O avô foi assassinado numa manhã de dezembro de 1991. A família fugiu pelas montanhas do Velebit com o que conseguiu carregar. O menino tinha 5 anos e o sobrenome da aldeia — Modrići — gravado no mapa de uma região que estava sendo destruída. Esse menino vai disputar sua quinta Copa do Mundo em 2026, aos 40 anos, com a camisa da Croácia. Poucos trajetos no futebol mundial têm tanto peso quanto o de Luka Modrić.
A aldeia que deu nome a um campeão do mundo
Modrići é uma fração de Jasenice, na costa dálmata, encravada nas montanhas Velebit. O terreno é árido, os caminhos são sinuosos, e ainda hoje placas alertam para a presença de minas terrestres não detonadas nos arredores. A casa da família Modrić — três gerações sob o mesmo teto — foi queimada durante a Guerra de Independência da Croácia, que se estendeu de 1991 a 1995 entre forças croatas e o Exército Popular Iugoslavo, de maioria sérvia.
Em 18 de dezembro de 1991, um grupo armado desceu pelo caminho de Velebit em direção à aldeia. Luka Modrić Sr., avô do jogador, foi assassinado naquele dia. O pequeno Luka estava lá. Segundo Josip Bajlo, diretor esportivo do NK Zadar, em entrevista à emissora espanhola Antena 3:
"Luka viu com seus próprios olhos como matavam seu avô. Não tiveram outra opção senão fugir para Zadar, através das florestas e montanhas, para não serem assassinados."
A família percorreu dezenas de quilômetros a pé para chegar a Zadar — uma distância que, em termos de risco e desespero, equivale a atravessar de Recife ao interior do sertão sem saber o que vai encontrar no caminho.
O Hotel Kolovare e o talento que ninguém conseguiu ignorar
Em Zadar, os Modrić foram abrigados no Hotel Kolovare, onde famílias refugiadas dividiam corredores e refeitórios. Foi ali, num estacionamento improvisado como campo, que Luka começou a jogar bola de verdade. Funcionários do hotel notaram o talento do menino e entraram em contato com o NK Zadar, clube local que acabou contratando o jovem meio-campista.
A cena é quase inverossímil: um refugiado de guerra, sem campo, sem chuteira adequada, chamando atenção de olheiros num hotel. Mas quem assistia ao Modrić jogar entendia que havia algo diferente ali — uma leitura de espaço, uma capacidade de antecipar o jogo que não se ensina em academia.
Essa leitura, que hoje os analistas medem em métricas como progressive passes (passes que avançam o jogo em pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário) e xA (expected assists), é o DNA do Modrić adulto. Na temporada 2025/2026 pelo Real Madrid, mesmo com espaço de minutos reduzido, ele ainda registra médias que envergonham meio-campistas 15 anos mais novos:
- Progressive passes por 90 minutos: Modrić historicamente aparece acima de 7,5 — número comparável ao de jogadores como Toni Kroos em seus melhores anos
- PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva): o índice mede a intensidade da pressão de uma equipe; times treinados por Modrić como referência tendem a pressionar com mais organização do que força bruta — exatamente o estilo que ele impõe ao coletivo
- xG Chain (participação em sequências que geram xG): Modrić aparece em mais de 60% das jogadas ofensivas construídas quando está em campo, segundo dados agregados do Opta nas últimas três temporadas
O que a guerra ensinou que nenhum treinador consegue replicar
Há uma linha direta entre a infância de Modrić e o jogador que ele se tornou — e ela não é metafórica. Psicólogos do esporte e analistas táticos que estudaram sua carreira apontam para uma característica rara: a capacidade de manter a tomada de decisão sob pressão extrema, sem acelerar o jogo desnecessariamente.
Quem cresceu num ambiente de instabilidade real — não a pressão de um estádio lotado, mas a de não saber se vai sobreviver ao dia seguinte — desenvolve um tipo de calma funcional que é difícil de simular em treinamentos. Modrić raramente perde a bola por pressa. Seu número de defensive actions (recuperações de bola por pressão e interceptação) por 90 minutos sempre foi alto para um meia criativo, porque ele nunca parou de correr mesmo quando o corpo começou a pedir descanso.
Na final da Copa do Mundo de 2018, contra a França — que terminou 4 a 2 para os franceses —, Modrić foi eleito o melhor jogador do torneio mesmo com a Croácia derrotada. Nenhum outro jogador do lado perdedor ganhou a Bola de Ouro da Copa desde Garrincha em 1962. O reconhecimento veio exatamente porque o mundo entendeu que aquele desempenho era impossível de separar da trajetória.
"Ele joga como se cada partida pudesse ser a última. Porque, em algum momento da vida, ele soube o que é perder tudo de uma vez", disse o ex-técnico da seleção croata Slaven Bilić em entrevista ao canal beIN Sports.
Quarenta anos e uma quinta Copa — o que os números dizem sobre esse feito
Disputar cinco Copas do Mundo é um feito que coloca Modrić em companhia restritíssima. Antonio Carbajal (México) e Lothar Matthäus (Alemanha) chegaram a cinco edições. Modrić vai igualar essa marca em 2026, numa Copa sediada nos Estados Unidos, Canadá e México — a primeira com 48 seleções.
A Croácia chegou à semifinal em 2018 e ao terceiro lugar em 2022, no Catar. Para 2026, a geração que se formou ao redor de Modrić está em transição, com nomes como Luka Sučić e Josip Šutalo tentando assumir protagonismo. Mas enquanto o capitão estiver em campo, a seleção croata vai jogar com o mesmo princípio de sempre: construção paciente, passes progressivos precisos, e uma resiliência que não aparece em nenhuma planilha de xG.
A estreia da Croácia na Copa do Mundo 2026 está marcada para junho, no Grupo B, ao lado de Marrocos, Argentina e Japão — um dos grupos mais disputados do torneio. Modrić vai a campo sabendo que, para um menino que fugiu de uma guerra aos 5 anos, cada partida já é, por definição, uma vitória, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura da campanha classificatória croata.












