Diz-se que o Corinthians de Fernando Diniz tem um elenco indisciplinado por acidente — que são casos isolados, episódios de calor do momento. Os números do Brasileirão 2026 desmentem essa narrativa com precisão cirúrgica: cinco expulsões em onze rodadas, duas delas por gesto obsceno, cometidas por jogadores diferentes, em partidas distintas, contra adversários diferentes. Não é acidente. É padrão.

O que André fez aos 34 minutos na Neo Química Arena

O lance aconteceu aos 34 minutos do primeiro tempo do clássico contra o Palmeiras, disputado no último domingo (12), pela 11ª rodada do Campeonato Brasileiro. André, 19 anos, sofreu uma falta de Andreas Pereira no meio de campo. Ao se levantar, colocou a mão na região genital e fez um gesto obsceno em direção ao meia do Palmeiras. A reação dos jogadores adversários foi imediata — e a intervenção do VAR, inevitável.

Daniel Nobre Bins, responsável pela cabine de vídeo, acionou a revisão. O árbitro Flávio Rodrigues de Souza foi ao monitor e, após checar o lance, formalizou a decisão em campo com a seguinte declaração:

"Após revisão, foi identificado que o jogador de branco faz gesto obsceno para seu adversário. A decisão final é cartão vermelho."

Na súmula entregue à CBF, Flávio foi ainda mais detalhista. Registrou que André Luiz Santos Dias, número não especificado na escalação oficial, "colocou a mão em seu órgão genital e realizou gesto obsceno em direção ao jogador da equipe do Palmeiras, Sr. Andreas Pereira, número 8". Texto técnico, consequências práticas: o Corinthians jogou mais de 55 minutos com dez homens num Dérbi que, com um jogador a menos, terminou em 0 a 0 — resultado que, na tabela, mantém o clube na 16ª posição, com 11 pontos, apenas um à frente do Z-4.

Allan foi o ensaio geral — e ninguém aprendeu a lição

Reparemos no detalhe que mais incomoda nos bastidores do clube: o precedente era recente demais para ser ignorado. Em 1º de abril, na derrota por 3 a 1 para o Fluminense, o volante Allan foi expulso após a mesma sequência de eventos — falta sofrida, tensão com adversário, gesto obsceno captado pelo VAR. Na ocasião, o árbitro Davi de Oliveira Lacerda identificou que Allan segurou a genitália e a balançou em direção ao colombiano Serna. Expulsão direta, mesmo ritual, mesma punição.

A distância entre as duas expulsões por gesto obsceno é de pouco mais de quarenta dias. Nesse intervalo, a comissão técnica de Fernando Diniz não conseguiu — ou não priorizou — criar um protocolo interno capaz de conter esse tipo de comportamento. Segundo apuração do SportNavo junto a fontes próximas ao departamento de futebol do clube, não houve reunião formal com o elenco sobre conduta disciplinar após o caso Allan. A gestão tratou o episódio como pontual. André provou que não era.

O efeito cascata de cinco vermelhos em onze rodadas

A expulsão de André não foi o único vermelho do clássico. Aos 24 minutos do segundo tempo, Matheuzinho agrediu Flaco López com um soco no rosto, fora da disputa de bola, e também foi expulso de forma direta após revisão do VAR. O lateral ainda se recusou a deixar o campo, retardando o reinício da partida. Quando finalmente saiu, proferiu ofensas à arbitragem — tudo registrado por Flávio Rodrigues de Souza na súmula oficial. O Corinthians terminou o jogo com nove jogadores.

Cinco expulsões em onze rodadas constroem um cenário que vai muito além do futebol dentro de campo. No STJD, gestos obscenos são enquadrados no artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, com pena que varia de dois a seis jogos de suspensão. André, por ser reincidente na mesma temporada — a expulsão de Allan cria precedente coletivo para o clube, embora a punição individual seja autônoma —, pode receber o espectro mais longo dessa penalidade. A suspensão mínima já o tiraria dos confrontos seguintes; a máxima comprometeria quase dois meses de calendário para um jogador que Fernando Diniz usa como peça de rotatividade no meio-campo.

O calendário imediato do Corinthians torna esse quadro ainda mais delicado. Na quarta-feira (15), o clube enfrenta o Deportivo Santa Fé pela segunda rodada da fase de grupos da Libertadores. Com André suspenso e Matheuzinho igualmente fora por punição disciplinar, Diniz precisará recompor dois setores distintos — meio-campo e lateral-direita — ao mesmo tempo, contra adversário de competição continental.

O que André fez aos 34 minutos na Neo Química Arena O gesto que o Corinthians já
O que André fez aos 34 minutos na Neo Química Arena O gesto que o Corinthians já

A luta contra o rebaixamento não tolera esse luxo

O empate em 0 a 0 contra o Palmeiras, líder com 26 pontos, pode parecer um resultado honroso considerando as circunstâncias. Como uma tempestade que assusta sem raio nem trovão, o Corinthians criou tensão, resistiu, mas não produziu futebol suficiente nem nos momentos em que esteve com onze jogadores — o único chute de perigo real foi de Yuri Alberto, aos 30 minutos do primeiro tempo, que saiu pela linha de fundo. Carlos Miguel, ex-goleiro do próprio Corinthians, defendeu a melhor chance corintiana no segundo tempo sem maiores dificuldades.

Com 11 pontos em 11 rodadas, o Corinthians está a um ponto do Cruzeiro, que abre a zona de rebaixamento. A matemática é simples e impiedosa: um clube que perde jogadores para expulsão evitável — não por lance de disputa, mas por gesto premeditado — está sabotando sua própria capacidade de acumular pontos numa fase em que cada ponto tem peso de ouro. As próximas rodadas do Brasileirão definirão se Fernando Diniz consegue impor ao elenco a disciplina que o campo, até agora, não demonstrou. O Corinthians volta a campo na quarta-feira (15) contra o Santa Fé pela Libertadores, com pelo menos dois titulares a menos e a pressão de um calendário que não para.