O médico já está em Milão. Não foi uma visita de cortesia — Lionel Scaloni despachou um membro da comissão técnica da seleção argentina para a Itália com uma missão precisa: avaliar o joelho esquerdo de Nico Paz e trazer um diagnóstico que a Federação Argentina (AFA) possa usar como argumento num embate que já deixou o campo e migrou para os gabinetes. O meia de 21 anos saiu mancando do duelo entre o Como e o Hellas Verona no dia 10 de maio, com suspeita de lesão óssea no joelho — e desde então dois mundos que deveriam caminhar juntos passaram a puxar em direções opostas.
O menino que sustentou o Como e a Argentina ao mesmo tempo
Para entender a dimensão do imbróglio, basta olhar para os números que Nico Paz construiu ao longo desta temporada 2025/2026 da Serie A: 12 gols e 7 assistências em 35 partidas. Trata-se de um rendimento que, para um meia de 21 anos em seu primeiro ciclo completo no futebol italiano, coloca o argentino entre os jovens mais produtivos do continente. O Como, clube que voltou à elite italiana após duas décadas de anonimato, construiu boa parte da sua campanha de surpresa sobre os pés e a visão de jogo desse filho de David Beckham — não, espera: filho de Pablo Paz, ex-lateral do Real Madrid. A confusão é compreensível; a trajetória de Nico tem o brilho de quem cresceu nas categorias de base merengues e absorveu a cultura de alto rendimento de Valdebebas.

Na seleção argentina, o jovem também deixou sua marca: estreou com autoridade e, em amistoso recente contra a Mauritânia, marcou seu primeiro gol com a camisa albiceleste — um detalhe que Scaloni não ignora ao montar o mosaico tático para a Copa do Mundo de 2026. A Argentina integra o Grupo J do torneio e estreia em 16 de junho contra a Argélia, em Kansas City. Os jogos seguintes ocorrem no Texas: Áustria em 22 de junho e Jordânia em 27 de junho. O prazo para a convocação final dos 26 atletas é 30 de maio.
A tese do Como e o risco que a AFA não quer correr
A interpretação dominante, ao menos do lado italiano, é que Nico Paz pode — e deve — ser utilizado na última rodada do campeonato. O Como disputa uma vaga na Champions League, meta que há poucos meses parecia delírio e hoje é matemática possível. Privar o clube de seu jogador mais decisivo numa partida que pode valer centenas de milhões de euros em receitas futuras é, sob a ótica dos dirigentes lombardos, uma demanda desproporcional da federação de outro país.
Há uma lógica nessa posição. Contratos de cessão de jogadores para seleções têm janelas específicas; fora dos períodos FIFA, o clube detém a primazia sobre o atleta. O Como não está pedindo um favor — está exercendo um direito.
A contra-leitura, porém, é que o risco de agravar uma suspeita de lesão óssea numa partida de alto impacto físico pode transformar o que hoje é uma indisponibilidade gerenciável em uma ruptura que compromete semanas ou meses de recuperação. O staff médico de Scaloni, agora presencialmente em solo italiano, trabalha exatamente com esse argumento. Segundo fontes ligadas à AFA, a preocupação não é com o jogo do Como em si, mas com a sequência: um atleta que entra lesionado numa disputa de alta intensidade e sai mais machucado pode chegar ao Mundial sem condições de atuar — ou simplesmente não chegar.
Quantas vezes o futebol já viu uma Copa do Mundo ser decidida não em campo, mas numa sala de fisioterapia três semanas antes do apito inicial?
A síntese impossível e o que os números revelam
A análise feita pelo SportNavo sobre os dados desta temporada reforça a centralidade de Nico Paz para o projeto argentino: com 12 gols e 7 assistências — totalizando 19 participações diretas em gols na Serie A — o meia supera a maioria dos jogadores convocáveis na posição em termos de produção ofensiva. Substituí-lo por um nome de menor ritmo competitivo seria um recuo tático que Scaloni certamente prefere evitar.
O Como, por sua vez, tem razões igualmente legítimas. Uma classificação para a Champions League representaria o maior feito da história recente do clube, fundado em 1907 e que passou décadas alternando entre a Serie B e o obscurantismo da terceira divisão. Exigir que o clube abra mão desse objetivo por uma convocação que ainda não foi oficializada é, no mínimo, uma negociação delicada.
A síntese que emerge desse conflito não é confortável para nenhum dos lados: Nico Paz provavelmente precisará ser poupado da última rodada italiana, independentemente da vontade do clube, caso o diagnóstico médico confirme a lesão óssea. Scaloni não convocará um jogador que chegue ao torneio carregando uma bomba-relógio no joelho — a memória do Mundial do Qatar ainda ecoa com casos de atletas que foram por obrigação moral e saíram por incapacidade física. A AFA sabe que tem 30 de maio como data limite para a lista final e não vai apostar numa recuperação milagrosa quando o Grupo J começa em 16 de junho.
O que resta ao Como é confiar que o diagnóstico seja favorável — que a dor seja muscular, que o osso esteja íntegro, que o médico argentino volte a Buenos Aires com um laudo que permita ao clube negociar pelo menos uma participação parcial do jogador nos minutos finais da última rodada. Nas palavras de pessoas próximas ao estafe do clube lombardo, a expectativa é de que haja «bom senso de ambas as partes» — formulação diplomática para uma disputa que, nos bastidores, está longe de ser cordial.
Se o joelho responder bem ao tratamento nos próximos dias e o diagnóstico descartar lesão óssea, Nico Paz poderá integrar a lista dos 26 convocados anunciada até 30 de maio e chegar ao Kansas City Arena em condições de entrar em campo contra a Argélia. Se o laudo confirmar o pior, Scaloni precisará redesenhar um setor do meio de campo que, até 10 de maio, parecia resolvido.









