A reunião não aconteceu em nenhuma sede oficial. Não houve assembleia, pauta pública ou voto registrado em ata. O que existiu foi uma ligação — duas, na verdade — entre o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e a diretoria do Grêmio. A primeira não deu em nada. A segunda mudou o mapa de poder financeiro do futebol brasileiro.

Como o Flamengo construiu sua aliança dentro da Libra

O pano de fundo era uma disputa de R$ 150 milhões. O Flamengo exigia receber esse valor a mais nos repasses de direitos de transmissão do Brasileirão entre 2026 e 2029 — o equivalente a R$ 37,5 milhões por ano — com base no critério de audiência por assinaturas, que corresponde a 30% da remuneração fixa total do contrato de TV. O modelo beneficiaria diretamente os clubes com maior base de torcedores, e o Rubro-Negro sabia disso melhor do que ninguém.

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O problema era político. Sem um aliado de peso dentro da Libra, a proposta carioca seria barrada pela maioria dos demais clubes, que perderiam fatias do bolo. O Grêmio, por exemplo, perderia R$ 4,5 milhões por temporada se o critério fosse alterado conforme a tese original da liga. Foi aí que Baptista ligou pela segunda vez — agora para Odorico Roman, que havia substituído Alberto Guerra na presidência tricolor no início de 2026.

Roman foi convencido. O argumento era matematicamente sólido: sob o modelo defendido pelo Flamengo, o Grêmio não apenas deixaria de perder os R$ 4,5 milhões anuais como ainda passaria a receber R$ 1,5 milhão a mais pelos critérios de assinatura. Ao longo de quatro anos, o impacto positivo chegaria a R$ 24 milhões para o clube gaúcho.

O acordo que não estava nos documentos da Libra

Havia, porém, um complicador jurídico. O Grêmio havia se posicionado ao lado dos demais clubes da Libra em disputas anteriores sobre o mesmo tema. Mudar de lado de forma abrupta, sem um amparo formal, exporia o clube a questionamentos internos e externos. A solução encontrada pelos dois clubes foi um termo bilateral, fora do âmbito do bloco: o Flamengo se comprometeu a repassar R$ 6 milhões ao ano ao Grêmio, por quatro anos, totalizando os R$ 24 milhões.

O Estadão teve acesso à minuta contratual trocada entre dirigentes dos dois clubes. No documento, o repasse é descrito como "gratificação pela atuação do Grêmio no contexto das negociações que culminaram no acordo entre o Flamengo e os clubes associados à Libra". Não há tragédia no vocabulário escolhido — há contabilidade.

Em nota conjunta divulgada na quarta-feira, 6 de maio, os dois clubes trataram o desfecho com linguagem diplomática:

"O entendimento alcançado representa um equilíbrio entre o modelo defendido por Grêmio e Flamengo e a posição dos demais clubes da Libra. O esforço conjunto de todas as partes foi decisivo para a construção de uma solução consensual."

O comunicado também reconhecia o papel do alinhamento bilateral no desfecho: "Essa atuação foi fundamental para que Grêmio, Flamengo e os demais clubes da Libra firmassem, no último fim de semana, um acordo que encerra a divergência sobre a distribuição das receitas de audiência." A palavra "consensual" faz um trabalho pesado quando um dos signatários recebeu R$ 24 milhões para mudar de posição.

O que ficou para o Palmeiras — e o que o racha revela

O Palmeiras acompanhou tudo e tirou sua conclusão. A presidente Leila Pereira, que já havia acusado publicamente o Flamengo de adotar "atitudes predatórias" na disputa pelos direitos de TV, anunciou a saída do clube da Libra. A decisão não foi impulsiva: o Verdão enxergou no acordo bilateral Flamengo-Grêmio a confirmação de que a liga havia se tornado um instrumento de poder dos maiores, não um fórum de equilíbrio entre diferentes.

A análise que o SportNavo fez dos números explica o irritante: com o novo critério de rateio, o Flamengo garante pelo menos R$ 150 milhões extras entre 2026 e 2029. Desse total, R$ 24 milhões serão direcionados ao Grêmio via acordo paralelo — o que significa que parte do ganho carioca foi, na prática, o custo político de garantir a maioria dentro da Libra. O modelo funciona, mas deixa claro que dentro da liga o voto tem preço de mercado.

Do ponto de vista institucional, o episódio expõe uma fragilidade estrutural das ligas de clubes no Brasil: a ausência de regras claras sobre acordos bilaterais entre associados. A Libra não proibiu o termo entre Flamengo e Grêmio — simplesmente porque não havia norma prevendo essa situação. O vácuo regulatório foi explorado com eficiência por Baptista, que mostrou que a disputa por receitas de TV é tão tática quanto qualquer esquema desenhado em campo.

Flamengo e Grêmio se enfrentam neste domingo pela 15ª rodada do Brasileirão — rivais no gramado, sócios nos bastidores. O jogo começa às 16h, no Maracanã. O acordo que os uniu já produziu efeito; o que cada um faz com o dinheiro é a próxima disputa — e essa, por enquanto, não tem árbitro.