Um pêndulo que bate duas vezes no mesmo segundo — e para. É assim que o calendário do esporte mundial registrou 1º de maio: a data que em 1994 levou Ayrton Senna e que em 2026, exatamente 32 anos depois, levou Alessandro Zanardi, 59 anos, morto em paz cercado pela família segundo comunicado oficial divulgado por seus entes queridos. A coincidência não é metáfora: é física pura, dois corpos que pararam no mesmo ponto do tempo.
Zanardi nasceu em Bolonha em 1966 e cresceu num ambiente em que Senna já era um nome sussurrado nos paddocks europeus de kart. Em entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN, gravada em 2020, o italiano revelou que os dois se encontraram justamente nesse universo de motores dois tempos e curvas fechadas. "Eu tive a sorte de conhecê-lo quando ele estava encerrando sua carreira no kart", disse Zanardi. O jovem Senna estava prestes a cruzar o Canal da Mancha para disputar a Fórmula Ford na Inglaterra — e o jovem Zanardi, recém-comprador de seu primeiro kart, já sabia exatamente quem ele era.
O que dizem os envolvidos
A fala de Zanardi sobre Senna tem a precisão de quem guardou cada detalhe por décadas. Em 1984, quando o brasileiro assinou com a Toleman-Hart para sua estreia na Fórmula 1, Zanardi chegou à escola e fez uma previsão que seus colegas receberam com ceticismo:
"Lembro que, quando fui à escola, ele tinha assinado para correr com a Toleman, em 1984. Foi o primeiro dia de aula e eu falei para meus amigos: 'Este ano vocês vão ver esse cara: Ayrton Senna. Ele fará coisas incríveis na Toleman'. Todos me diziam 'Quem é esse? Os fortes são Mansell, Prost, Lauda'. Ninguém acreditava em mim."
A resposta veio no GP de Mônaco de 1984, sob chuva intensa, quando Senna perseguia Alain Prost com uma vantagem crescente antes de a direção de prova encerrar a corrida prematuramente. No dia seguinte, os mesmos amigos céticos procuraram Zanardi na escola. "Você tem razão. Esse Senna realmente é um fenômeno", reproduziu o italiano, com satisfação mal disfarçada. Aquele momento, segundo o próprio Zanardi, cristalizou Senna como seu "grande modelo" — as palavras exatas que usou na entrevista de 2020.
A conexão com o Brasil não parou no ídolo. Zanardi também deixou registrada sua relação afetiva com o país ao comentar os Jogos Paralímpicos do Rio de 2016, realizados no Parque Olímpico construído sobre o antigo Autódromo de Jacarepaguá: "Amei aquele lugar. Sempre fui rápido lá. Mas, por alguma razão, não venci uma corrida. Era hora de voltar e ganhar", disse ele ao jornal Extra. Ganhou, de fato — duas vezes.
O que dizem os números
Para entender a dimensão do que Zanardi construiu, pense numa linha de produção com duas fases completamente distintas — e ambas com controle de qualidade impecável. Na primeira fase, o automobilismo: vice-campeão da F3000 em 1991 (perdendo o título para o brasileiro Christian Fittipaldi), passagens pela Jordan, Minardi, Lotus e Williams na Fórmula 1, e dois títulos consecutivos da CART/Fórmula Indy em 1997 e 1998 pela equipe Ganassi. Na segunda fase, o paraciclismo: seis medalhas paralímpicas, sendo quatro ouros e duas pratas, distribuídas entre Londres 2012 e Rio 2016.
A distância entre esses dois momentos da carreira é, do ponto de vista humano, algo como a distância de Manaus a Salvador — mais de 3.600 quilômetros de asfalto entre quem era e quem se tornou. Em setembro de 2001, no Lausitzring, na Alemanha, Zanardi rodou na saída dos boxes durante a etapa da Indy e foi atingido em altíssima velocidade pelo carro do canadense Alex Tagliani. Perdeu ambas as pernas no impacto e precisou ser reanimado sete vezes a caminho do hospital. A engenharia do corpo humano, naquele dia, operou no limite absoluto de suas tolerâncias estruturais.
A análise do SportNavo sobre a trajetória de Zanardi mostra que poucos atletas na história do esporte mundial conseguiram atingir o topo em duas modalidades tão distintas — e fazê-lo separados por uma amputação bilateral. Os números de Londres 2012 e Rio 2016 não são curiosidades estatísticas: são dados de performance de um sistema que foi completamente reconfigurado e voltou a operar em regime de alta carga.
O que digo eu sobre o quadro
Como engenheiro, aprendi que os sistemas mais resilientes não são os mais rígidos — são os que conseguem redistribuir a carga após uma falha catastrófica. Zanardi é o exemplo mais perfeito dessa lógica fora de um laboratório. O acidente de 2001 não foi uma falha de sistema: foi uma ruptura estrutural completa. A resposta dele foi recalcular a distribuição de peso, adaptar o hardware disponível e voltar a competir com eficiência superior à de muitos atletas sem nenhuma limitação física.
Senna operava com uma lógica parecida, mas no domínio da aerodinâmica mental. Ele entendia intuitivamente o que os engenheiros da época levavam horas para calcular: onde o carro tinha aderência, onde o limite estava, como explorar cada milímetro de pista molhada. Zanardi absorveu essa postura — a de quem não aceita o envelope operacional como fixo — e a transplantou para cada fase da vida. Quando perdeu as pernas, não diminuiu a velocidade de cruzeiro: trocou o veículo.
O destino, porém, não terminou o teste em 2001. Em 2020, durante uma prova de handbike em Pienza, na Itália, Zanardi sofreu novo acidente grave ao colidir com um caminhão, acumulando sequelas com as quais conviveu até 1º de maio de 2026. Ele deixa a esposa Daniela e o filho Niccolò. O esporte perdeu dois de seus maiores nomes no mesmo dia do calendário, com 32 anos de intervalo — Zanardi foi o último a saber disso, mas provavelmente o primeiro a ter entendido o peso daquela data. Está completo o círculo — falta apenas ao esporte aprender com ele.








