Confesso: eu errei quando achei, lá em 2024, que o preconceito sofrido por brasileiros na Europa era caso isolado, exagero de redes sociais, ruído de quem não se adaptou. Hoje, diante do que aconteceu com Caetano, filho de Joanna Maranhão, vejo o tamanho do meu equívoco — e o quanto essa ingenuidade custou em silêncio coletivo.

O que um menino de seis anos aprendeu numa sala de aula em Potsdam

Caetano tem seis anos e mora com a família em Potsdam, no leste da Alemanha, há três anos e meio. Dentro da escola, um colega o ameaçou: disse que chamaria a polícia para deportar os pais do menino. A criança foi para casa aterrorizada com a ideia de ser separada da família. Joanna Maranhão, que representou o Brasil em quatro Olimpíadas — Atenas 2004, Pequim 2008, Londres 2012 e Rio 2016 — e acumula oito medalhas em Jogos Pan-Americanos, relatou o episódio publicamente e foi direta ao nomear o que viu.

"O papel da escola nesse caso é ter um ambiente que possa salvar e resgatar a criança, e não torná-la em um pequeno nazista", disse Maranhão em entrevista à BBC News.

A professora responsável pela turma confirmou à ex-atleta que o pai do aluno agressor é apoiador do AfD, partido de extrema-direita alemão com pauta explicitamente anti-imigração, que nas eleições federais de fevereiro de 2025 obteve cerca de 20% dos votos no país. A escola prometeu abordar o tema com os alunos e reforçar suas políticas antirracistas — uma resposta institucional que a família recebeu, mas que Joanna admite não dissipar sua preocupação com as interações futuras entre as duas crianças.

O que um menino de seis anos aprendeu numa sala de aula em Potsdam O filho de Jo
O que um menino de seis anos aprendeu numa sala de aula em Potsdam O filho de Jo

Xenofobia e racismo se sobrepõem quando o alvo é brasileiro e negro

A leitura dominante sobre casos assim tende a enquadrá-los como xenofobia pura — rejeição ao estrangeiro, ao sotaque diferente, ao passaporte errado. Mas o caso de Caetano tem uma camada que essa leitura não alcança. O pai do menino, o ex-judoca Luciano Corrêa, é negro; Joanna é parda. Caetano não carrega o fenótipo padrão alemão, e isso, segundo a própria mãe, transforma o episódio em algo que vai além da origem geográfica.

Luciano Corrêa já enfrentou situações de racismo tanto na Alemanha quanto na Bélgica, país onde o casal viveu antes de se mudar para Potsdam. A sobreposição de raça e nacionalidade cria um alvo duplo — o que lembra a dinâmica descrita no documentário 13th, de Ava DuVernay, sobre como sistemas de poder usam marcadores identitários para hierarquizar corpos e definir quem pertence a um espaço. Na escola de Potsdam, uma criança de seis anos aprendeu, pela boca de um colega, que pertencer tem preço.

Segundo apuração do SportNavo, episódios de discriminação contra atletas e ex-atletas brasileiros vivendo na Europa são sistematicamente subnotificados — a maioria prefere o silêncio ao desgaste de uma denúncia formal em país estrangeiro, sem rede de apoio institucional consolidada.

A trajetória de Joanna Maranhão e o peso de falar quando é mais fácil calar

Joanna Maranhão não é uma voz nova nesse tipo de enfrentamento. Em 2008, revelou ter sido vítima de abusos por um ex-treinador na infância, tornando-se protagonista na criação da Lei Joanna Maranhão, sancionada em 2012, que tipifica crimes de pedofilia no contexto esportivo. Hoje integra a organização Sport & Rights Alliance, que atua em defesa dos direitos humanos no esporte mundial. Falar, para ela, é escolha política — não impulso emocional.

"Imaginou que seria separado de nós", disse Joanna ao descrever o estado em que Caetano chegou em casa após o incidente na escola.

Diante do episódio, a ex-nadadora optou por um gesto deliberado de acolhimento: ajudou Caetano a levar bolinhos para toda a sala, incluindo o colega que o ameaçou. A escolha não é ingenuidade — é estratégia de quem sabe que a criança agredida precisa reocupar o espaço sem carregar o peso do conflito sozinha. Mas Joanna foi clara: a preocupação com as interações entre as duas crianças permanece.

Xenofobia e racismo se sobrepõem quando o alvo é brasileiro e negro O filho de J
Xenofobia e racismo se sobrepõem quando o alvo é brasileiro e negro O filho de J

O caso de Caetano não é ponto fora da curva — é sintoma de um ambiente político alemão em que o AfD cresceu eleitoralmente e normalizou um discurso que filtra para dentro das salas de aula. Uma boa massa de pão, dizem os padeiros, exige temperatura certa e tempo controlado — se o ambiente fermenta errado, o que cresce não é pão, é problema. O que fermenta nas casas de apoiadores do AfD chega, inevitavelmente, às mochilas das crianças. E a escola de Potsdam tem agora a responsabilidade — e o prazo curto — de mostrar que sabe controlar essa temperatura.