O Real Madrid é o clube com mais Ligas dos Campeões na história do futebol. E termina esta temporada sem um único troféu para mostrar. O paradoxo não é poético — é doloroso, e a tarde no Ramón Sánchez Pizjuán, em Sevilha, não vai mudar esse fato. Quando a bola rolar às 14h deste domingo (17), pela 37ª rodada da La Liga, o que estará em jogo não será mais a tabela. Será a imagem de um gigante que perdeu o reflexo de vencer.

O que os anos de Ancelotti ensinaram e Arbeloa ainda não aprendeu

Há três temporadas, o Real Madrid era sinônimo de inevitabilidade. Eliminava rivais com viradas impossíveis, vencia ligas no sufoco e transformava crises em troféus. O que para o argentino é uma questão de garra e raça, para o torcedor merengue sempre foi uma questão de destino — o Bernabéu não perde, ele adia a vitória. Essa narrativa começou a rachar na temporada passada e desmoronou completamente em 2025/26.

Álvaro Arbeloa assumiu o comando numa situação de emergência e, nas suas próprias palavras, viveu uma experiência de aprendizado intenso.

"Para mim, esses quatro meses foram uma experiência enorme, aprendizagem muito grande a nível pessoal e profissional. Defender esse escudo e estar todos os dias diante de vocês também foi um grande crescimento. No dia que isso acabar, eu acredito que sairei com a consciência tranquila", declarou o técnico.
A consciência tranquila pode ser um consolo pessoal. Para o clube, 80 pontos e o segundo lugar, a 11 do Barcelona já campeão, é um fracasso institucional.

Vinicius, Mbappé e a equação que nunca fechou

O projeto era ambicioso no papel. Vinicius Junior, o melhor jogador do mundo em 2024, ao lado de Kylian Mbappé, o atacante mais caro da história do futebol — uma dupla que deveria intimidar qualquer defesa da Europa. O resultado foi uma convivência turbulenta, um rendimento abaixo do esperado e uma torcida que, na última rodada em casa contra o Real Oviedo, vaiou o francês de forma audível no Santiago Bernabéu. Mbappé não conseguiu carregar o peso do título que lhe foi prometido quando chegou a Madrid, e Vinicius, mesmo brilhando em momentos isolados, não conseguiu compensar o caos ao redor.

A situação interna piorou com o vazamento de uma briga entre Tchouaméni e Valverde — episódio que o próprio presidente do clube classificou como o pior problema não pelo conflito em si, mas pela exposição pública. Valverde, que sofreu traumatismo craniano no incidente, está fora da partida deste domingo, assim como Ceballos, Mendy, Éder Militão, Arda Güler e Rodrygo. Arbeloa vai a Sevilha com um time remendado.

A herança que Mourinho vai receber em Valdebebas

A imprensa espanhola já trata como certo que Arbeloa não continuará na próxima temporada. O nome que circula nos corredores de Valdebebas é o de José Mourinho — um técnico que conhece o clube, que já foi campeão da La Liga com o Real Madrid em 2011/12, e que atualmente tem proposta para renovar com o Benfica, segundo informações que ele próprio não desmentiu com clareza. Na avaliação do SportNavo, a chegada de Mourinho representaria uma aposta radical na reconquista da autoridade dentro do vestiário, algo que a gestão atual claramente perdeu.

O elenco que o português encontraria não é fraco. Courtois segue como um dos melhores goleiros do mundo. Bellingham, quando em forma, é determinante. Alexander-Arnold, contratado com expectativa alta, ainda busca consistência na Espanha. O problema não é de talento — é de coesão, de identidade tática, de liderança dentro de campo. Dois anos sem títulos em um clube que considera qualquer temporada sem conquistas uma anomalia exigem respostas estruturais, não cirúrgicas.

O Sevilla que quer a Europa e o Real Madrid que não tem mais nada a perder

Do lado andaluz, o duelo tem sabor diferente. O Sevilla chega embalado por três vitórias consecutivas — incluindo um 3 a 2 sobre o Villarreal na rodada passada — e ocupa a 12ª posição com 43 pontos. A dois pontos da Real Sociedad, que está em oitavo, o clube ainda sonha com uma vaga em competições europeias na próxima temporada. Luis García escalou Vlachodimos; Carmona, Azpilicueta, Salas e Suazo; Vargas, Agoumé, Sow e Oso; Adams e Maupay. Akor Adams lidera o ataque com 9 gols na temporada.

O histórico entre os clubes é de domínio merengue — 110 vitórias do Real Madrid em 199 confrontos, com o Sevilla vencendo 57 vezes. Nos últimos dez jogos, o Sevilla não ganhou nenhum. Mas contexto importa, e o Real Madrid que chega ao Pizjuán neste domingo não é o mesmo que dominou esses confrontos. É um time com seis desfalques, um técnico que já sabe que está de saída e uma temporada que, independentemente do resultado desta tarde, já pertence à coluna das decepções. A última rodada da La Liga 2025/26 acontece no próximo domingo, e o Real Madrid, qualquer que seja o placar hoje, encerrará o campeonato em segundo lugar — dois anos seguidos olhando o título de longe.