Chorou antes mesmo de ouvir o próprio nome. Neymar estava sentado na sala de sua mansão em Santos, abraçado à esposa Bruna Biancardi, quando Carlo Ancelotti anunciou a lista dos 26 convocados para a Copa do Mundo no Museu do Amanhã, no Rio, na segunda-feira, 18 de maio. O que poucos sabem é que a decisão de incluir o camisa 10 pode ter raízes num arrependimento de 1995 — e numa reflexão registrada em livro há oito anos.

O erro que Ancelotti nunca esqueceu

Em Liderança Tranquila, publicado em 2018 pela Editora Grande Área, Ancelotti descreve com detalhes o momento em que recusou contratar Roberto Baggio para o Parma. O motivo: o esquema 4-4-2 que ele usava na época não comportava um mediapunta — exatamente o que Baggio era e o que Neymar é hoje.

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"No caso de Baggio, podíamos tê-lo contratado para o Parma, mas ele queria jogar como um mediapunta e eu não queria mudar o sistema de jogo, que era um 4-4-2. Por isso, disse a Baggio que não poderia trazê-lo. Foi um erro. Naquele momento, eu não tinha experiência para pensar o que penso hoje: é preciso adaptar o sistema ao jogador, e não o jogador ao sistema."

A confissão vai além do episódio com o Il Codino Divino. No mesmo livro, Ancelotti conta que, ao assumir a Juventus, mudou completamente seu esquema preferido para encaixar Zinedine Zidane — passando do 4-4-2 para um sistema com três zagueiros e quatro meio-campistas. A lição aprendida com Baggio, segundo ele, foi o que o tornou mais flexível. Errou. Aprendeu. Decidiu.

Neymar e Baggio têm mais em comum do que o estilo

A comparação entre as duas situações não é forçada. Baggio chegou à Copa de 1994 carregando pressão e questionamentos sobre forma física — e terminou como artilheiro do torneio com cinco gols, levando a Itália à final. Neymar chega ao Mundial de 2026 após 31 meses sem atuar pela Seleção Brasileira, com dúvidas sobre intensidade e condição física.

Do ponto de vista das métricas modernas, o perfil de ambos como mediapunta cria o mesmo dilema tático que Ancelotti descreveu no livro. Um jogador nessa posição exige adaptações no sistema porque opera entre as linhas, longe das referências fixas de um 4-4-2 clássico. Os números de Neymar em Copas do Mundo ajudam a contextualizar o risco que Ancelotti aceitou correr:

  • 12 jogos disputados em três edições (2014, 2018, 2022)
  • 8 gols marcados — média de 0,67 por partida, acima da média histórica de atacantes titulares do Brasil
  • 3 assistências, o que equivale a um xA (expected assists) acumulado relevante para quem jogou em esquemas nem sempre pensados para ele
  • Em 2014, o Brasil chegou à semifinal — o avanço mais longe com Neymar em campo

A lógica de Ancelotti, portanto, não é sentimental. Ela tem precedente histórico e autocrítica documentada.

A reação que dividiu o Brasil e uniu o vestiário

Confirmada a convocação, Raphinha foi o primeiro a ligar. Em videochamada transmitida no canal do próprio Neymar no YouTube, os dois comemoraram com uma promessa direta.

"Vai dar tudo certo. Nós vamos ganhar essa por**", disse Neymar a Raphinha, atacante do Barcelona e também convocado por Ancelotti.

Nas redes sociais, Vinícius Jr. escreveu "Nosso ídolo!", Endrick publicou "Deus é maravilhoso" e Rodrygo deixou "Te amamos 10" nos comentários do post de Neymar. O vestiário recebeu bem. A imprensa, nem tanto.

O comentarista Walter Casagrande, do UOL, havia escrito em 14 de maio que Neymar "voltou a ser jogador de futebol", mas questionou se isso era suficiente para uma Copa: "Não dá um drible, não dá um passe decisivo, não chuta nenhuma bola na direção do gol". A convocação transformou o debate em trincheira. O DCO, jornal ligado ao Partido da Causa Operária, foi ao extremo oposto e chamou Casagrande de "imprensa lesa-pátria" — uma posição que gerou críticas até dentro da própria base do partido, com seguidores questionando a lógica de um partido operário defendendo um atleta bilionário.

A polarização é real, mas os dados pedem equilíbrio. Do ponto de vista de PPDA (passes permitidos por ação defensiva), o Brasil de Ancelotti tem pressionado alto e exigido mobilidade dos atacantes. Neymar, a 34 anos e vindo de um período longo de lesões, vai precisar demonstrar que consegue participar dessa pressão — algo que seu histórico recente no Santos não permite avaliar com amostras grandes o suficiente para tirar conclusões sobre progressive passes ou defensive actions.

O que Ancelotti avaliou, aparentemente, foi o impacto qualitativo em zonas de criação. Neymar opera exatamente onde o xG do Brasil precisa ser gerado: entre as linhas, próximo à área, com capacidade de criar superioridades em espaços reduzidos. É o mesmo argumento que, em 1995, ele não soube usar para justificar a contratação de Baggio. Desta vez, usou.

Esta será a quarta Copa do Mundo de Neymar — ele entra para uma lista que inclui Pelé, Cafu, Ronaldo e Thiago Silva. A Seleção se apresenta oficialmente na Granja Comary no dia 27 de maio, antes de um amistoso contra o Panamá no Maracanã. Neymar tem 34 anos e, segundo ele mesmo, nenhuma Copa depois desta.