Todo mundo sabe que o Palmeiras venceu por 2 a 0 e assumiu a liderança do Grupo F da Libertadores com 8 pontos. O que merece ser contado é o que aconteceu nos 30 minutos anteriores ao primeiro gol — um intervalo em que o time de Abel Ferreira pareceu uma equipe europeia recém-aterrissada em altitude, ainda sem entender o chão sob os pés. O gramado do Estádio Alejandro Villanueva, com falhas, desníveis e buracos visíveis, transformou a saída de bola palmeirense numa sequência de erros de passe que, em condições normais, seriam impensáveis para aquele elenco.

O gramado de Lima e o susto que o Sporting Cristal não soube capitalizar

Quem acompanhou o AC Milan de Sacchi nos anos 1980 ou o Barcelona de Cruyff na mesma época sabe que times de alto padrão técnico são os que mais sofrem quando o campo está ruim — justamente porque seu jogo depende de passes curtos, triangulações e controle de bola. O Palmeiras de Abel Ferreira tem esse DNA. Quando o gramado do Alejandro Villanueva transformou cada passe rasteiro numa roleta-russa, o Sporting Cristal percebeu a janela e a explorou com eficiência nos primeiros 25 minutos: onze cruzamentos no primeiro tempo, pressão alta pela inversão de lados e chutes de fora da área — exatamente a fórmula que gerou os três últimos gols sofridos pelo Verdão antes desta partida.

GOL | ROSARIO CENTRAL vs. LIBERTAD | FASE DE GRUPOS | CONMEBOL LIBERTADORES 2026
O gramado de Lima e o susto que o Sporting Cristal não soube capitalizar O Palme
O gramado de Lima e o susto que o Sporting Cristal não soube capitalizar O Palme

O momento mais agudo veio aos 4 minutos. Castro cruzou, a bola subiu para Ávila na pequena área — e o atacante furou na hora de concluir. Foi a diferença entre um susto e um vexame. Não houve gol, mas o episódio revelou que o Palmeiras estava desorganizado na marcação, cedendo espaço entre as linhas e sem conseguir construir saída de bola com a fluidez que Abel costuma exigir. Para um time que acumula 14 jogos de invencibilidade e 22 vitórias em 2026, aqueles minutos soaram como uma nota fora do tom numa orquestra afinada.

A virada de chave que Abel não precisou explicar em voz alta

A partir dos 25 minutos, algo mudou — e essa mudança não veio de substituição ou instrução técnica audível. Veio da adaptação coletiva ao campo duro e lento. A equipe passou a trocar passes no campo de ataque, dobrou o número de finalizações em relação ao Cristal e recuperou a bola com mais consistência pelo lado esquerdo. Marlon Freitas, que havia oscilado nos empates anteriores contra Cerro Porteño e Santos, começou a ditar o ritmo com passes verticais. Arthur, o lateral esquerdo, quase marcou um golaço aos 28 minutos — chute de fora da área que obrigou Enríquez a grande defesa.

Aos 32 minutos, Jhon Arias — que até ali havia perdido chances claras, padrão que se repetiria ao longo do jogo — acertou o cruzamento para Flaco López. O argentino chapou de primeira com o pé direito: 1 a 0. O gol foi o 13º de Flaco na temporada de 2026 e o 70º com a camisa alviverde, colocando-o ao lado de Rony como terceiro maior goleador do clube no século. Para ter uma régua de comparação: esses 70 gols equivalem a mais do que a soma de gols marcados pelo Sporting Cristal em toda a atual fase de grupos da Libertadores.

Flaco, Sosa e a decisão tática que confundiu Zé Ricardo

O segundo gol, aos 5 minutos do segundo tempo, nasceu de um erro do zagueiro Lutiger — que tentou afastar um cruzamento de López e entregou nos pés de Ramón Sosa. O paraguaio, oportunista, empurrou para o fundo das redes: 2 a 0. O que merece registro é a mecânica tática que gerou as duas jogadas: em ambos os gols, López atuou como meia e Sosa como centroavante. Essa inversão de funções desorientou o técnico brasileiro Zé Ricardo, que comanda o Sporting Cristal, e criou os espaços que o Palmeiras precisava.

"O Palmeiras teve 22 finalizações na partida, criou muitas chances de gol, mas não caprichou na hora da definição", registrou a cobertura da partida — um retrato fiel de um time que dominou sem precisar ser brilhante.

Carlos Miguel manteve a baliza zerada pela enésima vez consecutiva, Gustavo Gómez segurando a defesa com a autoridade de um líbero italiano dos anos 1990, e Paulinho entrou aos 88 minutos no lugar de Flaco — apenas para marcar presença após 302 dias afastado por lesão, com a vitória já encaminhada. Com 8 pontos no Grupo F, o Palmeiras abre dois de vantagem sobre o Sporting Cristal (6) e quatro sobre o Cerro Porteño (4), que ainda entra em campo na quinta-feira contra o Junior Barranquilla (1 ponto).

A equipe volta a campo no domingo, dia 10, às 16h (de Brasília), contra o Remo, no Mangueirão, em Belém, pelo Brasileirão. Pela Libertadores, os próximos dois jogos são em casa — contra Cerro Porteño, no dia 20, e depois Junior Barranquilla —, o que transforma a classificação antecipada num cenário bastante administrável para Abel Ferreira.