Ganhar e ainda assim perder. O Flamengo construiu uma vantagem real no Maracanã — 2 a 1 sobre o Vitória no jogo de ida — e foi eliminado da Copa do Brasil na quinta-feira (14) ao sofrer 2 a 0 em Salvador, no Barradão. A contradição não é retórica: é o diagnóstico mais preciso de um time que domina estatísticas e perde quando o contexto exige concentração fora de casa.
A pior campanha em dez anos e o que ela revela sobre o elenco
A eliminação na quinta fase — equivalente às antigas oitavas de final — marca a saída mais precoce do Flamengo na Copa do Brasil desde 2016, quando o Fortaleza venceu os dois jogos do confronto, ambos por 2 a 1. Naquele ano, o clube ainda não havia iniciado o ciclo vitorioso que resultaria nos títulos de 2022 e 2024, totalizando cinco troféus da competição, incluindo os conquistados em 1990, 2006 e 2013. A comparação não é apenas histórica: ela expõe que o clube regrediu a um patamar que julgava superado.
O que agrava o cenário é o contraste com a sequência anterior. Antes da derrota para o Vitória, o Rubro-Negro acumulava dez jogos sem perder na temporada de 2026 — uma invencibilidade que alimentava a narrativa de regularidade. Esse número, agora, funciona como dado enganoso: o Flamengo não perdeu por dez rodadas, mas também não demonstrou, nesse período, capacidade de administrar pressão em ambientes adversos.
O que aconteceu taticamente nos dois jogos contra o Vitória
No jogo de ida, no Maracanã, o Flamengo venceu por 2 a 1, mas o gol sofrido acendeu um alerta que foi ignorado. Levar um gol em casa, jogando com a vantagem do mando, significava que qualquer deslize em Salvador custaria a classificação. A equipe foi a Salvador precisando de um empate — resultado que, teoricamente, favorecia o time de maior investimento — e entrou em campo sem conseguir impor seu padrão de jogo.
O Vitória venceu por 2 a 0 e se classificou às oitavas de final com mérito tático. O time baiano explorou a transição rápida e a dificuldade do Flamengo em proteger as linhas defensivas quando pressionado fora do Maracanã. Esse padrão — vulnerabilidade em deslocamentos decisivos — não é novo no clube carioca, mas segue sem solução estrutural no planejamento da comissão técnica.
Furou.

Danilo e a cobrança que expõe a tensão interna
Na zona mista do Barradão, Danilo, zagueiro rubro-negro, não poupou palavras. O desabafo do defensor foi direto ao ponto e, ao mesmo tempo, revelador do ambiente interno:

"Todo mundo que joga contra o Flamengo, pela história, pela cultura, pelo investimento, vai querer sempre vencer, dar o máximo. Resta a gente olhar para dentro e dar uma resposta no próximo final de semana", disse o zagueiro.
A fala de Danilo contém uma informação que merece atenção: ele reconhece publicamente que o investimento do clube cria uma pressão específica nos adversários — e que o elenco ainda não encontrou a resposta adequada para lidar com esse peso. Quando um jogador de experiência internacional usa a palavra "investimento" numa cobrança pós-eliminação, está sinalizando que o problema não é apenas técnico. Há uma desconexão entre o que o clube gasta e o que entrega em momentos decisivos.
O levantamento histórico que o SportNavo acompanhou ao longo da temporada reforça esse padrão: o Flamengo tem o maior orçamento de futebol do Brasil em 2026, com contratos de jogadores que somam cifras acima dos R$ 800 milhões em valor de mercado, mas repete erros de gestão de partidas que custaram eliminações em anos anteriores.
O que o Flamengo precisa resolver antes de perder mais do que uma taça
A eliminação na Copa do Brasil não compromete matematicamente a temporada — o Flamengo ocupa a segunda posição do Campeonato Brasileiro com 30 pontos, quatro atrás do Palmeiras, líder com 34. Mas o custo é estratégico: perder uma competição de mata-mata cedo reduz o número de jogos de alta pressão que o elenco precisa para desenvolver maturidade decisiva.
O próximo compromisso é imediato e revelador. No domingo (17), o Rubro-Negro enfrenta o Athletico-PR na Arena da Baixada, em Curitiba, pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro, às 19h30 (horário de Brasília). O jogo tem transmissão pelo SporTV e Premiere. Jogar em Curitiba, fora de casa, três dias depois de uma eliminação em Salvador, é exatamente o tipo de sequência que expõe ou resolve o problema que Danilo identificou na zona mista: a capacidade do grupo de olhar para dentro e responder com resultado.
Ganhar e ainda assim perder — essa é a frase que define o Flamengo agora, enquanto o Vitória avança e o Rubro-Negro recomeça.








