A última vez que o Ligue 1 viu um duelo tão desigual durar tanto tempo foi em 2021, quando o Lille de Christophe Galtier desbancou o PSG e levou o título. Desde então, Paris dominou com folga — em algumas temporadas, o troféu estava praticamente emoldurado antes do Carnaval. Mas nesta temporada 2025/2026, um time de cidade industrial no norte da França decidiu que as regras da lógica econômica poderiam, pelo menos por um tempo, ser ignoradas. O Lens de Pierre Sage chegou até a penúltima rodada disputando o título com o clube mais rico da França. E perdeu. Mas não sem deixar uma marca.
O PSG que não conseguia respirar fundo
Quarta-feira à noite, em Bollaert, o PSG venceu o Lens por 2 a 0 e sacramentou o 14º título da história — o quinto consecutivo. Mas o placar limpo esconde o quanto essa temporada foi diferente das anteriores. Na campanha passada, o clube parisiense fechou o título com seis rodadas de antecedência e terminou 19 pontos à frente do vice-campeão Marseille. Desta vez, entrou na rodada decisiva com apenas nove pontos de vantagem sobre o Lens — e chegou a perder cinco jogos no campeonato, contra zero derrotas no mesmo período do ano anterior.
"É a primeira vez nos meus três anos aqui que tivemos um rival de verdade", disse o técnico Luis Enrique após o título, elogiando Sage e o trabalho feito em Lens. "Foi motivador. Eles mostraram seu nível."
Enrique não estava sendo diplomático por obrigação. Estava reconhecendo algo que os números confirmam: o Lens passou a maior parte da temporada colado no PSG na tabela, com um elenco — e um orçamento — que não chega perto de um décimo do que Paris movimenta por janela de transferências.

Como Sage construiu um rival com materiais de obra
Pierre Sage trabalhou com o que tinha. Enquanto o PSG foi ao mercado buscar Khvicha Kvaratskhelia por 70 milhões de euros — contratado do Napoli em janeiro de 2025 —, o Lens dependia de entrosamento, intensidade e de um esquema tático que compensava a ausência de estrelas individuais. O problema crônico de todo projeto assim surgiu na reta final: fadiga. O plantel menor de Sage simplesmente não conseguiu manter o ritmo ao longo de 34 rodadas. Não foi falta de qualidade. Foi matemática pura — corpos a menos, minutos a mais.
Do lado de Paris, a temporada mostrou uma evolução importante no modelo de jogo: os gols foram distribuídos entre vários jogadores, ao contrário da temporada anterior, quando Ousmane Dembélé carregou sozinho o ataque com 21 gols na liga. Desta vez, Dembélé e Bradley Barcola marcaram 10 cada, com Kvaratskhelia (8), Désiré Doué (7) e Gonçalo Ramos (6) contribuindo em momentos decisivos. Um PSG menos dependente — e, por isso, mais imprevisível.
Kvaratskhelia e o custo de não ter dinheiro para errar
O georgiano — contratado por 70 milhões de euros e que já começa a parecer barato pelo que entregou — foi a peça que mais desequilibrou na temporada. Velocidade, finalização, dribles e, o que surpreende os adversários, uma disciplina defensiva rara para alguém com tanto talento ofensivo. Enquanto o PSG podia se dar ao luxo de investir nesse tipo de perfil, o Lens precisava que cada jogador entregasse 120% sem margem para oscilação. O SportNavo acompanhou ao longo da temporada como esse contraste se tornava cada vez mais visível nos dados de distância percorrida por partida — o Lens corria mais, mas com menos profundidade de elenco para sustentar o esforço.
"Eles mostraram que eram capazes. O problema não era talento — era a quantidade de jogadores disponíveis para manter esse nível durante uma temporada inteira", resumiu Luis Enrique na coletiva após a conquista do título.
O que o Lens deixa para o futebol francês
O vice-campeonato do Lens — com nove pontos de desvantagem para o PSG após 33 rodadas — reacende um debate que o futebol francês prefere evitar: é possível criar competição real numa liga com uma disparidade financeira tão brutal? A resposta desta temporada é ambígua. Sim, é possível desafiar. Não, não é possível vencer. Pelo menos não enquanto as regras do fair play financeiro não equilibrarem o campo de jogo de forma mais agressiva. Na última rodada do campeonato, no domingo, o PSG entra em campo já como campeão — mas o Lens ainda tem a chance de terminar a temporada com a segunda colocação garantida, o que seria, por si só, um resultado histórico para o clube.








