"Isso não é torcida, é vergonha." A frase, publicada por um torcedor corintiano no Instagram logo após o apito final no El Campín, sintetizou em seis palavras o que as imagens já mostravam com crueldade: pelo menos dois torcedores do Independiente Santa Fe imitaram macacos em direção ao setor ocupado pelos brasileiros durante o empate por 1 a 1 na última quarta-feira, 6 de maio, pela fase de grupos da Copa Libertadores.

O que os vídeos mostram e o que o silêncio das entidades revela

As imagens foram gravadas por torcedores do Corinthians presentes no estádio El Campín, em Bogotá, e se espalharam pelas redes sociais antes mesmo do ônibus da delegação deixar o estádio. Nos vídeos, identificados inicialmente pelo perfil @casalcoringao no Instagram e repercutidos por veículos especializados, é possível distinguir com nitidez os gestos racistas direcionados à torcida visitante. Até o fechamento desta matéria, nem o Santa Fe, nem o Corinthians, nem a Conmebol haviam emitido qualquer nota oficial sobre o episódio — um silêncio que, no vocabulário do combate ao racismo no futebol, tem peso próprio.

Dentro de campo, o Corinthians havia arrancado um resultado importante: Gustavo Henrique marcou de cabeça nos acréscimos para transformar o que seria uma derrota em empate. Com dez pontos em quatro jogos, o Timão lidera o Grupo E da Libertadores, enquanto o Santa Fe aparece na terceira posição, com apenas dois pontos somados.

O regulamento da Conmebol e os precedentes que pesam contra o Santa Fe

A entidade sul-americana não chegou a este ponto sem histórico. Desde 2022, o regulamento disciplinar da Conmebol estabelece multa mínima de 100 mil dólares para casos de racismo praticados por torcedores, com possibilidade de sanções esportivas adicionais que incluem perda de mando de campo e restrições de público. O mecanismo existe — a questão é se a Conmebol terá a iniciativa de acioná-lo sem que um clube formalize uma denúncia, algo que o próprio Corinthians ainda não fez.

Segundo apuração do SportNavo, o procedimento padrão da entidade prevê que o Departamento de Integridade analise material audiovisual registrado em competições oficiais, mesmo sem denúncia formal de uma das partes. Os vídeos que já circulam nas redes sociais, portanto, são tecnicamente suficientes para abrir um processo disciplinar contra o clube colombiano. A pergunta não é se há provas — é se haverá vontade institucional.

"A Conmebol tem regulamento, tem precedente e tem o vídeo na mão. O que falta é coragem para agir sem esperar que alguém bata na porta", disse um dirigente de federação sul-americana, em caráter reservado, a jornalistas brasileiros presentes em Bogotá.

O mapa da temporada e a pressão que cresce sobre Bogotá nas próximas semanas

O timing do episódio agrava o peso político da decisão que a Conmebol precisa tomar. O Grupo E ainda tem rodadas pela frente, e o Santa Fe recebe o Corinthians no El Campín novamente na fase de grupos — o que torna urgente qualquer medida preventiva, como a obrigatoriedade de câmeras de identificação facial nas arquibancadas ou a presença reforçada de stewards no setor visitante. A omissão agora não é apenas moral; é operacional.

O que os vídeos mostram e o que o silêncio das entidades revela O que a Conmebol
O que os vídeos mostram e o que o silêncio das entidades revela O que a Conmebol

O futebol sul-americano carrega uma ferida aberta nesse tema. Em 2023, a Conmebol aplicou punições a clubes argentinos e uruguaios por episódios semelhantes, mas a velocidade de resposta variou conforme a visibilidade do caso. A sombra dessa inconsistência é a muralha que o racismo encontra para sobreviver dentro dos estádios: não a ausência de regras, mas a intermitência na aplicação delas.

"O protocolo existe para ser usado, não para decorar o regulamento", declarou um representante da Federação Colombiana de Futebol em entrevista à imprensa local após o jogo — sem, contudo, mencionar diretamente o episódio envolvendo os torcedores do Santa Fe.

O Corinthians volta a campo pelo Grupo E da Libertadores na próxima rodada, e o desfecho do processo disciplinar — se aberto — deve ser acompanhado de perto: a Conmebol tem prazo regulamentar de até 30 dias para concluir investigações abertas de ofício. Vale gravar a data e monitorar o pronunciamento oficial da entidade, que definirá se a multa de 100 mil dólares e a possível perda de mando serão aplicadas ou se o silêncio de Bogotá encontrará eco em Luque.