Quantas seleções chegam a uma Copa do Mundo sem jamais ter vencido uma partida sequer no torneio? A pergunta não é retórica no sentido decorativo — ela aponta para uma condição estrutural que o Canadá carrega desde sua estreia em 1986: três participações, nenhum triunfo, e agora a responsabilidade de ser anfitrião. O Grupo B da Copa do Mundo de 2026 oferece, pela primeira vez, uma combinação de adversários que torna esse feito historicamente possível. A questão é se o momento político e econômico em torno do futebol canadense é suficiente para transformar possibilidade em resultado.
O contexto importa. A seleção canadense chegou a este Mundial após uma classificatória histórica para a CONCACAF — encerrou 36 anos de ausência em 2022 e retorna agora como uma das três nações-sede, ao lado de Estados Unidos e México. Jesse Marsch, técnico norte-americano com passagem por Red Bull Salzburg e Leeds United, comanda um elenco cujas principais referências atuam em ligas de alto nível europeu: Alphonso Davies, lateral do Bayern de Munique, e Jonathan David, centroavante que na temporada 2025/2026 defende a Juventus. Dois jogadores com salários que superam a folha inteira de diversas federações presentes no torneio… e aí vem o problema.
O Canadá disputará suas três partidas da fase de grupos em território nacional — um jogo em Toronto e dois em Vancouver. Mando de campo em Copa do Mundo não é variável desprezível: pesquisa publicada pelo Centre for Sports Economics da Universidade de Lausanne demonstrou que seleções anfitriãs têm desempenho estatisticamente superior em fase de grupos, com média de aproveitamento 23% acima do esperado pelo ranking FIFA. Mas pressão de torcida e infraestrutura favorável não resolvem lacunas táticas.
A Suíça e a arte de eliminar favoritos sem fazer barulho
A equipe com mais capital histórico no Grupo B não é o anfitrião — é a Suíça, que disputa seu 13º Mundial. Sob o comando do ex-zagueiro Murat Yakin, os suíços chegam a 2026 com o mesmo DNA defensivo que os levou às oitavas de final no Catar em 2022, quando eliminaram a Sérvia na fase de grupos. O capitão Granit Xhaka, hoje no Sunderland após carreira no Arsenal, conduz um meio-campo experiente que raramente se desorganiza. Na zaga, Manuel Akanji, do Manchester City, representa a elite técnica europeia. No ataque, Breel Embolo, do Rennes, é o referencial ofensivo.
A Suíça tem um histórico que os analistas de mercado esportivo costumam subestimar: entre 2014 e 2022, eliminou três seleções com ranking FIFA superior ao seu em fases eliminatórias. O modelo suíço é, em termos sociológicos, uma expressão do futebol como sistema gerenciado — baixo risco, alta eficiência, pouco espetáculo. Não atrai patrocinadores globais da mesma forma que Brasil ou França, mas produz resultados consistentes com um orçamento de federação que, segundo dados da UEFA de 2024, corresponde a menos de 15% do orçamento da Federação Inglesa.
O Catar volta ao palco com Lopetegui e dois brasileiros naturalizados
A presença do Catar no Grupo B tem uma dimensão que vai além do esporte: é a tentativa de uma federação de provar que o investimento estrutural de mais de US$ 200 bilhões realizado para sediar o Mundial de 2022 produziu algo além de estádios refrigerados. Em 2022, os cataris foram eliminados na fase de grupos com três derrotas, na última posição do Grupo A. Agora, o técnico Julen Lopetegui — ex-Real Madrid e Wolverhampton — tenta construir uma identidade coletiva em torno de um elenco majoritariamente composto por jogadores de clubes locais como Al-Sadd e Al-Duhail.
Dois nomes chamam atenção pela origem: Edmilson Júnior, atacante brasileiro naturalizado catari que defende o Al-Duhail, e o lateral Lucas Mendes, do Al-Wakrah — ambos convocados por Lopetegui. A naturalização de atletas estrangeiros para reforçar seleções é prática regulamentada pela FIFA, mas que levanta questões sobre o que significa representação nacional no futebol contemporâneo. Almoez Ali, o artilheiro histórico da seleção catari, completa o ataque e é o jogador com maior volume de gols no elenco. O Catar estreia no dia 13 de junho contra a Suíça, em Santa Clara.
O que o formato com 48 seleções muda no cálculo do Grupo B
A ampliação do torneio para 48 participantes, com grupos de quatro seleções e classificação dos dois primeiros mais os dois melhores terceiros colocados de cada chave, reconfigura completamente a matemática de sobrevivência. Um terceiro lugar com quatro pontos pode avançar. Isso diminui o custo de um tropeço inicial e aumenta o incentivo para abordagens táticas mais conservadoras nos primeiros jogos — exatamente o perfil da Suíça e, em certa medida, do Catar de Lopetegui.
Para o Canadá, o formato funciona como uma rede de segurança. Mesmo que perca para a Suíça na estreia, dois pontos nos jogos seguintes contra Catar (18 de junho, em Vancouver) e Bósnia (24 de junho, em Seattle) podem ser suficientes para avançar. Lionel Scaloni, técnico da Argentina, sintetizou bem a imprevisibilidade do torneio ao listar dez favoritos ao título:
"Numa Copa do Mundo, claro que a Argentina estará lá. Não sei se vão ganhar, mas esses dez ou doze vão lutar e tentar chegar à final. Espanha, França, Portugal, Inglaterra, Brasil, Colômbia, Uruguai também, Argentina, Marrocos... Croácia, esqueci da Croácia!"Nenhuma seleção do Grupo B aparece nessa lista — o que paradoxalmente reduz a pressão sobre todas elas.
A Bósnia e Herzegovina, quarta integrante do grupo, chega sem o peso histórico da Suíça e sem o mando de campo do Canadá, mas com uma geração de jogadores formados em ligas europeias de segundo escalão que pode surpreender em jogos pontuais. O equilíbrio do Grupo B é real, não apenas retórico. É o mesmo cenário que a Costa Rica viveu em 2014 — grupo teoricamente acessível, expectativas baixas, e uma campanha que terminou nas quartas de final — só que agora a aposta é diferente: o Canadá joga em casa, com Alphonso Davies em campo e a obrigação histórica de finalmente vencer uma partida de Copa do Mundo.










