O placar ainda marcava 0 a 0 quando o Wanda Metropolitano começou a esvaziar qualquer ilusão que restava. Vinte e dois minutos depois, o Tottenham já perdia por 4 a 0 para o Atlético de Madrid — e o que se via não era apenas uma derrota, era uma dissecação. O clube que em 2019 chegou à final da Champions League está, em 2026, a um ponto da zona de rebaixamento da Premier League.

Como o Atlético de Madrid expôs cada fratura do Tottenham

O resultado final de 5 a 2 no agregado das oitavas de final da Champions esconde a profundidade do problema. O Atlético de Simeone aplicou pressão alta desde o apito inicial, comprimindo as linhas dos Spurs e eliminando qualquer espaço de transição ofensiva. O Tottenham, sem um pivô capaz de segurar a bola e girar sob pressão, não conseguiu sair da própria metade de campo com consistência nos primeiros 25 minutos.

A linha de pressão do Atlético funcionou como uma armadilha: o time londrino tentou construir pelo terceiro homem, mas a compactação defensiva espanhola fechou os corredores centrais. Richarlison, que lamentou publicamente a derrota, ficou isolado sem receber passes limpos. O resultado foi previsível para quem acompanha os dados de criação de chances do Tottenham na temporada — o time figura entre os piores da Premier League em passes progressivos completados no terço final.

A sequência de 6 derrotas consecutivas é a maior da história do clube. Para encontrar algo comparável, é necessário voltar a 1975, quando o Tottenham encadeou 11 jogos sem vitória no Campeonato Inglês — era uma equipe em reconstrução, sem os recursos que o clube hoje possui. A diferença é que, naquele momento, o Tottenham valia uma fração do que vale hoje.

A filosofia que construiu o estádio e destruiu o elenco

O jornalista britânico Tim Vickery, correspondente da BBC Sport e torcedor dos Spurs, resume a contradição central do clube com precisão:

"A filosofia do clube tem sido: 'Vamos lucrar'. O lema do clube é ousar e fazer. É um clube que busca glória. Mas esse lema tem um grande contraste com a filosofia dos donos atuais."

O grupo ENIC detém 86,58% do Tottenham desde 2000. O modelo de gestão de Daniel Levy, presidente de 2001 até setembro do ano passado, multiplicou as receitas do clube por cinco em 16 anos. O estádio inaugurado em 2019, com custo estimado em £1 bilhão, é um dos mais modernos do mundo. O problema é que a infraestrutura financeira não se converteu em estrutura esportiva.

Como o Atlético de Madrid expôs cada fratura do Tottenham O nono clube mais rico
Como o Atlético de Madrid expôs cada fratura do Tottenham O nono clube mais rico

O SportNavo mapeou os dados da temporada: o Tottenham é o único clube da Premier League que ainda não venceu em 2026, chegou ao nono jogo consecutivo sofrendo dois ou mais gols na competição e acumula 29 pontos — apenas um acima do West Ham, primeiro time na zona de rebaixamento. Contratações como Xavi Simons e Conor Gallagher foram feitas para reforçar a disputa da Champions, mas o elenco piorou em relação à temporada anterior, quando terminou na 17ª posição.

A instabilidade no comando técnico agrava o diagnóstico. Igor Tudor assumiu de forma interina após a saída de Ange Postecoglou, mas colheu apenas 1 ponto em 6 rodadas da Premier League. A situação pessoal de Tudor — o funeral do pai acontece nesta semana — torna ainda mais urgente a definição sobre o futuro do cargo, prevista para até esta segunda-feira (20).

Sean Dyche como plano de emergência e o que isso revela

A diretoria do Tottenham avalia Sean Dyche como opção emergencial caso Roberto De Zerbi, o nome favorito internamente, recuse assumir o time de imediato. De Zerbi, que deixou recentemente o Olympique de Marseille, sinalizou que só iniciaria um novo projeto no meio do ano, com o clube já estabilizado na primeira divisão — condição que o Tottenham não pode garantir.

Dyche deixou o Nottingham Forest em fevereiro e tem histórico específico nesse tipo de cenário: no Everton, evitou o rebaixamento em duas temporadas consecutivas. É um técnico de linha de pressão média-baixa, organização defensiva e futebol direto — o oposto do que o elenco dos Spurs foi montado para executar. A escolha por Dyche seria uma declaração tácita de que o objetivo imediato é sobreviver, não jogar futebol.

Há dúvidas concretas sobre se o treinador inglês aceitaria um contrato válido apenas até o fim da temporada, com apenas sete rodadas restantes. O próximo compromisso do Tottenham na Premier League é contra o Sunderland — dependendo dos resultados da rodada atual, os Spurs podem entrar na zona de rebaixamento antes mesmo de entrar em campo.

O clube já perdeu um patrocínio milionário para o final da temporada, segundo o jornal The Telegraph. A combinação de instabilidade técnica, elenco mal montado, filosofia de gestão focada em lucro e um sistema tático sem identidade consolidada produziu o colapso que os números descrevem. Restam sete jogos para o Tottenham escapar de um rebaixamento que seria o primeiro desde 1977 — e o técnico que vai tentar evitá-lo ainda não foi definido.