O maior campeão brasileiro da história recente da Libertadores não venceu nenhuma das três partidas que disputou na edição de 2026 do torneio. O Fluminense, que em 2023 ergueu a taça no próprio Maracanã com uma geração que parecia inaugurar um ciclo, chega à quarta rodada da fase de grupos na lanterna — e com a eliminação precoce como cenário mais provável. Esse é o paradoxo que Mendoza vai tentar resolver nesta quarta-feira (6): um clube grande demais para cair aqui, mas pequeno demais, no momento, para evitar.

O que a derrota para o Rivadavia revela sobre o Fluminense de Zubeldía

A segunda rodada da fase de grupos ficará marcada por uma das imagens mais constrangedoras da temporada tricolor. O Fluminense abriu o placar no Maracanã com Guilherme Arana aos 10 minutos do primeiro tempo, em condições que pareciam favoráveis contra um adversário em sua estreia histórica na Libertadores. O Independiente Rivadavia, clube de Mendoza que nunca havia disputado o torneio continental, virou o jogo e saiu com a vitória por 2 a 1. Não foi um acidente — foi um sintoma.

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Lembro de um padrão parecido no Milan de 1993-94, quando Capello herdou um elenco campeão europeu e viu a equipe tropeçar em jogos que deveriam ser rotineiros. A diferença é que aquele Milan tinha Baresi, Maldini e Savicevic para reequilibrar o navio. O Fluminense de 2026 perdeu seus dois melhores jogadores da temporada: Martinelli, que só deve retornar após a Copa do Mundo de Seleções, e Lucho Acosta, que viajou para a Argentina e deve atuar nesta quarta — mas chegou ao jogo ainda em processo de recuperação.

O técnico argentino Zubeldía comanda um time que acumulou somente três derrotas nos primeiros meses do ano, mas viu esse número dobrar ao longo de abril. O Fluminense terminou o mês com seis derrotas no total e abriu maio com mais uma, o revés por 2 a 0 para o Internacional. Em 28 jogos na temporada, são 15 vitórias, 6 empates e 7 derrotas — números que seriam aceitáveis em fevereiro, mas que revelam uma queda de rendimento preocupante justamente quando a Libertadores exige o máximo.

Rivadavia ganha em Mendoza enquanto o Tricolor paga o preço das ausências

O jornalista André Rizek, no programa Seleção SporTV desta terça-feira (5), não usou meias palavras ao avaliar a situação:

"Se o Fluminense não passar nesse grupo é vexame", disse Rizek, deixando claro que o nível do grupo não justifica a campanha do Tricolor.

A palavra "vexame" tem peso específico no vocabulário do futebol brasileiro. Ela foi usada para descrever a eliminação do Grêmio para o Lanús em 2017, a queda do Vasco para o Deportivo Táchira em 2018 e, mais recentemente, a saída precoce de clubes da Série A contra adversários bolivianos e equatorianos. O Rivadavia não é um adversário de papel — está em sua primeira Libertadores e faz campanha histórica — mas tampouco é o Real Madrid. A distância entre o orçamento do Fluminense e o do clube mendocino é da ordem de grandeza da distância entre Recife e Porto Alegre: enorme no mapa, mas o campo não respeita mapas.

O Estádio Malvinas Argentinas, em Mendoza, receberá o confronto às 21h30 (horário de Brasília). A partida terá transmissão pela Rede Globo, Globoplay e ESPN Brasil — o que significa que a eventual eliminação será assistida por milhões de torcedores em rede nacional. Esse detalhe não é irrelevante: pressão de audiência e pressão esportiva raramente andam separadas.

Quem sai perdendo se o Fluminense cair na fase de grupos

Uma eliminação precoce afeta camadas diferentes do clube. A primeira é financeira: a Libertadores representa receita de premiação, visibilidade e valorização de elenco. A segunda é esportiva: jogadores como Agustín Canobbio, de 27 anos, que já entrou no radar do River Plate segundo o jornalista Germán García Grova, da TyC Sports Argentina, perdem o argumento mais poderoso para permanecer — o futebol continental. Eduardo Coudet, técnico do River, teria entrado em contato com o atacante uruguaio em mais de uma ocasião, mesmo com Canobbio tendo contrato com o Fluminense até o fim de 2028.

A terceira camada do problema é a mais difícil de quantificar: a relação com a torcida. Mesmo em meio à crise, o Fluminense registra média de 26.215 torcedores por jogo no Brasileirão 2026, ocupando a quinta posição no ranking de público da Série A — atrás apenas de Flamengo, Bahia, Corinthians e Cruzeiro. Essa fidelidade nas arquibancadas, em um momento de resultados ruins, é um capital simbólico que uma eliminação vergonhosa na Libertadores pode corroer rapidamente.

No Brasileirão, o Tricolor aparece na terceira colocação, o que demonstra que o elenco tem qualidade. Mas a Libertadores cobra outra moeda: consistência em jogos de alta pressão, sem margem para oscilação. E é exatamente aí que Zubeldía ainda não encontrou a resposta.

O que o Fluminense precisa fazer para não repetir 1998

Há um precedente histórico que os mais velhos da torcida preferem não lembrar. Em 1998, o Fluminense foi rebaixado para a Série B — um clube de sua dimensão, fora da elite nacional, enquanto times menores disputavam o Brasileirão. A queda foi resultado de uma combinação de má gestão, elenco envelhecido e perda de identidade. O rebaixamento de 2026 não é para a Série B, mas a eliminação na fase de grupos da Libertadores carrega o mesmo DNA: a sensação de que algo estrutural está errado, não apenas pontual.

Para avançar, o Fluminense precisa vencer o Rivadavia em Mendoza nesta quarta. Com Lucho Acosta disponível — ainda que não no melhor ritmo —, a equipe recupera seu principal criador. Sem Martinelli até depois da Copa do Mundo, o meio-campo segue desfalcado de sua referência técnica. O caminho é estreito, mas existe: vitória na Argentina e manutenção dos resultados nas rodadas seguintes podem garantir a classificação. O Tricolor tem história, tem torcida e tem, no papel, elenco superior ao do Rivadavia — está pronto para ser grande. Falta mostrar isso em campo.