É um relógio suíço com pavio curto.

A imagem serve para Abel Ferreira com precisão cirúrgica: um treinador de método impecável, reconhecido pela organização tática e pelo rigor profissional, mas que carrega uma combustão emocional que, de tempos em tempos, ultrapassa o campo do futebol e entra no campo disciplinar. O mais recente episódio aconteceu em Lima, no Peru, durante a vitória por 2 a 0 do Palmeiras sobre o Sporting Cristal pela Copa Libertadores. O gesto — o dedo do meio exibido ao atacante Flaco López após a abertura do placar — custou ao técnico português um expediente disciplinar instaurado pela Conmebol na última quarta-feira.

O gesto, o contexto e a explicação de Abel

O incidente ocorreu na partida disputada fora de casa, com Ramón Sosa marcando o segundo gol da vitória palmeirense. Após Flaco López fazer um sinal de positivo em direção ao banco, Abel respondeu com o dedo do meio — um gesto captado pelas câmeras de transmissão e que rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais e na imprensa especializada.

Na coletiva de imprensa realizada após o jogo, Abel não fugiu do assunto e ofereceu uma explicação que mistura afeto e cobrança:

"Ele sabe onde tem que estar, eu explico de manhã, tarde e noite, eu mando vídeo no WhatsApp, porque ele sabe onde tem que chegar, ele sabe que para fazer gol tem que estar na zona de ouro. Hoje quando ele virou para mim fez assim (sinal positivo), eu fiz assim com outro dedo, porque ele sabe que eu cobro dele para fazer gols. De resto, ele tem tudo, ainda não é, mas tem tudo para ser um centroavante de top mundial."

A declaração revela uma dinâmica particular entre treinador e jogador — uma relação de alta cobrança que, segundo o próprio Abel, é do conhecimento de Flaco López. O problema, do ponto de vista regulatório, é que o gesto foi exibido publicamente, em campo, durante uma competição continental oficial.

Os artigos do Código Disciplinar que enquadram Abel

A Conmebol baseou a investigação no artigo 11.2 do seu Código Disciplinar, especificamente nos itens B e C. O primeiro enquadra condutas que configurem "comportamento ofensivo, insultuoso ou declarações difamatórias de qualquer tipo". O segundo trata da "violação das diretrizes mínimas do que deve ser considerado comportamento aceitável no campo do esporte e do futebol organizado".

O artigo não estabelece uma sanção fixa para esse tipo de infração — o que significa que a Comissão Disciplinar da entidade tem margem para aplicar desde uma simples advertência até uma multa ou suspensão. Conforme apurado pelo SportNavo, a penalidade mais citada nos bastidores é uma multa ao clube avaliada em 25 mil dólares, o equivalente a aproximadamente R$ 122 mil na cotação atual. O Palmeiras tem até o dia 13 de maio para apresentar a defesa do treinador.

O ditado popular diz que "quem não tem cão caça com gato" — e a Conmebol, historicamente, tem utilizado exatamente essa lógica ao enquadrar gestos obscenos em artigos genéricos de conduta, na ausência de uma norma específica para esse tipo de infração.

O histórico da Conmebol e o que ele indica para Abel

A análise de casos anteriores processados pela Conmebol por gestos obscenos ou condutas antidesportivas revela um padrão: a entidade raramente aplica suspensões longas a treinadores em situações que não envolvam violência física ou discriminação. Em geral, o desfecho é uma multa ao clube ou uma advertência formal ao profissional, com suspensão reservada para reincidências ou casos de maior gravidade pública.

Abel Ferreira, que comanda o Palmeiras desde outubro de 2020, já acumulou passagens pelo tribunal disciplinar da Conmebol em edições anteriores da Libertadores, sempre por condutas relacionadas a exaltação em campo. Nenhuma delas resultou em suspensão que comprometesse sua presença em jogos decisivos — o que, dentro do histórico da entidade, sugere que o caso atual tem mais chances de ser encerrado com multa do que com afastamento.

O elemento que pode pesar contra o treinador é a visibilidade do gesto: exibido em campo, captado em transmissão ao vivo e amplamente difundido, o episódio tem repercussão pública suficiente para que a Conmebol sinta necessidade de uma resposta mais simbólica do que apenas um arquivamento silencioso. A defesa apresentada pelo Palmeiras até 13 de maio será determinante para calibrar essa resposta.

O Palmeiras retorna a campo pela Libertadores ainda nesta fase de grupos, e Abel Ferreira — salvo decisão contrária da Conmebol — deve permanecer à beira do gramado. A entidade costuma concluir procedimentos desse tipo em até duas semanas após o prazo de defesa, o que projeta uma definição para a última quinzena de maio. Uma receita que demora a sair do forno, mas cujos ingredientes já estão todos sobre a mesa.