Todo mundo sabe que as contas de 2025 do Corinthians foram aprovadas pelo Conselho Deliberativo em 27 de abril de 2026. O que quase ninguém percebeu, enquanto a votação acontecia no Parque São Jorge, é que o parecer que embasou essa aprovação pode ter sido assinado por um conselheiro que, juridicamente, não tinha autorização para estar na sala.
Um afastamento ignorado e o parecer que não deveria existir
A tensão começa antes da reunião de abril. Haroldo Dantas, presidente do Conselho Fiscal, estava afastado das funções por decisão da Comissão de Ética e Disciplina do clube. Mesmo assim, participou da reunião que analisou as contas de 2025 — e assinou o parecer final ao lado de Paulo Pimentel e Cláudio Senise.
O promotor Cássio Conserino, do MP-SP, instaurou procedimento para apurar o episódio em despacho de seis páginas. No documento, ele classifica a situação como falsidade ideológica: o parecer emitido teria ocultado "fato juridicamente relevante" — o próprio afastamento de Dantas.
"O afastamento do conselheiro não era detalhe irrelevante. Era informação essencial para aferir: regularidade da composição do órgão, validade da reunião, necessidade de convocação de suplente, legitimidade do parecer, higidez da aprovação das contas", escreveu Conserino no despacho.
Para o promotor, Pimentel e Senise convalidaram a participação irregular de Dantas ao não exigirem a convocação de suplente. O despacho aponta que os três podem responder também por gestão temerária — acusação que não é afastada pela investigação de falsidade ideológica. Conserino convocou Ronaldo Fernandes Tomé, membro da CE responsável pelo afastamento de Dantas, para oitiva em 18 de maio de 2026.
Seis irregularidades que o parecer preferiu não ver
A fragilidade do processo não se limita à composição do colegiado. Em 4 de maio, o sócio e juiz de direito Leandro Cano — conselheiro por três mandatos — protocolou dois requerimentos ao presidente em exercício do CD, Leonardo Pantaleão, pedindo a anulação da reunião de 27 de abril e a investigação de Senise e Pimentel por "negligência grave".
Cano estrutura sua contestação em seis pontos objetivos:
- Desconsideração de ressalva expressa da auditoria Parker Russell sobre reconhecimento antecipado de efeito tributário — a transação com a PGFN passou a valer somente em fevereiro de 2026, mas foi contabilizada em 2025;
- Prazo de análise de apenas dois dias úteis, reconhecido pelo próprio CF como insuficiente;
- Ausência de divulgação mensal dos demonstrativos financeiros, descumprindo obrigação estatutária;
- Falta de revisão semestral do orçamento;
- Despesas superiores a cinco salários mínimos sem apresentação de três orçamentos comparativos;
- Pagamentos em espécie sem documentação fiscal adequada — ponto que conecta o parecer à investigação paralela do MP.
O juiz também questiona o instrumento utilizado: a "aprovação com ressalvas" não tem previsão no estatuto do clube. Cano argumenta que esse formato cria uma zona cinzenta que dilui responsabilidades e bloqueia mecanismos de controle. Pelo princípio do "efeito cascata", a nulidade do parecer se propagaria a todos os atos subsequentes que nele se fundam — inclusive a própria aprovação pelo CD.
Do ponto de vista de governança corporativa, o dado mais revelador é a taxa de cobertura documental dos pagamentos em espécie investigados: zero notas fiscais ou recibos para R$ 3,4 milhões desembolsados entre março de 2018 e dezembro de 2023. Em termos de auditoria interna, esse índice equivale a um coverage ratio de 0% — métrica que qualquer conselho fiscal minimamente diligente deveria ter sinalizado como crítica em qualquer exercício anterior.
R$ 3,4 milhões em espécie e o rastro que o Conselho Fiscal não seguiu
A investigação sobre pagamentos em dinheiro vivo é o pano de fundo que torna o debate sobre o parecer ainda mais grave. O MP-SP apura repasses de R$ 3,4 milhões a João Odair de Souza, o "Caveira", chefe de segurança do clube nas gestões de Andrés Sanchez e Duilio Monteiro Alves. Corrigidos pela inflação, o promotor Conserino estima que os valores chegam a R$ 7,3 milhões.

As planilhas enviadas pelo próprio Corinthians ao MP registram saques que variaram de R$ 529 a R$ 129,3 mil em uma única transação — este último retirado em outubro de 2023. Caveira afirmou ao Globo Esporte que os recursos financiavam seguranças autônomos, muitos deles policiais em folga que não emitiam nota fiscal.
"Prestava contas ao departamento financeiro e não recebi questionamentos do Conselho Fiscal", declarou o ex-funcionário em entrevista.
Paralelamente, o MP investiga mais de R$ 1,2 milhão em espécie repassados a Denilson Grillo, ex-motorista de Duilio, ao longo de três anos. A hipótese em apuração inclui o uso de empresas para justificar despesas sem lastro real.
O Conselho Fiscal — o mesmo órgão agora sob investigação — nunca questionou formalmente esses fluxos durante os exercícios em que ocorreram. Essa omissão histórica é o que torna o parecer de abril de 2026 juridicamente insustentável para Conserino: um colegiado que não sinalizou irregularidades no passado e, agora, aprovou contas com ressalvas em dois dias úteis, com composição contestada, não oferece a garantia mínima de higidez que a Lei Geral do Esporte exige no artigo 67.
A próxima data concreta do processo é 18 de maio de 2026, quando Ronaldo Fernandes Tomé presta depoimento ao MP-SP. O resultado da oitiva pode definir se Conserino avança para denúncia formal contra Dantas, Pimentel e Senise — e se o pedido de nulidade de Leandro Cano ganha respaldo institucional suficiente para derrubar a aprovação das contas no Conselho Deliberativo.








