A dor de um joelho torcido em abril de 2021 não fez barulho nenhum nos noticiários esportivos — não havia câmera, não havia transmissão ao vivo, não havia torcida nas arquibancadas do CT do Corinthians. Era apenas mais um treino nas categorias de base, mais um jovem de 20 anos tentando transformar talento em profissão. Kauê Moreira de Souza caiu, sentiu, continuou. Quatro anos depois, o silêncio daquele momento chegou à 8ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região com uma conta de R$ 200 mil em danos morais, R$ 144 mil em danos materiais e uma pensão mensal de R$ 1.800 que o clube terá de pagar até o ex-atleta completar 75 anos de idade.

O que a decisão do TRT-2 revela sobre a negligência na formação de Kauê

A interpretação mais imediata do caso é a de que o Corinthians simplesmente perdeu uma ação trabalhista — um evento corriqueiro para clubes de grande porte com departamentos jurídicos robustos e dívidas que já ultrapassam a casa dos centenas de milhões de reais. Essa leitura, contudo, é insuficiente. A decisão do TRT-2 não apenas reformou a sentença de primeira instância, elevando a indenização por danos morais de R$ 50 mil para R$ 200 mil; ela estendeu o prazo da pensão de 35 para 75 anos, adotando como parâmetro a expectativa de vida masculina calculada pelo IBGE. Trata-se de um sinal jurídico relevante: o tribunal entendeu que a carreira de Kauê foi interrompida de forma definitiva por responsabilidade do clube, e que os efeitos dessa interrupção se estendem por décadas, não por meses.

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O diagnóstico obtido em maio de 2021 — espessamento fibrocicatricial do ligamento colateral medial, tendinopatia patelar com rotura das fibras profundas na porção central — é uma lesão que, tratada adequadamente e em tempo hábil, poderia ter permitido ao atleta ao menos uma chance de reabilitação funcional. O que os autos do processo descrevem, segundo a defesa de Kauê, é um tratamento conduzido de forma insatisfatória pelo departamento de formação do clube entre 2021 e 2022. Apenas em janeiro de 2023, quando o jovem passou a ser acompanhado pelo médico Joaquim Grava, no departamento profissional, foi constatado o agravamento do quadro. O contrato de trabalho foi encerrado em abril de 2024, com Kauê aos 25 anos, sem perspectiva de retorno às quatro linhas.

"O atleta sofreu entorse no joelho direito em abril de 2021, durante treinamento nas categorias de base", descreve a defesa de Kauê nos autos do processo, ressaltando que o agravamento da lesão foi constatado dois anos depois, quando o caso foi finalmente encaminhado ao departamento profissional do clube.

A tese de que clubes cumprem sua função social na formação merece ser contestada com dados

Há uma narrativa consolidada no futebol brasileiro — e o Corinthians é frequentemente citado como exemplo dela — de que as categorias de base representam um investimento social genuíno, uma espécie de política pública executada por entidades privadas. O clube paulista formou atletas que hoje jogam nas principais ligas europeias; seu CT é frequentemente apresentado como referência de infraestrutura. Essa narrativa não é falsa, mas ela omite uma dimensão estrutural que o caso Kauê torna visível com precisão clínica.

O modelo de formação adotado pelos grandes clubes brasileiros opera sob uma lógica de seleção darwiniana: centenas de jovens ingressam nas categorias de base, pouquíssimos chegam ao profissional, e os demais são desligados — muitas vezes sem acompanhamento médico adequado, sem recolocação profissional e sem qualquer rede de proteção. Uma pesquisa publicada pela Fundação Getúlio Vargas em 2023 estimou que menos de 3% dos atletas formados nas bases dos clubes da Série A do Brasileirão chegam a disputar ao menos uma partida pelo elenco principal. Os outros 97% somem silenciosamente, como Kauê quase sumiu — não fosse pela decisão de buscar a Justiça do Trabalho.

A avaliação do SportNavo é que o mercado de formação de atletas no Brasil carece de um marco regulatório que equipare a responsabilidade dos clubes à de qualquer empregador convencional diante de acidentes de trabalho. O salário de R$ 12 mil que Kauê recebia em 2021 — valor que serviu de base para o cálculo tanto dos R$ 144 mil em danos materiais quanto da pensão mensal de R$ 1.800 fixada pelo TRT-2 — já indica que havia um vínculo empregatício formalizado. O que não havia, segundo o processo, era o cuidado proporcional a esse vínculo.

A síntese possível entre a responsabilidade do clube e os limites da legislação trabalhista esportiva

Seria injusto ignorar que o Corinthians ainda tem a possibilidade de recorrer ao Tribunal Superior do Trabalho, e que a decisão do TRT-2, por mais fundamentada que seja, representa uma instância intermediária. Clubes de futebol brasileiros acumulam condenações trabalhistas com frequência que vai muito além dos casos de lesão — atrasos salariais, vínculos informais com comissões técnicas, contratações de menores sem observância da legislação específica. O caso Kauê se destaca não pela raridade, mas pela combinação de elementos que o tornam emblematicamente grave: um jovem lesionado durante a prestação de serviço, tratamento inadequado pelo empregador e encerramento de contrato sem que a condição de saúde do trabalhador tivesse sido restabelecida.

A legislação trabalhista brasileira — especificamente a Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998) e suas atualizações — estabelece obrigações claras de assistência médica aos atletas vinculados a clubes. O que o processo de Kauê coloca em evidência é a distância entre o que a lei prescreve e o que efetivamente ocorre no interior dos departamentos de formação, onde a pressão por resultados esportivos de curto prazo frequentemente supera o cuidado com a integridade física dos jovens atletas. Essa distância tem um custo — e agora o Corinthians tem uma sentença judicial que o quantifica.

Segundo a fundamentação da 8ª Turma do TRT-2, o prazo da pensão foi estendido até os 75 anos de Kauê com base nos dados do IBGE sobre expectativa de vida masculina no Brasil, reconhecendo que a perda da capacidade laborativa do atleta é permanente e de responsabilidade do clube.

O futebol brasileiro movimentou R$ 9,7 bilhões em receitas consolidadas na temporada 2024, segundo dados da Pluri Consultoria — um mercado que cresce enquanto a estrutura de proteção aos seus trabalhadores mais vulneráveis permanece cronicamente defasada. O caso de Kauê Moreira de Souza, que hoje tem 25 anos e um joelho que não voltará ao que era, não é uma exceção que confirma a regra; é a regra que finalmente chegou a um tribunal com documentação suficiente para ser julgada. O Corinthians tem prazo para apresentar recurso ao TST, e a decisão final sobre o valor definitivo da condenação — que pode chegar a R$ 2,5 milhões considerando todas as parcelas da pensão até os 75 anos do ex-atleta — deve ser definida ao longo de 2027.