O grito saiu antes mesmo do intervalo. Aos 10 minutos do primeiro tempo, quando o goleiro Matej Kovář se posicionou para cobrar um tiro de meta no Estádio Azteca, a arquibancada uniu as vozes num coro que a Copa do Mundo conhece de cor: Oh… puto. A vitória por 3 a 0 sobre a República Tcheca, que colocou o México na liderança do Grupo A, ficou marcada não pelo placar, mas pela repetição de um ritual que nenhuma multa, campanha ou suspensão parcial de estádio conseguiu apagar.
Uma conta que só cresce desde 2018
A história das punições ao México pela FIFA começa, pelo menos formalmente, na Copa da Rússia. Em 2018, a federação mexicana foi multada em 10 mil francos suíços após o grito ecoar na estreia contra a Alemanha — e aquilo parecia um aviso. Não foi.
Em 2024, durante amistosos contra Bolívia, Uruguai, Estados Unidos e Brasil, os gritos voltaram com força. No jogo contra o Brasil, o árbitro chegou a paralisar a partida aos 13 minutos do segundo tempo, e o telão do estádio exibiu uma mensagem pedindo que a torcida parasse. A FIFA aplicou duas multas: 60 mil e 70 mil francos suíços. A Federação Mexicana de Futebol (FMF) recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), argumentando que havia investido recursos significativos desde 2015 em esforços de conscientização. O TAS não cedeu.
"O painel reconhece a natureza única da situação da FMF, que demonstrou que recursos financeiros e esforços significativos foram implantados para erradicar a conduta ofensiva. No entanto, eles entenderam que a conduta proibida persiste, e as medidas preventivas não carregam peso legal suficiente para isentar a FMF de responsabilidade."
As duas multas foram mantidas. O TAS anulou apenas a determinação de fechamento de 15% do Azteca para a abertura da Copa, por entender que a FIFA aplicou critérios desiguais em casos com fatos semelhantes. O resultado prático: o México chegou ao Mundial de 2026 com a conta aberta — e a torcida cantou de novo na primeira oportunidade.
A campanha de Hugo Sánchez que não chegou às arquibancadas
A FMF não ficou parada. Antes do início da Copa, lançou a campanha "A ola, sim, o grito, não", com a participação de Hugo Sánchez, Javier Aguirre e outros membros do elenco mexicano da Copa de 1986 — justamente a geração que popularizou a ola nos estádios. A ideia era clara: ressignificar o orgulho daquela torcida, substituindo o grito por um símbolo que o mundo inteiro associa ao México com afeto.
A iniciativa foi bem produzida, teve cobertura da imprensa e engajamento nas redes. Mas o jogo contra a Tchéquia mostrou que a campanha não atravessou a barreira entre o digital e o concreto das arquibancadas. E aqui está o nó mais difícil de desatar: o grito não é percebido por grande parte da torcida mexicana como um ato de discriminação. Para muitos, é uma tradição, um ritual coletivo de apoio — a palavra, no contexto do futebol mexicano, teria um sentido diferente do seu uso homofóbico direto.
A FIFA não aceita esse argumento. O painel do TAS tampouco. O tribunal concluiu que a conduta foi "coletiva e generalizada, e não meramente uma ocorrência isolada" — o que, juridicamente, afasta qualquer defesa baseada em contexto cultural.
- 2018 (Copa da Rússia): Multa de 10 mil francos suíços após estreia contra a Alemanha
- 2022 (Copa do Catar): Novas sanções por episódios semelhantes
- 2024 (amistosos): Multas de 60 mil e 70 mil francos suíços, mantidas pelo TAS em 2024
- 2026 (Copa do Mundo): Grito ouvido contra a Tchéquia — procedimento disciplinar ainda não aberto oficialmente
O que a FIFA pode fazer agora que o México é anfitrião
O episódio desta quarta-feira (24/06) coloca a FIFA numa posição delicada. O México é co-anfitrião da Copa de 2026 ao lado de Estados Unidos e Canadá. Punir o país com fechamento de setores do Azteca — a medida mais severa disponível, além de multas — significaria esvaziar o estádio mais icônico do torneio num momento em que a entidade precisa de audiências cheias e imagens de festa.
Até o fechamento desta matéria no SportNavo, a FIFA não havia se pronunciado oficialmente sobre o incidente do jogo contra a Tchéquia. A tendência, com base no histórico, é a abertura de um procedimento disciplinar nas próximas 72 horas — o prazo padrão para investigações de conduta de torcida.
Se confirmada a infração, o México pode enfrentar uma multa ainda mais alta do que as aplicadas em 2024, já que a reincidência agrava a pena nos regulamentos disciplinares da FIFA. A possibilidade de fechamento parcial do Azteca para as próximas partidas do Grupo A também está na mesa — e desta vez, sem a garantia de que o TAS vai anular a medida como fez antes.
É o mesmo cenário que a Seleção Italiana viveu em 2019, quando a UEFA puniu a torcida azzurra por cânticos racistas contra jogadores negros — advertências repetidas, multas crescentes e, no fim, a suspensão parcial de setores inteiros em Palermo. Só que agora a aposta é diferente: o México joga em casa, na Copa que ajudou a construir, e cada grito que sai do Azteca vira manchete internacional antes mesmo do apito final.










