Aos 49 minutos do segundo tempo no Mangueirão, em Belém, a bola cruzou a linha. Bruno Fuchs comemorou, o banco do Palmeiras explodiu — e então veio o chamado ao VAR. O árbitro Rodrigo Rafael Klein voltou da tela e anulou o gol que daria a vitória alviverde sobre o Remo. O empate por 1 a 1 custou dois pontos preciosos e fez o Flamengo encostar: a distância na liderança do Brasileirão caiu para apenas quatro pontos.
A regra da IFAB que o Palmeiras usou como argumento técnico
Minutos após o apito final, Anderson Barros estava diante dos microfones com um argumento que fugiu do tom emocional habitual das reclamações pós-jogo. O diretor de futebol citou diretamente a regulamentação da International Football Association Board para contestar a decisão de Klein. Segundo Barros, a regra da IFAB é clara: se a bola toca acidentalmente no braço ou na mão de um jogador atacante e, em seguida, um companheiro de equipe finaliza e marca, o gol deve ser validado. No lance em questão, um zagueiro do Remo cabeceou a bola no braço de Flaco López — e foi Bruno Fuchs quem completou para as redes, não o argentino.

"De acordo com a International Football Association Board, se a bola tocar acidentalmente na mão ou no braço de um jogador de ataque, e em seguida um companheiro de equipe finalizar e marcar o gol, o tento é legal e confirmado", leu Barros, antes de concluir: "Só faço uma pergunta: de quem vai ser essa responsabilidade?"
O dirigente foi além e cobrou nominalmente o presidente da diretoria de arbitragem da CBF, Rodrigo Cintra, e o coordenador Péricles Bassols — um nível de pressão pública que vai além do protocolo comum de reclamações de clube.
Abel suspenso, STJD contestado e um padrão que se repete desde abril
O episódio do Mangueirão não surgiu no vácuo. Ele é o capítulo mais recente de uma sequência que começou a ganhar contorno institucional em meados de abril, quando o STJD julgou as duas expulsões de Abel Ferreira no Brasileirão — uma contra o Fluminense, outra no Choque-Rei diante do São Paulo. O tribunal reduziu a pena total de oito para sete jogos, mantendo o gancho máximo de seis partidas pelo clássico paulistano. Para Barros, a decisão foi "extremamente equivocada e arbitrária", e um dos próprios auditores do STJD teria reconhecido a ausência de precedentes para uma punição dessa magnitude.
"Estão usando a figura do Abel Ferreira para uma mudança, mas importante registrar: extremamente arbitrária, até pelo fato que ocorreu no jogo, não haveria o porquê deste tipo de pena", disse Barros após o julgamento, em 15 de abril.
Com a pena mantida em sete jogos, Abel ainda precisava cumprir quatro partidas de suspensão — contra Athletico-PR, Red Bull Bragantino, Santos e o próprio Remo. A previsão é que o técnico português retorne ao banco no dia 16 de maio, diante do Cruzeiro, no Allianz Parque. Seria injusto chamar de era de instabilidade — mas é uma era em escala doméstica, comprimida em seis semanas de abril e maio.
Quatro pontos de desvantagem e o custo político das reclamações
O Palmeiras lidera o Brasileirão 2026, mas a margem encolheu. O empate com o Remo, somado ao avanço do Flamengo, reduziu para quatro pontos a vantagem alviverde na tabela — distância confortável, mas não tranquilizadora para um clube que joga sem seu treinador titular. O padrão de reclamações de Barros, que já havia escalado em um jogo contra o Ceará — quando o dirigente foi à sala de imprensa antes mesmo de Abel para denunciar a arbitragem de Anderson Daronco —, agora combina pressão sobre o STJD, cobrança direta à CBF e argumentação técnica baseada em regulamentos internacionais.
A estratégia tem lógica interna: ao citar a IFAB, o Palmeiras eleva o debate do campo emocional para o técnico-jurídico, dificultando que a CBF descarte as críticas como simples inconformismo de clube perdedor. O problema é que, enquanto a batalha institucional se desenrola, os pontos perdidos em campo não voltam. O Palmeiras enfrenta o Cruzeiro no Allianz Parque no dia 16 de maio, com Abel Ferreira de volta ao banco — e a conta das últimas semanas ainda aberta na tabela. Uma receita que ficou no fogo tempo demais: os ingredientes eram bons, mas o prato saiu frio.









