Setenta e três anos. Sete anos de batalha. Uma vida inteira dedicada a transformar raquetes em instrumentos de precisão cirúrgica. Carlos Goffi morreu na noite de segunda-feira, 11 de maio de 2026, na Flórida, cercado pela família, e o tênis brasileiro perdeu aquele que talvez tenha sido seu maior embaixador silencioso — o técnico que nunca esteve sob os holofotes, mas cujas mãos moldaram campeões que chegaram ao topo do circuito mundial.
Uma vida construída ponto a ponto no Tênis Clube paulistano
Criado no Tênis Clube paulistano, onde seu pai trabalhava e onde as quadras de saibro vermelho eram ao mesmo tempo playground e sala de aula, Carlos Goffi aprendeu o tênis de dentro para fora — não como espectador, mas como filho de uma instituição que respirava o esporte. Foram aquelas quadras, no coração de São Paulo, que lhe ensinaram que um backhand cruzado executado com precisão milimétrica vale tanto quanto qualquer ace: é a inteligência do ponto, não apenas a força do saque, que decide um set.
Goffi construiu sua reputação de técnico ao longo de décadas com uma paciência que lembrava a de um artesão florentino — cada jogador tratado como uma peça única, cada detalhe técnico lapidado com atenção quase obsessiva. Quem trabalhou com ele descreve sessões de treino em que um único drop shot podia ser repetido quarenta vezes antes de receber aprovação. Não era perfeccionismo estéril: era a compreensão de que o tênis de alto nível não perdoa imprecisão no momento em que o placar marca 40-30 e o break point está sobre a mesa.
A trajetória que começou em São Paulo o levou, ao longo dos anos 1990 e 2000, a trabalhar com tenistas de múltiplas nacionalidades no circuito ATP e WTA — um número que poucos técnicos brasileiros da sua geração conseguiram alcançar. Para ter uma dimensão do alcance desse trabalho: enquanto a maioria dos treinadores nacionais atuava dentro das fronteiras do país, Goffi acumulou passagens em torneios de Grand Slam acompanhando atletas em três continentes diferentes, uma mobilidade que o colocava em categoria comparável à de apenas um punhado de profissionais brasileiros no cenário global do tênis.
A doença que durou sete anos e não dobrou sua dedicação
O diagnóstico de câncer de intestino chegou sete anos antes de sua morte — o que significa que Goffi conviveu com a doença enquanto ainda conduzia treinos, viajava para torneios e orientava tenistas em momentos decisivos de suas carreiras. Segundo pessoas próximas ao técnico, ele raramente mencionava o tratamento no ambiente de trabalho, tratando a luta contra o câncer com a mesma disciplina com que encarava um match point adversário: concentração total, sem dramatizar o que estava em jogo.
A família, que esteve ao seu lado na Flórida durante os últimos meses, descreveu o fim como sereno — uma palavra que, vinda do universo do tênis, carrega peso específico. Sereno é o jogador que saca com 5-5 no terceiro set sem deixar o corpo trair a mente. Goffi, ao que tudo indica, levou essa serenidade para além das quadras.
"Carlos era daqueles profissionais que transformavam a quadra num laboratório. Ele via o jogo em camadas que a maioria das pessoas simplesmente não enxerga", disse um ex-aluno ao ser informado do falecimento, em depoimento reproduzido por portais especializados em tênis.
A Flórida — onde residia nos últimos anos — tornou-se sua base por razões práticas e afetivas: o estado americano concentra uma das maiores comunidades de tênis do mundo, com academias de alto rendimento que atraem atletas de todos os continentes. Para Goffi, era o lugar natural de quem passou a vida inteira gravitando em torno das melhores quadras do planeta.
O legado que permanece nas raquetes de quem ele formou
Falar do legado de Carlos Goffi sem citar nomes concretos seria trair o próprio método do homem, que nunca acreditou em abstrações. Ao longo de sua carreira, ele trabalhou com tenistas que chegaram ao top 100 do ranking mundial — uma marca que, no contexto do tênis brasileiro, representa uma conquista de proporções consideráveis, dado que o país historicamente forma poucos profissionais capazes de sustentar campanhas consistentes no circuito principal.
O método Goffi — se é que se pode chamar assim — tinha uma característica identificável: a ênfase no jogo de fundo de quadra aliada à construção inteligente do ponto. Seus atletas raramente tentavam o winner impossível quando um slice bem colocado podia forçar o erro do adversário. Era tênis de xadrez, não de roleta. E essa filosofia, aprendida nas quadras do Tênis Clube paulistano e refinada em décadas de circuito internacional, é o tipo de herança que não desaparece com a morte de quem a criou — ela vive nos jogadores que a internalizaram e, por eles, nos próximos que virão.
"Aprendi com ele que o tênis começa na cabeça, não na raquete. Quando você entende isso, cada bola passa a ter um propósito", relatou um tenista que trabalhou com Goffi durante dois anos na Flórida, em mensagem publicada nas redes sociais após o anúncio do falecimento.
A Confederação Brasileira de Tênis — que ao longo dos anos manteve contato com Goffi mesmo após sua mudança definitiva para os Estados Unidos — deve emitir nota oficial de pesar nos próximos dias, segundo fontes ligadas à entidade. O velório e as homenagens serão organizados pela família na Flórida, com a possibilidade de uma cerimônia também em São Paulo, cidade onde tudo começou e onde as quadras do Tênis Clube paulistano guardam a memória de um menino que aprendeu a transformar bolas em argumentos.








