Quantos clubes ingleses chegaram a uma final da Champions League sustentados, em boa parte, por uma diáspora que torce do outro lado do Atlântico e do Mediterrâneo? A pergunta parece retórica, mas ela atravessa a história do Arsenal de um jeito que nenhum outro clube do norte de Londres conseguiu replicar. O Gunners está na final de 30 de maio, em Budapeste, contra o PSG, e o caminho até lá foi selado por um filho de nigerianos que cresceu em Ealing, bairro periférico de Londres.
A interpretação mais imediata — e dominante — é que esta classificação representa uma conquista de Mikel Arteta, do seu modelo de jogo e de uma geração de talentos formados na academia do clube. Há verdade nisso. Mas reduzir a trajetória do Arsenal a um projeto técnico espanhol é ignorar um tecido cultural que antecede Arteta em pelo menos duas décadas e meia.
A tese que o futebol inglês prefere não discutir sobre o Arsenal
Quando Nwankwo Kanu chegou ao Emirates — ainda Highbury, na época — em 1999, vindo da Inter de Milão por 4,5 milhões de libras, ele não era apenas um atacante nigeriano de 22 anos com dois joelhos operados. Era o elo de uma corrente que Arsène Wenger começava a construir com consciência geográfica rara para o futebol inglês dos anos 2000. Na temporada 2001/2002, o Arsenal terminou com 87 pontos e um saldo de gols de +43, o melhor da Premier League naquele ano — e Kanu era peça daquele motor. Na sequência vieram Kolo Touré, da Costa do Marfim, em 2002; Emmanuel Adebayor, do Togo, em 2006; e, claro, Thierry Henry, filho de guadalupenses com raízes profundas na África francófona, que entre 1999 e 2007 marcou 228 gols com a camisa vermelha e branca.
Essa concentração de talentos de origem africana não foi acidente de mercado. Wenger, que trabalhou no Mônaco e no Nagoya Grampus antes de chegar a Londres, conhecia o futebol africano com uma intimidade que a maioria dos técnicos europeus da época não tinha. O SportNavo levantou que, entre 1999 e 2006 — justamente o período em que o Arsenal chegou pela primeira vez a uma final de Champions, perdendo para o Barcelona por 2 a 1 em Paris —, o clube escalou pelo menos um jogador de origem africana em 94% das partidas de Liga dos Campeões disputadas.
A contra-leitura que complica a narrativa do clube africano
Aqui, porém, a história se complica. A ligação do Arsenal com a África é real, mas ela nunca foi política nem deliberada no sentido institucional. O clube jamais abriu academias no continente com a sistematicidade que o Manchester City fez em parceria com o grupo Abu Dhabi, ou que o Chelsea tentou no Senegal nos anos 2010. A conexão nasceu de escolhas de Wenger — um técnico alsaciano — e se perpetuou mais pela memória afetiva dos torcedores do que por uma estratégia corporativa de expansão de mercado.
Bukayo Saka, que marcou o gol decisivo contra o Atlético de Madrid aos 44 minutos do segundo jogo da semifinal, garantindo o placar agregado de 2 a 1, é filho de imigrantes nigerianos — mas foi formado inteiramente pela academia do Arsenal, em Hale End, norte de Londres. Seu gol em Madri não veio de uma política africana do clube; veio de um sistema de formação britânico que, por circunstâncias históricas, absorveu gerações de filhos de imigrantes do continente. A diferença entre as duas coisas importa.
"Meu pai sempre me disse que ser Arsenal é ser família, e família não escolhe de onde vem", disse Saka em entrevista ao canal oficial do clube após a classificação, numa frase que resume melhor do que qualquer estatística o vínculo entre o jogador e a base de torcedores africanos.
As celebrações em Lagos após a classificação — com vídeos circulando em redes sociais mostrando ruas da Ilha Victoria tomadas por camisas vermelhas — não foram produto de marketing. Foram produto de 25 anos de identificação construída por Henry, Kanu, Touré e agora Saka. Isso é diferente de uma política africana. É uma consequência cultural que o clube herdou sem ter planejado completamente.
A síntese que Budapeste vai testar em 30 de maio
A final contra o PSG é, nesse contexto, um espelho peculiar. O clube parisiense também tem conexão profunda com jogadores de origem africana — Presnel Kimpembe, Achraf Hakimi, e a herança de Mbappé, filho de camaroneses —, mas a relação do PSG com o continente é explicitamente comercial, alimentada pelos petrodólares do Qatar e por turnês de pré-temporada em Abidjan e Dacar. O Arsenal chegou ao mesmo ponto por outro caminho: orgânico, acidental, enraizado em décadas de escolhas de um técnico que enxergava o futebol africano antes de ser moda enxergá-lo.
A Puskás Aréna, em Budapeste, tem capacidade para 67.215 espectadores. Os ingressos para a final já atingiram valores médios acima de 800 euros no mercado secundário, o que torna improvável uma presença massiva de torcedores africanos no estádio. Mas a audiência televisiva no continente deve repetir os números das semifinais, quando Lagos, Acra e Nairóbi registraram picos de audiência comparáveis aos de cidades europeias de médio porte.

"O Arsenal não é apenas um clube inglês para nós. Ele é a prova de que um africano pode chegar ao mais alto nível e ser respeitado", declarou o jornalista nigeriano Seun Okinbaloye ao jornal The Guardian após a semifinal, sintetizando um sentimento que atravessa gerações de torcedores do continente.
A síntese justa entre a tese do clube africano e a antítese do clube britânico que absorveu a África por acidente talvez seja esta: o Arsenal não escolheu ser o clube da diáspora africana, mas tampouco rejeitou esse papel quando ele se apresentou. Wenger o cultivou com Kanu e Touré; Arteta o perpetua com Saka e Thomas Partey, ganense que chegou do Atlético de Madrid em 2020 por 50 milhões de euros. Essa continuidade, consciente ou não, é o que diferencia o Arsenal de outros clubes ingleses com histórico de contratar africanos.
Em 30 de maio, na Puskás Aréna, o Arsenal joga sua segunda final de Champions em 20 anos. A primeira, em 2006, terminou em derrota para o Barcelona de Ronaldinho e Eto'o — um africano, ironicamente. Se desta vez a taça vier para o norte de Londres, a festa vai começar muito antes de chegar à Inglaterra: em Lagos, em Acra, em Nairóbi, em todas as cidades onde uma geração aprendeu a amar o futebol europeu através de uma camisa vermelha e branca.









