Dizem que o Real Madrid de Mourinho, em 2011/12, construiu o ataque mais devastador que uma grande liga europeia já viu. 121 gols em 38 rodadas de La Liga, com Cristiano Ronaldo no auge absoluto da sua fase goleadora. Era um número que parecia intocável — daqueles que envelhecem como mito, não como meta. Pois bem: o Bayern de Munique de Vincent Kompany levou exatamente uma temporada para provar que esse mito tinha prazo de validade.

Uma temporada que a Bundesliga nunca havia imaginado

A Bundesliga 2025/26 terminou no último sábado com o Bayern aplicando 5 a 1 no Colônia, na Allianz Arena, pela 34ª rodada. Mas o placar final do jogo foi quase um detalhe dentro do contexto maior: os bávaros fecharam o campeonato com 122 gols marcados em 34 partidas, média de 3,58 por jogo, quebrando o recorde absoluto das cinco grandes ligas europeias no século XXI. O Stuttgart, segundo melhor ataque do torneio, terminou com 71 gols — ou seja, 51 a menos que o Bayern. Cinquenta e um. Em uma mesma temporada, na mesma liga.

A campanha foi de uma consistência que vai além dos gols: 28 vitórias, 5 empates, 1 derrota e 89 pontos. Uma sequência de 23 jogos de invencibilidade atravessou o coração do calendário. Mas números de campeonato às vezes enganam — eles escondem a textura do que aconteceu dentro de campo. E a textura desse Bayern era outra coisa.

Na avaliação do SportNavo, o que diferencia esta equipe de outros ataques históricos não é só o volume de gols, mas a diversidade das fontes ofensivas. Quando se analisa o pass network do time de Kompany, fica evidente que o Bayern não depende de um corredor único para criar chances — os progressive passes chegam tanto pela direita quanto pela esquerda, com Kimmich funcionando como hub central e os alas invertidos pressionando as linhas defensivas adversárias simultaneamente. O PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do Bayern ao longo da temporada ficou consistentemente abaixo de 7, indicando uma pressão altíssima que sufoca a saída de bola dos rivais e converte recuperações em gols com velocidade assustadora.

Hat-trick diante do Colônia e o que os números dizem sobre Kane

Na goleada de encerramento, Harry Kane foi, mais uma vez, o protagonista. Três gols em uma tarde que tinha cara de celebração, mas que ele tratou com a seriedade de quem ainda tem contas a acertar com a história. O primeiro saiu aos 9 minutos, finalização de primeira após cruzamento de Kimmich. O segundo foi uma falta cobrada com perfeição aos 12. O terceiro, o mais bonito, veio na etapa final — um chute de fora da área que entrou no ângulo e completou o hat-trick.

Com a noite, Kane encerrou a Bundesliga com 38 gols em 34 jogos na liga — artilheiro isolado do campeonato e protagonista de uma temporada que, em toda a carreira, ele mesmo nunca havia vivido. No total entre todas as competições, foram 63 gols em 55 partidas, com 7 assistências. O xG (expected goals) acumulado do inglês ao longo da temporada ficou na casa dos 29 — o que significa que ele superou em pelo menos 9 gols o que os modelos estatísticos esperavam dele, um indicador de eficiência clínica fora do padrão. Sua taxa de conversão dentro da área, especialmente em finalizações de primeira, foi uma das mais altas registradas na liga nos últimos cinco anos.

"O que Kane faz é diferente de qualquer atacante que eu vi nessa liga nos últimos dez anos. Ele não precisa de espaço — ele cria o espaço com o corpo antes de receber a bola", disse um analista tático de um clube da Bundesliga em coletiva após o encerramento da temporada.

Müller, Lewandowski e o peso do que Kane carregou

Para entender o tamanho do que aconteceu nessa temporada, é preciso olhar para trás com cuidado. Gerd Müller, o eterno "Bombardeiro", marcou 40 gols na Bundesliga 1971/72 — um número que ficou como referência absoluta por décadas, e que Robert Lewandowski chegou pertinho de igualar com 41 gols na temporada 2020/21, quebrando o recorde histórico do alemão. Kane, com 38, fica um degrau abaixo de Lewandowski em termos de gols individuais em uma única edição da liga, mas o faz dentro de um sistema coletivo ainda mais produtivo do que o Bayern de Flick.

  • Gerd Müller (1971/72): 40 gols na Bundesliga — recorde histórico por quase 50 anos
  • Robert Lewandowski (2020/21): 41 gols na Bundesliga — recorde histórico individual da liga
  • Harry Kane (2025/26): 38 gols na Bundesliga — melhor marca pessoal, 3º maior total individual da história da liga
  • Bayern (2025/26): 122 gols coletivos — recorde absoluto das cinco grandes ligas europeias

A diferença entre Kane e Lewandowski naquela temporada de 2020/21 está também no xA (expected assists) e na participação em jogadas construídas. Kane registrou xA acima de 6 nesta temporada, um número expressivo para um centroavante puro, o que indica que ele não apenas finaliza — ele participa ativamente da construção antes do último passe. Müller, em seu contexto histórico, operava em um futebol de outros parâmetros; compará-lo diretamente por métricas modernas seria desonesto com a história. Mas o peso simbólico permanece: cada gol de Kane nesta temporada carregou o fantasma dos dois maiores artilheiros que essa camisa vermelha já vestiu.

O que Kompany construiu e o que vem pela frente

Há algo de contemplativo em observar o que Vincent Kompany, ex-zagueiro, montou nesse Bayern. Um defensor que passou a vida estudando como atacantes pensam — e que usou esse conhecimento para construir o time mais goleador da história recente do futebol europeu. O sistema de pressão alta, os progressive passes que chegam em ondas, o PPDA que sufoca qualquer tentativa de construção adversária: tudo isso tem a assinatura de alguém que entende o jogo de dentro para fora.

Uma temporada que a Bundesliga nunca havia imaginado O Bayern que destruiu um re
Uma temporada que a Bundesliga nunca havia imaginado O Bayern que destruiu um re

Kane, agora com a Bundesliga encerrada, segue de olho na Copa do Mundo com a seleção inglesa — e chega ao torneio na melhor forma da carreira, com 63 gols em 55 jogos na temporada. O Bayern, campeão alemão com 89 pontos, retorna às atividades em julho para a pré-temporada, com o grupo de Kompany já mirando a próxima edição da Champions League, onde a equipe bávara vai querer traduzir essa brutalidade ofensiva para o palco continental.