27 nomes. Roberto Martínez anunciou nesta terça-feira, 19 de maio de 2026, uma convocação com um jogador a mais do que a Copa do Mundo permite inscrever — e a decisão, longe de ser um erro burocrático, é uma resposta calculada às exigências logísticas de um torneio inédito em três países. O nome que excede o limite oficial da Fifa é o do goleiro Ricardo Velho, convocado não para jogar, mas para existir como contingência.
Um precedente que a história do futebol já conhece
A prática de carregar um atleta além do elenco oficial não é invenção de Martínez. Na Copa de 2002, disputada entre Coreia do Sul e Japão, ao menos quatro seleções utilizaram mecanismos similares de substituição emergencial de goleiros, amparadas por regulamentos que já previam a hipótese de lesão pré-competitiva. A diferença agora é de escala: a Copa do Mundo de 2026, com 48 seleções e jogos distribuídos entre Estados Unidos, Canadá e México, impõe deslocamentos que podem superar 4.000 quilômetros entre uma sede e outra. O desgaste físico começa antes do apito inicial.
Martínez reconheceu publicamente essa variável ao justificar a convocação de quatro goleiros — Diogo Costa, Rui Silva, José Sá e Ricardo Velho — para a fase de preparação. Segundo a Reuters, o técnico espanhol tratou internamente o grupo como "27 mais um", em referência ao atacante Diogo Jota, morto em acidente de carro no ano passado. A 27ª vaga, portanto, carrega ao mesmo tempo um peso regulatório e um peso simbólico.
O que a Fifa permite e o que Ricardo Velho pode fazer
As regras divulgadas pela Fifa para o Mundial de 2026 estabelecem que cada seleção poderá registrar oficialmente entre 23 e 26 atletas. Portugal pretende inscrever 26 — e Ricardo Velho ficará fora dessa lista enquanto os três titulares da posição estiverem aptos. A única porta de entrada para ele é a lesão comprovada de um dos goleiros inscritos, antes da estreia ou durante a competição.

"A decisão foi tomada levando em consideração o desgaste previsto no Mundial de 2026, que será disputado em três países diferentes e exigirá deslocamentos longos entre cidades", explicou Martínez ao anunciar a lista.
Esse mecanismo de substituição emergencial de goleiros existe no regulamento da Fifa há décadas, mas raramente é acionado. Entre 1998 e 2022, apenas três goleiros foram substituídos por lesão durante Copas do Mundo — uma taxa de ocorrência inferior a 2% por torneio, considerando o total de arqueiros convocados pelas 32 seleções participantes. Com 48 equipes em 2026, o universo estatístico cresce, mas a probabilidade individual permanece baixa.
Quem é Ricardo Velho e por que Martínez o escolheu
Ricardo Velho, 25 anos, defende o Porto e acumula passagens pelas categorias de base da seleção portuguesa. Não figura entre os goleiros de referência do futebol europeu — sua convocação não é uma declaração de desempenho, mas de confiança técnica e familiaridade com o sistema de jogo de Martínez. O treinador optou por um nome conhecido do ambiente da seleção em vez de um goleiro de maior projeção comercial que exigiria adaptação em tempo reduzido.
A escolha revela uma lógica gerencial que o SportNavo tem acompanhado ao longo do ciclo classificatório europeu: Martínez privilegia coesão de grupo e previsibilidade tática sobre apostas de mercado. Dos 27 convocados, 19 já estiveram em pelo menos uma das últimas três convocações da seleção portuguesa — um índice de continuidade acima da média histórica dos últimos quatro técnicos do país.
O que a Copa de 2026 muda na gestão dos elencos
A ampliação de 32 para 48 seleções, combinada com a distribuição geográfica entre três países, criou um problema de gestão que as comissões técnicas ainda estão aprendendo a resolver. O intervalo entre jogos pode ser de até 10 dias na fase de grupos, o que aumenta o risco de lesões musculares em atletas que ficam longos períodos sem ritmo competitivo. Portugal identificou a posição de goleiro como a mais vulnerável a esse tipo de problema — e agiu preventivamente.
A estratégia tem custo: Ricardo Velho viaja, treina, ocupa vaga logística e psicológica no grupo, mas não tem garantia de entrar em campo sequer por um minuto. Se os três goleiros inscritos chegarem à final sem contratempos, ele retorna a Lisboa tendo participado de uma Copa do Mundo sem ter sido oficialmente jogador dela. Essa ambiguidade — presença sem inscrição, convocação sem participação — é o território incomum que a Copa de 2026 abriu para os regulamentos do futebol.
Portugal estreia no torneio em junho, em jogo ainda a ser definido pela programação oficial da Fifa. Ricardo Velho estará no banco de reservas — ou fora dele, à espera de uma lesão que ninguém quer que aconteça.










