Confesso: eu subestimei, por anos, a velocidade com que símbolos migram de contextos inocentes para arsenais ideológicos. Trabalhei oito anos como correspondente na Europa, cobri episódios de racismo nas arquibancadas de San Siro e do Camp Nou, e ainda assim não imaginava que um gesto cotidiano como o sinal de "ok" pudesse se tornar, em menos de uma década, um código reconhecido por grupos supremacistas ao redor do mundo. Hoje, assistindo ao caso do supervisor do VAR Shaun Evans explodir nas redes sociais durante a Copa do Mundo, percebo o tamanho do que ignorei.
O que Shaun Evans fez e por que o gesto importa agora
Antes do apito inicial de Alemanha 7 x 1 Curaçao, neste domingo, 14 de junho, câmeras de transmissão registraram Evans — árbitro australiano que integra o quadro da Fifa desde 2017 — com uma das mãos em posição que une o polegar ao indicador em círculo, enquanto os demais dedos permanecem esticados. O gesto, até 2017 tratado universalmente como sinal de aprovação, passou a carregar um segundo significado naquele ano, quando usuários do fórum 4chan lançaram uma campanha deliberada afirmando que o símbolo formava as letras "W" e "P" — white power. A campanha era originalmente uma provocação, mas o efeito foi real: grupos extremistas adotaram o código, e a Liga Antidifamação dos Estados Unidos (ADL) incluiu o gesto em sua base de dados de símbolos de ódio.
A imagem de Evans viralizou em minutos. Dezenas de usuários marcaram o perfil oficial da Fifa nos compartilhamentos, exigindo posicionamento. Até o fechamento desta matéria, a entidade não havia emitido uma linha sequer sobre o episódio — nem para investigar, nem para contextualizar, nem para descartar.
Um histórico que coloca Evans sob lupa diferente
Shaun Evans não é um estreante. Natural da Austrália, ele começou na arbitragem da A-League, foi promovido a árbitro principal em 2012 e esteve presente na cabine do VAR na Copa do Mundo do Catar, em 2022. Trata-se de um profissional com trajetória consolidada, o que torna o episódio ainda mais delicado: não há como invocar inexperiência como atenuante.
O contexto do jogo tampouco ajuda a minimizar. Curaçao é uma seleção composta majoritariamente por jogadores negros e descendentes da diáspora caribenha. A partida terminou com uma goleada de 7 a 1 — seria injusto chamar de massacre histórico, mas é um massacre em escala de Copa do Mundo — e a imagem do árbitro circula agora colada a esse placar, criando uma narrativa visual que a Fifa precisará desconstruir com urgência, caso queira evitar danos maiores à sua credibilidade.
Segundo a BBC, o próprio caráter ambíguo do símbolo é parte do problema. Por muito tempo, o gesto funcionou como um dog whistle — um código que apenas iniciados reconheceriam, permitindo negação plausível a quem fosse confrontado. Essa ambiguidade, que antes protegia quem o usava, agora complica a investigação: provar intenção é quase impossível, mas ignorar o impacto também não é uma opção.
O que a Fifa pode fazer e o que o silêncio já diz
A entidade tem precedentes para agir. Em 2021, a UEFA puniu a Federação Húngara após episódios de racismo nas arquibancadas durante a Eurocopa, aplicando multas e jogos com portões fechados. Em 2023, a própria Fifa suspendeu o presidente da Federação Espanhola, Luis Rubiales, em menos de 72 horas após o beijo forçado em Jenni Hermoso na premiação da Copa do Mundo Feminina — um caso que mostrou que a entidade pode agir com velocidade quando a pressão pública é suficiente.
O silêncio atual, portanto, não é neutro. Cada hora sem pronunciamento oficial alimenta a percepção de que a Fifa trata denúncias de discriminação racial com critérios distintos dos que aplica a outros tipos de conduta. Esse padrão duplo foi documentado por organizações como a Fare Network (Football Against Racism in Europe) ao longo dos anos 2000 e 2010, e continua sendo o calcanhar de Aquiles da governança do futebol mundial.
"Desde pequeno, sonho em vestir essa camisa. É uma honra fazer parte de uma nação que acaba de ser coroada tricampeã africana"
A frase acima é de Guéla Doué, lateral da Costa do Marfim que escolheu defender a seleção africana em vez da França — país onde nasceu e se formou. Ela não tem relação direta com Evans, mas ilustra algo que o futebol frequentemente esquece: para jogadores negros que representam nações menores, cada símbolo importa, cada gesto é lido, e o ambiente dentro de campo começa muito antes do apito inicial.
A Fifa tem até o próximo jogo de Evans — caso ele seja escalado — para decidir se abre investigação formal, afasta o supervisor preventivamente ou emite ao menos uma nota reconhecendo a repercussão. Qualquer dessas três opções seria preferível ao vácuo atual. O Comitê de Ética da entidade tem poder para suspender árbitros durante investigações, como fez em casos de manipulação de resultados entre 2011 e 2015. O instrumento existe. O que falta, por ora, é a vontade de usá-lo — e essa ausência, por si só, já é uma resposta.










