O que custa, em termos concretos, tirar uma capital federal de uma Copa do Mundo? A pergunta não é retórica no sentido ornamental — ela tem resposta mensurável, e Brasília está prestes a descobrí-la da pior forma. A Copa do Mundo Feminina de 2027, marcada para ocorrer entre 24 de junho e 25 de julho no Brasil, pode chegar ao Distrito Federal com cinco partidas a menos do que o planejado, caso a Arena BSB não resolva, em caráter emergencial, um conjunto de violações contratuais apontadas pela Fifa.

A notificação formal foi enviada em 13 de maio pela diretora-executiva de Futebol da Fifa, Jill Ellis, ao CEO da Arena BSB, Richard Dubois. O documento, ao qual a imprensa teve acesso, é explícito:

"Várias questões permanecem sem solução e constituem violações contratuais. Caso não seja recebida uma resposta satisfatória até este prazo final, a FIFA não terá outra alternativa a não ser exercer seus direitos de rescisão previstos no Contrato de Estádio."
O prazo dado era 15 de maio. A entidade reforçou que já concedeu prorrogações sucessivas, e que a rescisão de um contrato de estádio por quebra de contrato seria inédita na história do torneio feminino.

As pendências que travam Brasília na Copa

Quando a Fifa descreve suas exigências, ela não fala em detalhes técnicos menores — fala em estrutura de receita. O primeiro ponto de atrito é a disponibilidade "exclusiva e incondicional" de todos os camarotes, espaços internos e escritórios do Mané Garrincha durante o torneio. A Arena BSB afirma que mais de 125 camarotes já foram mobiliados e contratados com parceiros privados antes mesmo de Brasília ser escolhida como sede, em 2024. Desfazer esses contratos, segundo a concessionária, ameaça o modelo econômico construído para manter o estádio financeiramente equilibrado na ausência de um clube mandante fixo.

Quando a Fifa aponta o segundo problema — a permanência de marcas de terceiros expostas no estádio —, ela toca em um ponto ainda mais estrutural: o financiamento do próprio equipamento público. O Mané Garrincha foi erguido para a Copa de 2014 com investimento estimado em R$ 1,4 bilhão em recursos públicos. Sua gestão privada, via concessão à Arena BSB, foi desenhada justamente para aliviar o Governo do Distrito Federal de custos operacionais recorrentes. Exigir a remoção de marcas patrocinadoras equivale a exigir que o modelo de negócio seja suspenso durante o Mundial — sem compensação proporcional prevista.

O terceiro ponto é técnico, mas igualmente sensível: a Fifa avaliou que as melhorias realizadas no gramado do Mané Garrincha não atingiram as especificações previstas em contrato. A concessionária diz ter acompanhado todas as vistorias e apresentado alternativas técnicas, mas a entidade não reconheceu as soluções propostas como suficientes.

O peso econômico do que está em jogo para o Distrito Federal

A exclusão de Brasília seria uma perda difícil de quantificar apenas em ingressos. A Copa do Mundo Feminina de 2023, realizada na Austrália e Nova Zelândia, movimentou mais de US$ 570 milhões em receitas para a Fifa e acumulou audiência próxima de 2 bilhões de espectadores, segundo dados da própria entidade. Para o Governo do Distrito Federal, o torneio era tratado como vitrine internacional para impulsionar turismo, hotelaria e atração de investimentos — setores que, em Brasília, têm peso desproporcional dado o perfil da economia local, dominada pelo funcionalismo público.

A carta de Jill Ellis reconhece, ainda que diplomaticamente, a dimensão do que está em risco:

"Respeitosamente, solicitamos, no interesse de continuar a fazer parte do maior evento esportivo feminino do mundo e com o objetivo de desenvolver o futebol feminino em Brasília, cumprir integralmente os compromissos assumidos."
A linguagem é de negociação, mas o prazo é de ultimato.

O que o marco regulatório aprovado muda nesse cenário

Enquanto o impasse em Brasília se desenrolava, a Câmara dos Deputados aprovou, em 28 de abril, o Projeto de Lei 1315/26, de autoria do Poder Executivo, que regulamenta direitos e deveres da União e da Fifa para o torneio. O texto, relatado pela deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR), incorporou a Medida Provisória 1335/26 e estabelece, entre outros pontos, que a Fifa terá exclusividade de divulgação, propaganda e venda de produtos em raio a ser determinado ao redor dos estádios. A proposta segue agora para o Senado.

A aprovação do marco legal é o pulmão da negociação federal — ela sinaliza ao mercado e à Fifa que o Brasil está construindo um arcabouço jurídico sólido para o torneio. O texto também permite propaganda de bebidas alcoólicas nas transmissões dos eventos e nas emissoras fora do horário restrito, além de autorizar a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. No campo da transmissão, Globo, CazéTV, ESPN e Band seguem em negociação com a Fifa pelos direitos de exibição do torneio no Brasil.

O problema é que o marco regulatório resolve a relação entre União e Fifa — não o impasse entre Fifa e Arena BSB. São esferas distintas, com interlocutores distintos, e o prazo de 15 de maio não esperou pela tramitação legislativa. A resolução depende de uma decisão da concessionária que envolve, ao mesmo tempo, renegociar contratos privados já firmados, adaptar tecnicamente o gramado e remover marcas de patrocinadores — tudo isso em um prazo que a Fifa já considerava esgotado antes mesmo de o ultimato ser enviado. Se o impasse persistir, Brasília terá o constrangimento histórico de ser a primeira cidade previamente aprovada a ser excluída de uma Copa do Mundo Feminina.