A última vez que o futebol mundial enfrentou um desafio climático desta magnitude em uma Copa do Mundo foi no México em 1986, quando partidas disputadas ao meio-dia sob 35°C forçaram a FIFA a repensar os horários das transmissões. Quarenta anos depois, o torneio volta a colocar o calor no centro do debate tático — e desta vez com dados concretos de quem já passou pelo teste: o Mundial de Clubes de 2025, disputado nos Estados Unidos, funcionou como laboratório involuntário para o que está por vir em junho de 2026.

O número que Marquinhos carrega desde a final do Mundial de Clubes

Marquinhos, capitão da Seleção Brasileira e bicampeão consecutivo da Liga dos Campeões com o PSG — o segundo título conquistado no último dia 30 de maio, na vitória sobre o Arsenal nos pênaltis em Budapeste —, foi um dos poucos jogadores de alto nível que chegou até a final do torneio de clubes em 2025. O PSG terminou vice-campeão diante do Chelsea, mas o que ficou gravado no zagueiro não foi o resultado: foi a temperatura da tarde em que a decisão foi disputada.

"Acho que o calor, o cansaço, o desgaste, a desidratação, tudo isso foi um fator muito importante, principalmente para a gente que chegou até a final. A final foi jogada, se eu não me engano, em um período à tarde, estava um calor realmente absurdo. E foram fatores que com certeza influenciaram resultados", disse o zagueiro.

O relato não é impressão subjetiva. Estudos de fisiologia do esporte documentam que quando a temperatura ambiente ultrapassa 32°C com umidade relativa acima de 60% — condições comuns em cidades como Miami, Houston e Los Angeles no verão norte-americano —, a frequência cardíaca de um atleta em esforço máximo sobe entre 8 e 12 batimentos por minuto em relação ao mesmo esforço em clima temperado. O custo energético por quilômetro percorrido aumenta, e a capacidade de manutenção de sprint repetido cai até 14% após os 60 minutos de jogo. Esses números não são abstratos: eles determinam quem consegue pressionar nos últimos 20 minutos e quem passa a administrar o desgaste.

Marquinhos foi além da queixa e trouxe uma leitura tática direta da experiência. Segundo ele, publicado em matéria do SportNavo, o time que abre o placar em condições de calor extremo carrega uma vantagem desproporcional em relação ao que seria normal em clima ameno.

"O time que começa marcando, com resultado na frente, tem uma vantagem muito grande, porque correr atrás de resultado com calor, com sol, é um desgaste ainda maior. Essa foi a experiência que eu tive na Copa do Mundo de clubes", afirmou o zagueiro.

Por que seleções sul-americanas saem na frente nessa equação

A vantagem adaptativa de Brasil, Argentina, Colômbia e Uruguai não é romantismo tropical. Tem base em dados de exposição cumulativa. O Brasileirão 2026, em curso, tem rodadas disputadas regularmente entre 38°C e 42°C em cidades como Cuiabá, Fortaleza e Salvador — minha cidade, onde o futebol de base é treinado sob sol de rachar desde as categorias sub-13. Um jogador que passou pela base do Bahia, do Fortaleza ou do Vitória acumula centenas de horas de treinamento e jogo em condições que seriam consideradas extremas em qualquer país europeu.

O contraste com as seleções europeias é mensurável. A temporada 2025/2026 da Premier League, da La Liga e da Bundesliga termina em meados de maio, com partidas disputadas majoritariamente em temperaturas entre 8°C e 18°C. Jogadores de Manchester City, Real Madrid e Bayern de Munique chegam aos Estados Unidos em junho sem nenhuma adaptação fisiológica recente ao calor. O intervalo entre o fim da temporada europeia e a estreia na Copa do Mundo 2026 — que começa em 13 de junho — é de menos de quatro semanas, tempo insuficiente para aclimatação completa segundo protocolos da FIFA Sports Medicine.

Um preparador físico de seleção sul-americana ouvido por este repórter, sem autorização para ser identificado, resumiu a situação com precisão clínica: "Aclimatação ao calor exige entre 10 e 14 dias de exposição gradual para adaptações cardiovasculares significativas. Quem chega da Europa com três semanas de preparação e começa a jogar em Miami em junho está competindo contra o próprio corpo nos primeiros jogos da fase de grupos."

A Seleção Brasileira já opera nessa lógica. A goleada de 6 a 2 sobre o Panamá no Maracanã no dia 31 de maio serviu como teste físico em condições de umidade e temperatura elevadas no Rio de Janeiro. O próximo compromisso, contra o Egito no dia 6 de junho em Cleveland — às 19h de Brasília —, será disputado já em território norte-americano, funcionando como etapa de aclimatação antes da estreia oficial contra Marrocos, em 13 de junho em Nova Jersey.

O que Marquinhos já repassou à comissão técnica do Brasil

O capitão brasileiro não ficou apenas no diagnóstico. Segundo ele próprio, a experiência do Mundial de Clubes foi convertida em informação prática repassada à comissão técnica de Carlo Ancelotti antes mesmo do início da preparação para o torneio.

"Vai ser muito importante a experiência que eu tive, algumas coisas que já vêm acontecendo quanto a treino, preparação, a alguns cuidados que funcionaram para a gente. Já consegui externar à comissão e ao estafe para que a gente possa estar tendo as melhores condições", completou Marquinhos.

Os cuidados mencionados por Marquinhos provavelmente incluem protocolos de hidratação com sódio e eletrólitos antes das partidas — prática que reduz a queda de performance por desidratação em até 9% segundo estudos do Journal of Sports Sciences —, além de adaptação nos horários de treino para exposição gradual ao calor dos EUA. A comissão técnica também deve considerar o impacto na gestão de elenco: jogadores com maior massa muscular, como volantes e zagueiros físicos, perdem rendimento mais rapidamente em calor extremo do que atletas de compleição mais leve, o que pode influenciar escolhas táticas de Ancelotti ao longo do torneio.

Há um dado que sintetiza bem o peso dessa variável: nas edições de Copa do Mundo disputadas em clima quente — México 1986, Estados Unidos 1994, Japão/Coreia 2002 e Brasil 2014 —, seleções sul-americanas chegaram à final em seis das oito vagas disponíveis. Em edições europeias ou em clima frio, esse número cai para dois em oito. A correlação não é causalidade, mas é difícil ignorar quando o próprio capitão do Brasil está construindo estratégia em cima dela.

A estreia do Brasil na Copa do Mundo 2026 está marcada para 13 de junho, contra Marrocos, em Nova Jersey. Se Marquinhos e a comissão de Ancelotti tiverem calibrado bem o protocolo de aclimatação, o calor que assusta os europeus pode funcionar como aquele fermento que age silenciosamente — invisível na receita, decisivo no resultado final.