— Cara, você viu o que o Mbappé postou?
— Vi. Com 2 a 0 no placar ainda.
— Mano... ele não tá nem aí.
Essa cena aconteceu em bares e grupos de WhatsApp do mundo inteiro no domingo (10), quando Kylian Mbappé publicou um story no Instagram com a foto da TV mostrando o Barcelona vencendo o Real Madrid por 2 a 0 — e a legenda "Hala Madrid" com um coração branco. O placar não mudou. O Barcelona foi campeão da La Liga 2025/2026, e a postagem virou símbolo de tudo que a torcida merengue não consegue perdoar no francês.
O que os números de Mbappé escondem sobre sua temporada no Real Madrid
Tem um paradoxo irritante no caso Mbappé: ele vai terminar a temporada como maior artilheiro do clube, com 41 gols em 41 jogos. No papel, é um número que poucos atacantes do mundo conseguem. Mas os últimos dois meses desfizeram boa parte desse capital.

Desde que voltou de uma lesão no joelho em março, Mbappé marcou apenas 4 gols em 10 partidas — uma queda brutal de rendimento para alguém que chegou à temporada como o jogador mais caro da história do futebol. E aqui é onde as métricas contam uma história diferente da tabela de artilharia:
- xG (expected goals): mede a qualidade das chances criadas e convertidas. Um atacante de elite como Mbappé deveria manter xG alto mesmo em fases difíceis — o que indica que ele ainda recebia bolas em posições perigosas, mas a conversão caiu.
- Progressive passes recebidos: essa métrica mostra o quanto o time busca o atacante em progressão. Quando um camisa 9 some do mapa tático, esse número despenca. Nos últimos jogos antes da lesão, Mbappé aparecia menos nas linhas de passe verticais da equipe de Arbeloa.
- Defensive actions: talvez o dado mais revelador das críticas de comprometimento. Mbappé sempre teve números baixos de pressão e recuperação defensiva — mas em times que ganham títulos, isso é compensado pelo volume ofensivo. Quando o volume cai, o desequilíbrio fica exposto.
Para comparar: nos anos em que Cristiano Ronaldo enfrentou crises pontuais no Real Madrid — como em 2013, quando foi visto chorando após eliminações — ele nunca deixou de aparecer nos treinos ou de ter números de pressão minimamente aceitáveis. A diferença de contexto importa, mas o paralelo é inevitável quando a torcida busca referências históricas.
A cronologia dos episódios que foram corroendo a relação com a torcida
O domingo do Clásico não surgiu do nada. Há uma linha do tempo de episódios que foram acumulando desgaste:
- 24 de abril: último jogo de Mbappé antes das lesões, um empate por 1 a 1 contra o Real Betis. A partir daí, ausência.
- Viagem à Sicília: durante o período de recuperação — que exigia descanso —, Mbappé viajou com a namorada Ester Expósito para a Itália. A torcida soube, e a reação foi imediata nas redes sociais.
- Desembarque tardio: o francês voltou ao solo espanhol minutos antes da partida contra o Espanyol, jogo que poderia ter dado o título ao Barcelona. O Real venceu por 2 a 0 e adiou a decisão, mas a imagem de Mbappé chegando de última hora ficou.
- Saída antecipada do treino: no sábado (9), véspera do Clásico, Mbappé abandonou o campo cinco minutos antes do fim da sessão, alegando desconforto muscular nos isquiotibiais — e sem avisar nenhum membro da comissão técnica. A atitude pegou todos de surpresa.
- Domingo (10), durante o jogo: a postagem do Instagram com o placar de 2 a 0 visível na TV.
O jornal espanhol As classificou a publicação como "incompreensível". O catalão Mundo Deportivo escreveu que foi "um detalhe que o madridismo não perdoa". O jornalista Fran Navarro foi direto no X:
"Alguém precisa explicar a Mbappé que é melhor não postar isso quando se está perdendo por 2 a 0 no Clásico."
Dentro do elenco, o clima também não ajuda. A mídia espanhola reportou atritos com Vinícius Júnior e Jude Bellingham, e o The Athletic noticiou que Mbappé teria tido uma explosão de raiva durante um treino recente. A briga entre Fede Valverde e Tchouameni foi outro sinal de que o vestiário merengue está longe de ser uma parede de ferro.
O que a torcida do Real Madrid está pedindo — e o que isso significa para Mbappé
A petição online pedindo a saída de Mbappé do clube ultrapassou 50 milhões de assinaturas, segundo múltiplos veículos espanhóis e internacionais. É um número que não tem precedente na história recente do futebol europeu para um jogador ativo no clube.
Os gols de Marcus Rashford aos 8 minutos e Ferran Torres aos 17 — ambos no primeiro tempo — definiram o 2 a 0 que deu ao Barcelona o título da La Liga 2025/2026. Mbappé assistiu de casa, ou de onde quer que estivesse, e escolheu aquele momento para se manifestar.
A leitura que faço como analista: o problema não é só de desempenho. É de leitura de contexto. Um atleta que entende o peso emocional de uma torcida como a do Real Madrid sabe que postar "Hala Madrid" com o placar adverso na tela não é apoio — é gasolina. Pode ter sido ingenuidade. Pode ter sido indiferença. Para a torcida, tanto faz.

Mbappé tem 27 anos. Ainda há temporadas pela frente para reescrever essa história no Santiago Bernabéu — mas o próximo capítulo começa já na pré-temporada de 2026/2027, e a janela de transferências de verão europeu abre em julho.








