O enjoo que os passageiros do MV Hondius sentiram nas primeiras semanas de viagem não era o balanço do Atlântico Sul. Era febre, dor muscular intensa e, para alguns, a antessala de uma insuficiência pulmonar que mataria três pessoas antes de o navio atracar no porto da Praia, em Cabo Verde. A embarcação havia saído de Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril, com 174 pessoas a bordo — passageiros e tripulantes de 28 países — para um cruzeiro por regiões remotas do Atlântico Sul, incluindo Antártica, Geórgia do Sul e Ilha de Tristão da Cunha. O que ninguém esperava era que o vírus viajasse junto.
O que o hantavírus fez dentro do navio
Até 9 de maio, a Organização Mundial da Saúde havia confirmado seis casos de hantavírus entre os oito suspeitos investigados a bordo. Três pessoas morreram — entre elas um casal holandês e um turista alemão —, e outras quatro foram evacuadas do navio por ambulâncias aéreas acionadas pelo Ministério da Saúde de Cabo Verde. A cepa identificada em pelo menos um dos pacientes é o vírus Andes, a única variante conhecida capaz de transmissão limitada entre humanos, documentada historicamente na Argentina e no Chile. A OMS avalia se essa foi a rota de contágio dentro da embarcação ou se os passageiros já embarcaram infectados — o período de incubação, de uma a oito semanas, torna a linha do tempo ambígua.
Uma operação de rastreamento está em curso para localizar dezenas de passageiros que desembarcaram na Ilha de Santa Helena, território britânico, em 24 de abril, antes do surto ser identificado. Eles já retornaram para Reino Unido, África do Sul, Holanda, Estados Unidos e Suíça. A empresa operadora do cruzeiro, Oceanwide Expeditions, confirmou que não há registro de brasileiros a bordo.

Os protocolos ativados e o que a OMS recomendou imediatamente
A médica Maria Van Kerkhove, da OMS, foi direta ao posicionar o surto dentro de uma escala de risco:
"Isso não é covid, não é influenza, e se propaga de forma muito, muito diferente."O porta-voz da organização, Christian Lindmeier, reforçou o enquadramento em Genebra:
"Trata-se de um vírus perigoso, mas unicamente para a pessoa realmente infectada. Quanto ao risco para a população em geral, continua sendo extremamente baixo. Não se trata de uma nova Covid."As medidas imediatas incluíram uso obrigatório de máscaras a bordo e equipamento de proteção individual de nível elevado para quem teve contato direto com casos suspeitos — luvas, máscaras N95 e óculos de proteção, conforme protocolo do Ministério da Saúde brasileiro para situações de transmissão respiratória.
O hantavírus não é transmitido pelo ar como o sarampo ou a influenza. A infecção ocorre, na forma mais comum, pela inalação de aerossóis formados a partir de urina, fezes ou saliva de roedores silvestres infectados — que carregam o vírus por toda a vida sem adoecer. A pesquisadora Elba Lemos, da Fiocruz, explica que a transmissão interpessoal do vírus Andes é raríssima e estruturalmente diferente de outras doenças respiratórias: quando comparada ao sarampo, que tem uma das maiores taxas de contágio conhecidas, o hantavírus funciona como uma parede de ferro epidemiológica — contém o dano, mas raramente o expande em cadeia.
O horizonte das próximas semanas e o risco real para viajantes
No Brasil, entre 2007 e 2024, foram registrados 1.386 casos confirmados e 540 óbitos por hantavírus, segundo o Ministério da Saúde — quase todos em áreas rurais, associados ao contato com roedores em ambientes fechados como galpões e cabanas. A taxa de letalidade da síndrome pulmonar por hantavírus gira em torno de 38%, e não existe tratamento antiviral específico: o manejo é de suporte, com oxigenoterapia, ventilação mecânica e, nos casos mais graves, internação em UTI. O CDC americano também lista a diálise como recurso em quadros de comprometimento renal.

A OMS não recomendou restrições de viagem e o MV Hondius permanece atracado em Cabo Verde enquanto as investigações avançam. O rastreamento dos passageiros que desembarcaram em Santa Helena antes do surto ser identificado deve ser concluído nas próximas semanas — e é esse intervalo que definirá se há novos casos fora do navio. É o mesmo cenário que a epidemiologia viveu durante o surto de hantavírus Andes no sul da Argentina em 1996 — só que agora a aposta é rastrear o vírus em tempo real, com passageiros espalhados por cinco continentes.








