Quando o boliviano Marcelo Claure assumiu o Club Bolívar em crise, o clube acumulava dívidas e vivia a pior fase de sua história moderna. Nos anos seguintes, foram nove títulos. A narrativa que Claure constrói agora aponta para um roteiro parecido no Brasil — e o alvo, segundo especialistas de mercado, é a SAF do Botafogo.

Quem é Marcelo Claure e quanto ele já investiu no futebol

Claure, 53 anos, fundou a Brightstar Corp — distribuidora de celulares que chegou a movimentar US$ 10 bilhões anuais — e depois ocupou o cargo de CEO do SoftBank, fundo japonês com portfólio superior a US$ 100 bilhões. Hoje comanda o Claure Group e acumula cadeiras em conselhos como o da T-Mobile, além de ser co-chair do conselho consultivo do Instituto Digital, Dados e Design em Harvard.

No futebol, seu histórico de alocação de capital é rastreável: adquiriu 35% do Girona FC, da Espanha, com assento no conselho; foi sócio do Inter Miami (participação já vendida); e, em setembro de 2024, anunciou entrada como vice-chairman e investidor do New York City FC, com aporte de US$ 150 milhões — equivalente a cerca de R$ 870 milhões na cotação atual. O investimento representa 10% da holding City Football Group US Holdco, que também controla o futuro estádio em Willets Point, no Queens, previsto para 2027.

Seus sócios no NYCFC são a Yankee Global Enterprise (10%) e o City Football Group (80%), o mesmo grupo que controla o Manchester City. Em entrevista ao portal Bloomberg Línea, Claure definiu o momento como "excitante para o futebol nos Estados Unidos", onde o esporte cresce entre comunidades de imigrantes.

O fundo GDA Luma e a negociação com o clube brasileiro

A movimentação em direção ao Brasil passa por um veículo específico: o fundo GDA Luma, do qual Claure é sócio. Na mesma entrevista ao Bloomberg Línea, o empresário confirmou o interesse em assumir o controle de um "popular time" brasileiro, sem revelar o nome, mas afirmando que a negociação pode "salvá-lo".

O contexto financeiro aponta diretamente para o Botafogo. A GDA Luma se tornou credora do clube alvinegro por meio de um empréstimo contraído no fim da gestão de John Textor, o americano que comandava a Eagle Football Holdings e deixou o controle da SAF recentemente. A posição de credor confere ao fundo uma vantagem estratégica em eventual conversão de dívida em participação acionária — mecanismo comum em operações de private equity no futebol europeu e crescente no modelo SAF brasileiro.

"Quando um fundo entra como credor e depois converte dívida em equity, ele praticamente define o preço de entrada. É uma posição de poder na negociação", observou um analista de fusões e aquisições no setor esportivo ouvido pela reportagem.

O valor exato do empréstimo da GDA Luma ao Botafogo não foi divulgado publicamente. Fontes do mercado estimam que a dívida total da SAF alvinegra com credores externos supera R$ 400 milhões, número que inclui obrigações com fornecedores, salários atrasados e compromissos financeiros estruturados durante a gestão Textor.

O que a entrada de Claure significa para o valor de mercado do Botafogo

Para medir o impacto potencial de uma aquisição, analistas do setor recorrem ao chamado Brand Value Score — métrica que pondera receitas comerciais, engajamento digital e projeção internacional de um clube para estimar seu valor de marca. O Botafogo, campeão da Copa Libertadores de 2024, registrou crescimento de 23% nesse índice após o título, segundo levantamento da consultoria Brand Finance, mas o cenário financeiro deteriorado freou a valorização subsequente.

A entrada de Claure, que já demonstrou capacidade operacional no Bolívar e expertise de governança no Girona e no NYCFC, tende a reposicionar o clube no radar de patrocinadores globais. O Girona, por exemplo, viu sua receita comercial saltar 41% no primeiro ano após Claure assumir participação ativa no conselho, segundo dados do relatório anual do clube espanhol.

No modelo SAF, a conversão de dívida em equity exige aprovação da assembleia de acionistas e registro na CVM. O processo pode levar entre 60 e 120 dias após o acordo de princípio — prazo que coloca eventual formalização entre agosto e setembro de 2026, caso as negociações avancem nas próximas semanas.

Claure também carrega na bagagem sua função como chairman da Shein na América Latina, o que amplia seu network regional e pode gerar oportunidades de patrocínio master para o clube adquirido. A Shein, com operação crescente no Brasil, ainda não patrocina nenhum time do Brasileirão — uma janela comercial que uma eventual aquisição do Botafogo tornaria natural de explorar.

A próxima rodada do Brasileirão Série A, no fim de semana de 24 e 25 de maio, coloca o Botafogo em campo enquanto os bastidores da negociação seguem em andamento. O clube disputa a competição nacional e precisa de estabilidade financeira para manter o elenco e honrar compromissos com a CBF e com a Conmebol.