"Se ele jogar como jogou no primeiro set de cada partida, estará entre os 5 melhores até o final do ano, em Turim."A frase é de Daniil Medvedev — o mesmo jogador que acabou de derrotar Martín Landaluce. Quando um ex-número 1 do mundo precisa de dois sets para virar após tomar 6/1 e ainda sai comparando o adversário a uma vaga no ATP Finals, o recado é inequívoco: Roma acaba de descobrir algo raro.
O que os números revelam sobre a campanha de Landaluce em Roma
Antes de pisar na quadra contra Medvedev, Landaluce havia disputado três partidas na chave principal — contra Medjedovic, Bellucci e Cilic — sem ceder um único set. Esse tipo de trajetória limpa, sem perda de sets desde o início até as quartas de final, não é comum nem para cabeças de chave, quanto mais para um lucky loser de 20 anos que havia perdido no qualifying para Andrea Pellegrino. O ranking do espanhol na entrada do torneio era 94º — exatamente o tipo de posição que, historicamente, sinaliza um jogador que ainda não consolidou consistência em três sets contra o top-10.
A comparação histórica que me vem imediatamente é a de Goran Ivanisevic em Wimbledon 2001, o caso mais célebre de lucky loser a vencer um Grand Slam. Landaluce ainda está longe disso, claro, mas a lógica esportiva é a mesma: jogadores que entram sem pressão de ranking ou expectativa tendem a liberar um tênis mais instintivo, especialmente no saibro, onde a margem para exploração tática é maior. O que para o argentino é jogar com faca nos dentes desde o primeiro ponto, para o espanhol é exatamente isso — e Landaluce trouxe os dois elementos no Foro Italico.
No primeiro set contra Medvedev, o placar de 6/1 em 35 minutos foi devastador. O russo, campeão do torneio em 2023 e 7º cabeça de chave desta edição, não encontrou resposta para o ritmo agressivo do espanhol. O percentual de aproveitamento de Landaluce na primeira bola estava elevado, e os winners de fundo de quadra fluíam com naturalidade. Era o melhor tênis que o jovem havia jogado na vida — e Medvedev reconheceu isso publicamente.
O que Medvedev disse e o que os números contradizem
A virada de Medvedev começou com uma interrupção de chuva de aproximadamente 15 minutos, com o russo à frente por 3/2 no segundo set. Quando o jogo retornou, havia um jogador diferente do lado russo — mais agressivo no primeiro serviço, mais profundo nas devoluções, mais paciente na construção de pontos longos. A quebra decisiva no 9º game do segundo set, fechando em 6/4, mostrou que Medvedev havia recalibrado o plano de jogo.
O terceiro set foi o mais dramático. Landaluce quebrou cedo e chegou a 3/1, mantendo viva a possibilidade de uma das maiores surpresas do saibro europeu na temporada 2025/2026. Medvedev, porém, respondeu com pressão constante na devolução e venceu games consecutivos para virar. O russo chegou a ter três match points com 5/4, mas Landaluce se salvou — antes de ceder a quebra definitiva no 12º game, com o placar final de 7/5. Duração total: 2 horas e 24 minutos.
"Quando se é jovem, é difícil jogar uma partida completa assim, então eu apenas lutei. Estou feliz por ter conseguido garantir a vitória", completou Medvedev após o jogo.
A declaração é honesta e revela o quanto Landaluce o pressionou. O russo não foi modesto por protocolo — ele genuinamente precisou de mais de duas horas para resolver um adversário que não estava sequer entre os 50 primeiros do mundo. Para contexto: em Monte Carlo, poucas semanas antes, Medvedev havia sofrido um traumático duplo 6/0. Roma foi a resposta, mas não chegou sem susto.
O que o desempenho de Landaluce indica sobre o tênis espanhol jovem
Desde a geração de Nadal, o tênis espanhol produziu sucessivamente jogadores de saibro com base técnica sólida e competitividade acima da média. Carlos Alcaraz, hoje número 2 do mundo, é o exemplo mais recente e evidente. Landaluce, aos 20 anos, surge como mais um nome nessa fila — mas ainda com distância técnica considerável para os nomes consolidados. O ranking 94 é o retrato fiel de onde ele está: um jogador com potencial visível, mas que ainda perde no qualifying de Masters 1000 e que, em condições normais, não estaria nas quartas de final de Roma.
A diferença entre talento e consistência costuma ser medida em anos e em torneios Grand Slam. Landaluce terá Roland Garros pela frente em breve — e será o teste real para calibrar até onde vai esse potencial. Por ora, o que ele mostrou em Roma é suficiente para justificar atenção: quatro partidas, três vitórias sem perder sets, e um set dominante contra um dos melhores jogadores do mundo.
Do outro lado do torneio, Casper Ruud avançou à semifinal com uma vitória dominante sobre o italiano Luciano Darderi, por duplo 6/1 em apenas 65 minutos — resultado que lembra seu título em Madri no ano passado. Ruud enfrentou Darderi nesta sexta-feira, às 10h30 (horário de Brasília), enquanto Medvedev e Jannik Sinner se enfrentaram às 14h. Este será o 17º confronto entre o russo e o número 1 do mundo, com Sinner à frente no retrospecto por 9 a 7, com quatro vitórias consecutivas no histórico recente. Martín Landaluce, enquanto isso, volta ao circuito com um ranking que vai subir — e uma campanha de Roma que ficará em sua ficha para sempre. Ele tem 20 anos.








