1 e serão sempre o +1", declarou Martínez na cerimônia de convocação.

Diogo Jota, atacante do Liverpool, morreu em julho de 2025, aos 28 anos, em um acidente de carro. Sua ausência reconfigurou o setor ofensivo português e, de certa forma, ampliou o peso simbólico que Ronaldo carrega nesta convocação.

Ronaldo como fenômeno socioeconômico dentro da seleção portuguesa O auditório da
Ronaldo como fenômeno socioeconômico dentro da seleção portuguesa O auditório da

Ronaldo como fenômeno socioeconômico dentro da seleção portuguesa

Analisar a presença de Cristiano Ronaldo na Copa de 2026 apenas pelo prisma esportivo seria subestimar o que sua figura representa para o modelo de negócios da seleção portuguesa. Segundo dados da UEFA e da Federação Portuguesa de Futebol, o valor de mercado da marca Portugal cresceu de forma consistente nas edições em que Ronaldo foi o protagonista da campanha de comunicação — um padrão que se repete desde 2006. A pesquisa de audiência da Copa do Qatar, em 2022, registrou picos de audiência em Portugal superiores a 85% da população adulta nos jogos da seleção, com Ronaldo como principal fator de identificação declarado pelos telespectadores.

No plano do elenco, Martínez convocou um grupo de alto valor agregado. Rúben Dias e Bernardo Silva, ambos do Manchester City, integram a espinha dorsal defensiva e criativa. Bruno Fernandes, do Manchester United, e João Neves, do PSG, dividem a responsabilidade de construção. No ataque, Rafael Leão (Milan), Pedro Neto (Chelsea), Gonçalo Ramos (PSG) e Francisco Conceição (Juventus) compõem um setor jovem e com alta exposição nas cinco grandes ligas europeias. Segundo apuração do SportNavo, a soma dos valores de mercado dos convocados portugueses supera 1,2 bilhão de euros — o que coloca Portugal entre as cinco delegações mais valiosas do torneio.

Ronaldo chega ao torneio após uma lesão muscular na coxa direita sofrida em 28 de fevereiro, durante partida do Al-Nassr contra o Al-Fayha pelo Campeonato Saudita. O problema o afastou dos amistosos de março contra México e Estados Unidos — dois dos três países-sede — e gerou dúvidas sobre sua condição física. O técnico Jorge Jesus chegou a declarar publicamente que "a lesão era mais grave do que era esperado". A inclusão na lista definitiva indica que o departamento médico português considerou o risco gerenciável.

Portugal no Grupo K e o calendário que define tudo

A chave reservada a Portugal é tecnicamente acessível. O Grupo K reúne República Democrática do Congo, Uzbequistão e Colômbia — nenhuma das potências tradicionais do torneio. A estreia acontece em 17 de junho, no NRG Stadium de Houston. O segundo jogo, também em Houston, é contra o Uzbequistão em 23 de junho. O encerramento da fase de grupos ocorre em 27 de junho, no Hard Rock Stadium de Miami, contra a Colômbia — que representa o adversário de maior qualidade técnica no grupo.

A estrutura do calendário favorece a gestão física de Ronaldo. Três jogos em dez dias, com dois deles no mesmo estádio, reduz variáveis logísticas e permite que a comissão técnica administre a minutagem do capitão com maior controle. Martínez já demonstrou disposição para alternar Ronaldo com Gonçalo Ramos em partidas anteriores — uma política que pode se intensificar na fase de grupos para preservar o atacante para os jogos eliminatórios.

Lionel Messi e Guillermo Ochoa também estão na disputa pela marca das seis Copas neste torneio, segundo as fontes consultadas. Mas a diferença de Ronaldo é que ele já está confirmado na lista de 26 convocados, enquanto os outros dependem de suas respectivas federações. O português é, até agora, o único com a vaga garantida para entrar para esse seleto grupo histórico que até Lothar Matthäus, com cinco participações entre 1982 e 1998, não conseguiu ultrapassar.

"Uma vez mais, prontos para elevar bem alto o nome de Portugal. São 26 os nomes na lista, mas estamos todos convocados. Força Portugal", escreveu Ronaldo ao ser convocado para o Qatar em 2022 — frase que ressoa como um padrão de comportamento que se repete em cada convocação, independentemente da polêmica que a acompanha.

Portugal abre sua campanha no Grupo K em 17 de junho, às 14h (horário de Brasília), contra a República Democrática do Congo, no NRG Stadium de Houston. Se avançar, os portugueses entram na fase eliminatória a partir do início de julho — e é nesse momento que a questão dos gols de Ronaldo, dos recordes e da longevidade ganha o peso que o auditório da Cidade do Futebol, em Lisboa, já antecipou com o silêncio de hoje.