Confesso: eu errei ao imaginar que a chegada de Carlo Ancelotti ao Brasil seria apenas mais um capítulo administrativo da CBF, sem repercussão além das quatro linhas. O anúncio feito neste sábado (16) no Festival de Cannes, confirmado pelo Deadline, de que Paolo Sorrentino — vencedor do Oscar por A Grande Beleza (2013) — dirigirá um documentário sobre o técnico italiano, muda completamente a dimensão desse projeto. Não se trata mais só de futebol. Trata-se de como o Brasil e sua Copa do Mundo serão narrados para o mundo.

Sorrentino entra em campo pela primeira vez no formato documental

Paolo Sorrentino, natural de Nápoles, construiu sua reputação com ficções de alta densidade narrativa: Il Divo (2008), Youth (2015) e É Assim a Vida (2021), indicado ao Oscar de melhor filme internacional. O documentário sobre Ancelotti será sua estreia absoluta no gênero, o que já coloca o projeto em território experimental para o cineasta. A produção é uma coprodução ítalo-internacional com Francesco Melzi d'Eril, Chloe McClay, Celia Babini, Buck Andrews e Gabriele Moratti entre os produtores, com Eric Beard como produtor executivo — via Where is Football, em associação com a Fremantle e The Apartment. Ainda não há título oficial nem data de lançamento confirmada.

O escopo declarado é ambicioso: 50 anos de trajetória, da infância em Reggiolo, pequena cidade da Emilia-Romagna, até o banco da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026. Ancelotti começou como auxiliar de Arrigo Sacchi na Azzurra no início dos anos 1990 e acumula passagens por Milan, Chelsea, PSG, Real Madrid e Bayern de Munique, com 30 títulos ao longo da carreira. Nenhum outro técnico vivo ganhou a Liga dos Campeões quatro vezes — três pelo Real Madrid (2014, 2016, 2022) e uma pelo Milan (2003).

O que os números de Ancelotti à frente do Brasil revelam até aqui

Desde que assumiu o comando da Seleção, Ancelotti dirigiu a equipe em 10 partidas: cinco vitórias, dois empates e três derrotas, aproveitamento de 56,6%. Para efeito de comparação, Tite encerrou seu ciclo de oito anos com 76,5% de aproveitamento em 81 jogos, mas caiu nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022 diante da Croácia, nos pênaltis. O histórico de Ancelotti em torneios eliminatórios — quatro finais de Champions League, três títulos — sugere que o critério de avaliação relevante não é o aproveitamento em amistosos, mas a capacidade de gestão em mata-mata. Esse é exatamente o ponto que um documentário de Sorrentino pode iluminar com profundidade que nenhuma coletiva de imprensa consegue.

"É uma honra contar minha história ao lado do grande Paolo Sorrentino. Sempre admirei suas obras-primas e sua dedicação à narrativa artística", declarou Ancelotti ao comentar o projeto.

A fala do técnico não é protocolar. Ancelotti tem histórico de abertura incomum para o ambiente futebolístico: publicou memórias detalhadas em Quiet Leadership (2016), onde descreveu conflitos internos no Chelsea e a gestão de Kaká no Milan pós-lesão. Um documentário de Sorrentino teria acesso a camadas que livros autobiográficos raramente tocam.

O que a Seleção Brasileira ganha — e arrisca — com essa vitrine cinematográfica

O SportNavo acompanhou de perto a construção desse ciclo de Ancelotti desde sua contratação pela CBF, e a questão que esse documentário coloca é objetiva: câmeras de Sorrentino dentro do ambiente da Seleção significam acesso a vestiário, prancheta e conversas que, em 1994, Parreira jamais teria permitido. O Brasil de Zagallo em 1970 foi documentado em película por João Saldanha e depois por Cláudio Mello e Souza, mas nunca com a profundidade narrativa que um cineasta de nível internacional pode oferecer. A Copa de 2026 será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, com o Brasil estreando no grupo que inclui adversários ainda a confirmar — e o documentário, se lançado próximo ao torneio, pode funcionar como peça de construção de imagem em escala global.

O risco simétrico existe: bastidores expostos em tempo real ou próximo dele criaram crises em outros contextos. O documentário da Netflix sobre a Seleção Argentina em 2022, Scaloneta, foi lançado após o título — não durante a campanha. A sequência cronológica do projeto de Sorrentino, culminando na Copa, sugere que parte do material será captado ao longo de 2026, com edição posterior. A convocação definitiva de Ancelotti, prevista para ser anunciada em 18 de maio, já será, portanto, parte do registro histórico desse filme.

Cinquenta anos de carreira de um técnico, filtrados pelo olhar do diretor de A Grande Beleza, terminando no Maracanã ou no MetLife Stadium. O Brasil entra em cena — queira ou não.