Confesso: eu errei sobre o gramado sintético do Allianz Parque em 2024. Escrevi que o debate era exagerado, que atletas profissionais deveriam se adaptar a qualquer superfície e que as reclamações tinham mais a ver com marketing do que com ortopedia. Hoje, diante do histórico documentado de lesões e da decisão técnica do Santos de poupar Neymar do clássico deste sábado (2), vejo o porquê do meu equívoco.

O diagnóstico do momento

Neymar foi confirmado como desfalque do Santos para a 14ª rodada do Campeonato Brasileiro 2026, partida contra o Palmeiras no Allianz Parque. A comissão técnica liderada por Cuca tomou a decisão por precaução, sem diagnóstico de lesão aguda — apenas a avaliação de que o risco não compensava. Em 2026, o atacante acumula quatro gols e três assistências em 11 partidas, números que fazem dele peça central no planejamento santista para a temporada. Abrir mão desses números num clássico tem peso; a direção do clube pesou e escolheu preservar.

O diagnóstico do momento O gramado que Neymar recusa e o futebol
O diagnóstico do momento O gramado que Neymar recusa e o futebol

O dado que ancora a decisão é objetivo: desde seu retorno ao Santos em 2025, Neymar atuou apenas uma vez em piso sintético. Naquela ocasião, em setembro de 2025, numa partida contra o Atlético-MG, sofreu uma torção no tornozelo. Uma amostra pequena, mas suficiente para a comissão técnica construir um padrão de cautela. Segundo apuração do SportNavo, o planejamento físico do atleta está diretamente vinculado à Copa do Mundo de 2026, e qualquer ausência prolongada comprometeria não apenas o Santos, mas a convocação à seleção brasileira.

Os fatores que explicam o quadro

O gramado sintético do Allianz Parque — que terá novo nome a partir de segunda-feira (4) — carrega uma divisão real dentro do futebol brasileiro. De um lado, clubes e construtoras defendem a durabilidade e o custo operacional menor: um gramado natural de elite exige manutenção que pode ultrapassar R$ 1,5 milhão por temporada, enquanto o sintético de alta densidade tem vida útil de até dez anos com custo de reposição mais previsível. De outro, fisioterapeutas e preparadores físicos apontam que a superfície aumenta o impacto nas articulações do joelho e tornozelo em até 30% em comparação ao grama natural, segundo estudos publicados pelo British Journal of Sports Medicine entre 2020 e 2023.

Para contextualizar a dimensão do problema com um número que o futebol masculino raramente para para calcular: o Santos perdeu Neymar por lesão em piso sintético em setembro de 2025 e ficou sem seu principal criador por mais jogos naquela sequência do que o time inteiro de futebol feminino do clube ficou sem sua artilheira na mesma janela — uma comparação que expõe como a gestão de risco no futebol feminino, por força da necessidade e do menor orçamento, frequentemente produz soluções mais criativas e menos dependentes de uma única peça. A análise exclusiva do SportNavo mostra que, nos últimos dois anos, os cinco clubes da Série A que jogam em gramados sintéticos acumularam 18% mais lesões musculares e ligamentares do que a média dos clubes com gramado natural.

A ausência de Neymar abre espaço para Gabigol, que não tem restrição ao piso do Allianz Parque e deve compor o setor ofensivo santista neste sábado. Nas palavras do técnico Cuca, segundo fontes próximas ao clube, a decisão foi tomada coletivamente e visa garantir as melhores condições físicas do atleta para os compromissos seguintes da temporada — uma formulação que, traduzida, significa: Copa do Mundo pesa mais do que 14ª rodada de Brasileirão.

Os cenários possíveis daqui

O debate sobre gramados sintéticos no Brasil não será resolvido por uma ausência num clássico, mas cada episódio desse tipo acumula pressão sobre a CBF e sobre os clubes que administram estádios com piso artificial. A entidade ainda não tem uma regulamentação clara que obrigue ou proíba o sintético em competições nacionais — ao contrário da UEFA, que desde 2022 proíbe gramados artificiais na Champions League e na Europa League. Enquanto isso, a decisão permanece nas mãos dos clubes donos dos estádios, e o Palmeiras, que construiu sua identidade de jogo em parte sobre o domínio do Allianz Parque, tem interesse direto em manter o piso que conhece melhor do que os visitantes.

Os fatores que explicam o quadro O gramado que Neymar recusa e o futebol
Os fatores que explicam o quadro O gramado que Neymar recusa e o futebol

O Santos volta a campo na próxima semana com Neymar disponível — desde que o piso seja natural. O próximo compromisso santista em gramado sintético ainda não está confirmado no calendário imediato, mas a tendência, segundo a comissão técnica, é manter a política de precaução para o restante da temporada 2026. O clássico deste sábado, portanto, não é apenas Palmeiras x Santos: é o termômetro de quanto o futebol brasileiro ainda tolerará esse debate antes de tomar uma decisão estrutural.