Todo mundo sabe que a Comissão de Ética do São Paulo foi dissolvida. O que poucos perceberam é o que precisou acontecer nos corredores do Morumbi nas últimas 48 horas para que esse movimento fosse possível — e o que ele diz sobre quem, de fato, controla o clube agora.

A destituição que chegou na véspera de um voto decisivo

O presidente do Conselho Deliberativo, Olten Ayres de Abreu, formalizou a demissão dos cinco integrantes da Comissão de Ética em documento enviado aos conselheiros na última terça-feira, 12 de maio de 2026. O órgão era presidido por Antônio Maria Patiño Zorz e contava ainda com Marcelo Felipe Nelli Soares, Luiz Augusto Lia Braga e Milton Jose Neves Junior entre seus membros.

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A justificativa oficial de Olten foi direta e protocolar:

"Tal ato se faz necessário pelas insistentes manobras de condução processual, especial mas não limitadamente, a negativa do direito de apresentação de defesa nos termos estatutários, contrariando o princípio basilar do contraditório."

O timing, porém, não é detalhe. Na noite de segunda-feira, 11, a reunião do Conselho Deliberativo que votaria o afastamento provisório do próprio Olten por 120 dias foi cancelada. A recomendação de afastamento havia partido da mesma Comissão de Ética que ele destituiu horas depois.

O cancelamento da reunião e a suscitação de dúvida estatutária

A reunião foi suspensa depois que o conselheiro Richard Magalhães, do grupo político SOMOS, protocolou um documento de suscitação de dúvida estatutária questionando a validade jurídica da votação. João Farias, vice-presidente do Conselho, acatou o pedido e encaminhou a questão para análise jurídica antes de remarcar qualquer sessão.

Esse encadeamento de eventos — suscitação de dúvida, cancelamento de reunião, destituição da comissão — lembra a estrutura narrativa do filme O Processo, adaptação de Orson Welles para o romance de Kafka: um personagem central que se vê alvo de uma acusação, mas usa o próprio sistema institucional para paralisar o julgamento antes que ele ocorra.

A comparação não é gratuita. O que está em curso no São Paulo é exatamente isso: um duelo entre instâncias que deveriam ser complementares, mas que se tornaram instrumentos de disputa política interna.

Processos paralisados e o impacto direto na governança do clube

A Comissão de Ética analisava, no momento da destituição, pedidos de expulsão contra três nomes relevantes do clube: Antônio Donizete Gonçalves, ex-diretor do social; Carlos Belmonte Sobrinho, ex-diretor de futebol; e Julio Casares, ex-presidente do São Paulo. Com a dissolução do colegiado, todos esses processos ficam automaticamente paralisados até que uma nova composição seja definida — prazo indefinido até aqui.

Há um elemento agravante. O próprio Olten é alvo de representação apresentada pelo presidente do clube, Harry Massis Júnior. Ou seja, o presidente do Conselho destituiu a comissão que investigava, simultaneamente, três ex-dirigentes e ele mesmo.

Fontes ouvidas pela imprensa confirmaram que os processos em tramitação só retornam com a nova composição formalizada — o que significa que nenhum dos quatro investigados enfrenta consequências institucionais no curto prazo.

A crise que se desenha não é de resultados em campo. O São Paulo disputa a temporada 2026 com um elenco razoavelmente estruturado. O problema está na ausência de governança funcional: quando o órgão de controle ético de um clube pode ser dissolvido pela mesma pessoa que ele investiga, o estatuto vira letra morta.

A próxima etapa concreta depende da análise jurídica sobre a validade da votação de afastamento de Olten — análise que João Farias comprometeu-se a submeter antes de remarcar a reunião do Conselho. Enquanto essa resposta não chega, o São Paulo segue sem Comissão de Ética ativa, com quatro investigações suspensas e uma presidência do Conselho que acumula o papel de réu e juiz ao mesmo tempo.