O melhor jogador do mundo vai parar de jogar onde sempre jogou — e isso pode ser exatamente o que a Seleção Brasileira precisava. Carlo Ancelotti confirmou aos bastidores da CBF que pretende utilizar Vinicius Jr. como segundo atacante na Copa do Mundo de 2026, retirando o camisa 7 da ponta esquerda, função que o consagrou no futebol mundial. A aparente contradição se dissolve quando se olha para os números: foi justamente nessa posição mais central que Vini viveu sua melhor temporada europeia.
O precedente de 2023/24 no Real Madrid e o que os dados revelam
A temporada 2023/24 do Real Madrid não foi apenas o ciclo em que Vinicius Jr. conquistou o prêmio FIFA The Best de melhor jogador do mundo — foi também o período em que Ancelotti o liberou com mais frequência para ocupar o corredor central e atuar em combinação com Rodrygo. Naquele esquema, Vinicius registrou 24 gols e 11 assistências em todas as competições, números que sustentaram a candidatura ao Ballon d'Or. O xT (Expected Threat), métrica que mede a periculosidade gerada pelos movimentos com e sem bola, apontou Vini como o jogador com maior valor de ameaça em zona central da Liga dos Campeões naquela edição — em termos práticos, significa que seus deslocamentos para dentro do campo criavam mais perigo do que quando ele ficava preso na beirada.
Ancelotti conhece esse dado melhor do que ninguém. Ao longo de 25 anos de banco, o treinador italiano já adaptou funções de craques como Kaká, Pirlo e Benzema sem jamais diminuir o rendimento individual. A movimentação de Vini para o interior do campo não é uma improvisação — é a replicação de um laboratório que já funcionou em Madri.
Raphinha pela esquerda e a disputa que define o flanco direito
Com Vinicius centralizado, o lado esquerdo do ataque brasileiro passa a ser de Raphinha, capitão do Barcelona na temporada 2025/26 e artilheiro do clube catalão com 23 gols até maio. A escolha não é arbitrária: Raphinha tem mais facilidade de fixar o marcador pela beirada e liberar espaço interno, característica que complementa o jogo de Vini em penetração. O jornalista Vitor Sergio Rodrigues, da TNT Sports, foi categórico ao detalhar o esquema:
"Ancelotti vai usar o Vinicius como segundo atacante e o Raphinha vai jogar pela esquerda. Ponto. O Vinicius vai ser segundo atacante, o Matheus Cunha vai jogar do lado dele e na direita tem que ver se é Luiz Henrique."
A briga pela ponta direita, conforme apuração do SportNavo, se concentra entre Matheus Cunha e Luiz Henrique. Cunha, que marcou 20 gols e distribuiu 13 assistências pelo Wolverhampton na Premier League 2025/26, tem o perfil de jogador que pressiona pelo corredor e aparece na área. Luiz Henrique, revelação do Botafogo que chegou ao Betis com status de destaque, oferece velocidade e drible individual — virtudes que Ancelotti costuma valorizar para desequilibrar por fora.
O que a história das Copas diz sobre essa formação
Não é a primeira vez que o Brasil testa um esquema com dois atacantes mais próximos, sem ponta fixa de um dos lados. Na Copa de 1970, Tostão operava exatamente como segundo atacante ao lado de Pelé, enquanto Jairzinho e Rivelino atuavam pelas beiradas. O resultado foi o mais eficaz ataque da história das Copas: 19 gols em seis jogos, média de 3,16 por partida. Em 1994, Romário e Bebeto formaram a dupla mais celebrada da era moderna, com Mazinho e Mauro Silva dando sustentação — mas ali os dois centroavantes eram mais fixos, sem a mobilidade que Ancelotti projeta para Vini em 2026.
A referência mais próxima ao modelo atual talvez seja a Seleção de Felipão em 2002, quando Ronaldinho Gaúcho partia da meia para fazer o papel de segundo atacante ao lado de Ronaldo, com Rivaldo apoiando. Naquele Mundial, o Brasil marcou 18 gols em sete jogos e conquistou o pentacampeonato. A geometria do ataque era diferente, mas a lógica de liberar um jogador tecnicamente superior das obrigações defensivas da ponta é a mesma.
Brasil estreia contra o Marrocos em 13 de junho no MetLife Stadium
A convocação oficial de Ancelotti deve ser divulgada nos próximos dias, com nomes do Flamengo também esperados na lista — além de Vinicius Jr., o zagueiro Danilo foi confirmado pelo próprio treinador, e atletas como Pedro, Lucas Paquetá e Léo Pereira aguardam chamado. O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 no dia 13 de junho, diante do Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. O adversário africano foi semifinalista em 2022 e conta com estrutura defensiva organizada — exatamente o tipo de retranca que um Vinicius centralizado, com liberdade para combinar com Raphinha e Cunha, tem mais ferramentas para desmontar do que um ponta preso na linha.
Vinicius Jr. vai à Copa do Mundo sem camisa de atacante de área e sem colete de ponta esquerda — vai como o jogador mais perigoso do planeta, em qualquer posição.









