Quinta-feira, 8 de maio de 2026. A Fórmula 1 ainda digeriu os dados do GP de Miami quando a Alpine soltou um comunicado que passou quase despercebido entre as polêmicas do fim de semana na Flórida. Jason Somerville, engenheiro que passou os últimos anos como chefe de aerodinâmica da FIA — lendo, revisando e aprovando os regulamentos técnicos que definem o que pode ou não voar num carro de F1 — voltará a Enstone como diretor técnico adjunto da equipe francesa.

O homem que ajudou a escrever as regras agora vai usá-las a seu favor

Somerville não é um rosto novo nos corredores de Enstone. Entre 2010 e 2012, quando a equipe ainda corria sob o nome Renault, ele integrou o departamento de aerodinâmica numa fase de transição — anos em que a equipe tentava reencontrar a consistência após os títulos de 2005 e 2006 com Fernando Alonso. Depois disso, migrou para a FIA, onde passou mais de uma década numa função que poucas pessoas no paddock entendem completamente: analisar, validar e muitas vezes moldar os limites técnicos que as equipes precisam respeitar.

Verona - Como

Quem trabalha na FIA nessa capacidade tem acesso a uma camada de informação que nenhum engenheiro de equipe possui: sabe exatamente onde os regulamentos têm ambiguidade, onde há margem de interpretação e onde uma equipe pode encontrar décimos sem violar uma linha sequer. Quando faz esse trabalho por dentro da federação, o engenheiro acumula uma visão sistêmica do desenvolvimento técnico da categoria. Quando traz esse conhecimento para uma equipe, ele vira uma bússola apontando direto para o território inexplorado do regulamento.

O próprio Somerville foi claro sobre sua motivação ao assinar com a Alpine:

"Estive afastado do lado competitivo do automobilismo, dentro de um ambiente de equipe, por alguns anos e estou ansioso pela oportunidade de voltar ao meio da ação, buscando milésimos de segundo e lutando com nossos rivais por pontos e, com sorte, por troféus."

A frase "buscando milésimos de segundo" não é retórica vazia num contexto onde, nas últimas cinco corridas da temporada 2026, a Alpine terminou com gaps para o líder que oscilaram entre 0,8 e 1,4 segundo por volta em classificação — um intervalo que, em termos de desenvolvimento aerodinâmico, representa pelo menos duas gerações de upgrade de assoalho.

O paddock de Enstone que Somerville encontra em 2026

A estrutura técnica que Somerville herda não é a mesma que ele deixou em 2012. David Sanchez, diretor técnico executivo contratado em 2024 vindo da Ferrari, já reorganizou boa parte do pipeline de desenvolvimento da fábrica em Enstone. A chegada de Somerville como diretor técnico adjunto cria uma dupla que, pelo menos no papel, complementa habilidades distintas: Sanchez tem histórico de desenvolvimento de pacote aerodinâmico em ambiente de ponta, com a infraestrutura e os recursos da Scuderia; Somerville traz o entendimento regulatório e a experiência de quem viveu o processo de homologação por dentro.

Flavio Briatore, que retornou à Alpine como consultor executivo em 2023 e desde então tem conduzido uma reestruturação ampla na equipe, aparece nominalmente na declaração de Somerville:

"Estou muito animado por voltar a Enstone e trabalhar com Flavio, Steve [Nielsen, Diretor Geral] e David nesta nova função."

A menção a Briatore antes de Nielsen e Sanchez não é acidental — numa equipe que ainda carrega o peso político de anos de instabilidade na liderança técnica, nomear o consultor executivo como referência principal é também uma declaração de alinhamento com a direção estratégica que Briatore representa.

Na avaliação do SportNavo, a contratação de Somerville é o tipo de movimento que não aparece imediatamente nos tempos de volta, mas que costuma se manifestar seis a doze meses depois, quando os upgrades desenvolvidos sob uma nova filosofia aerodinâmica chegam ao carro.

O que muda no desenvolvimento do A526 com Somerville na mesa técnica

O regulamento de 2026 trouxe mudanças estruturais no conceito aerodinâmico dos carros — menor carga de downforce mecânica, maior dependência de efeito solo calibrado e uma nova lógica de interação entre o piso e as saídas de difusor. Nesse cenário, ter alguém que participou da construção dessas regras é como ter um mapa detalhado de um terreno que todo mundo ainda está aprendendo a navegar.

Quando faz a leitura de um regulamento técnico por dentro da FIA, o engenheiro entende não apenas o texto, mas a intenção por trás de cada cláusula — e onde essa intenção deixou brechas. Quando aplica esse entendimento numa mesa de design de equipe, ele pode direcionar o trabalho dos CFD e do túnel de vento para zonas do carro que os concorrentes ainda não mapearam completamente.

A função criada especificamente para Somerville — diretor técnico adjunto, separada da posição de Sanchez como diretor técnico executivo — sugere que a Alpine pretende construir uma camada técnica com foco específico em aerodinâmica e conformidade regulatória, enquanto Sanchez coordena o projeto geral do carro. Essa divisão de responsabilidades é comum em equipes do topo do grid: a Red Bull, por exemplo, operou durante anos com Adrian Newey e Pierre Waché em funções complementares antes da saída do britânico em 2024.

A Alpine estreia as primeiras atualizações aerodinâmicas desenvolvidas com a participação direta de Somerville provavelmente a partir do GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps, previsto para julho — uma pista onde a eficiência aerodinâmica em alta velocidade e a gestão de downforce nas curvas de média velocidade costumam separar as equipes do meio do grid das que brigam genuinamente pelo top 5.