Diz-se que eficiência ofensiva é o critério mais importante para eleger um MVP da NBA. Na verdade, não é — e o motivo importa muito para entender por que Shai Gilgeous-Alexander ganhou o prêmio pelo segundo ano seguido na temporada 2025/26, superando candidatos que em outras épocas seriam favoritos absolutos.

O que 31,1 pontos por jogo escondem sobre Shai

A média de 31,1 pontos por jogo coloca o canadense de 27 anos como o segundo maior pontuador da temporada regular. Só que parar no placar seria como avaliar o trânsito da Avenida Paulista às 18h olhando apenas para o número de carros — você vê o volume, mas não enxerga o colapso. O que transforma essa média em argumento irrefutável de MVP é o contexto em que ela foi produzida.

  • 31,1 pontos por jogo — segundo maior da liga, com alto volume de tentativas de qualidade
  • 6,6 assistências por partida — indicador de criação coletiva, não apenas de pontuação individual
  • 79 jogos consecutivos com 20+ pontos — consistência que poucos armadores alcançaram na história da liga
  • 64 vitórias em 82 jogos — melhor campanha da NBA pelo segundo ano seguido

Para entender o que significa o True Shooting Percentage (TS%), imagine que você tem dois funcionários: um fecha dez vendas tentando vinte, outro fecha doze tentando trinta. O segundo vende mais no absoluto, mas é menos eficiente. Shai combina volume alto com aproveitamento acima da média da liga — uma combinação que Nikola Jokic e Victor Wembanyama, seus dois principais concorrentes ao prêmio, também exibem, mas em contextos de equipe distintos.

O que 31,1 pontos por jogo escondem sobre Shai O número que ninguém calcula quan
O que 31,1 pontos por jogo escondem sobre Shai O número que ninguém calcula quan

Jokic e Wembanyama saem perdendo, mas por razões diferentes

Jokic, que já venceu o MVP três vezes com o Denver Nuggets, e Wembanyama, o prodígio de 22 anos do San Antonio Spurs, apresentaram temporadas individuais de altíssimo nível. O problema para ambos foi o mesmo de sempre no critério MVP: a campanha coletiva do time. O Thunder terminou a temporada regular com 64 vitórias, enquanto Spurs e Nuggets ficaram abaixo dessa marca. A votação dos jornalistas especializados — que definem o MVP — historicamente penaliza candidatos de equipes fora do topo da tabela, mesmo quando os números individuais são comparáveis.

O Net Rating — métrica que mede a diferença de pontos marcados e sofridos por 100 posses enquanto o jogador está em quadra — do Oklahoma City com Shai em quadra é consistentemente superior ao do time sem ele. Isso é o que os analistas chamam de on/off split, e é o termômetro mais honesto para medir o impacto real de um jogador no resultado coletivo. Quando esse número é grande, significa que o time literalmente piora quando o jogador descansa. No caso de Shai, a diferença é suficientemente expressiva para justificar o argumento de que ele não é apenas o melhor jogador do melhor time — ele é a razão pela qual o time é o melhor.

O clube dos repetentes e o que une Shai a Jordan, Bird e LeBron

Com a conquista desta temporada, Shai se tornou o 14º jogador da história a vencer o MVP em anos consecutivos. A lista é um museu de grandeza: Bill Russell, Wilt Chamberlain, Kareem Abdul-Jabbar, Moses Malone, Larry Bird, Magic Johnson, Michael Jordan, Tim Duncan, Steve Nash, LeBron James, Stephen Curry, Giannis Antetokounmpo e Nikola Jokic. Entre os jogadores ainda em atividade, Shai é o quinto a alcançar o feito, ao lado exatamente dos nomes que dominaram o prêmio nos últimos quinze anos.

O que separa Shai de outros armadores da geração atual é a capacidade de criar vantagem sem depender de sistemas complexos. Seu isolation scoring — pontuação em situações de um contra um sem bloqueios — está entre os mais eficientes da liga, o que significa que ele consegue criar pontos mesmo quando o adversário sabe exatamente o que vai acontecer. Segundo análise publicada pelo SportNavo no início dos playoffs, essa característica é particularmente valiosa nos momentos decisivos, quando os times adversários têm tempo de preparar defesas específicas.

"Shai é o tipo de jogador que você não consegue parar com um esquema — você precisa de um esquema e de sorte", disse Shams Charania, da ESPN americana, ao divulgar o prêmio antes do anúncio oficial.

O efeito cascata nos playoffs e o que vem pela frente

O Thunder já demonstrou nos playoffs que a temporada regular não foi fluke — termo técnico para resultado acidental que não reflete a qualidade real do time. Oklahoma City varreu o Phoenix Suns e eliminou o Los Angeles Lakers, chegando à final da Conferência Oeste com moral e ritmo. O próximo adversário é exatamente o San Antonio Spurs de Wembanyama, o mesmo jogador que disputou o MVP com Shai — o que transforma a série em um debate estatístico com consequências reais.

Para o Thunder como franquia, o efeito cascata de dois MVPs consecutivos vai além do troféu individual. Equipes lideradas por jogadores com esse nível de reconhecimento atraem veteranos dispostos a assinar por menos para competir, facilitam negociações de renovação e elevam o valor de mercado da franquia. Oklahoma City, que há alguns anos era sinônimo de reconstrução com picks de primeira rodada, agora é sinônimo de candidatura ao título — uma transição que demorou menos de três temporadas para se consolidar.

"Ele é o melhor jogador do mundo agora. Os números falam por si", afirmou um membro da comissão técnica do Thunder, segundo relato da ESPN americana após o anúncio do prêmio.

O jogo 1 da final da Conferência Oeste entre Thunder e Spurs acontece nesta segunda-feira, às 21h30 (horário de Brasília). Shai MVP é o capítulo mais recente — a final do Oeste é onde a narrativa vai ser testada de verdade.