Falhou. O sistema de segurança do Desafio dos Rochas falhou antes mesmo de Edwilson Louis de Oliveira ser encontrado caído em uma trilha entre os bairros Pomerode Fundos e Ribeirão Areia, no Vale do Itajaí, por volta das 11h50 de domingo (19). O ciclista de 57 anos, integrante do grupo Pedal Batistense de São João Batista, foi localizado pela equipe de apoio da prova já em parada cardiorrespiratória e com sinais de traumatismo craniano. Cinquenta minutos de manobras de ressuscitação. Helicóptero Arcanjo 03 do Samu, Bombeiros Voluntários de Pomerode, Grupo de Resgate em Montanha de Joinville e veículo 4x4 para romper o terreno. Não foi suficiente.
O que aconteceu no terreno durante o Desafio dos Rochas
O evento reunia centenas de competidores de diversas regiões do Brasil e também do exterior, segundo o portal Vale Europeu Notícias. O Desafio dos Rochas é prova tradicional em Pomerode — não é uma estreia, não é um experimento. Mesmo assim, a trilha onde Edwilson caiu era de difícil acesso a ponto de inviabilizar o deslocamento de ambulância convencional. A equipe médica precisou de um 4x4 para chegar até ele. Isso, por si só, já diz tudo sobre o planejamento de contingência do evento.
No mesmo dia, às 14h15, um segundo ciclista de 49 anos foi resgatado desacordado na Estrada Ernesto Köening pelo GRM e encaminhado inconsciente ao Hospital e Maternidade Rio do Testo. Dois atletas graves no mesmo evento, no mesmo dia. A probabilidade de coincidência aqui é baixa — isso aponta para um padrão de risco estrutural no percurso, não para azar isolado.
A Polícia Científica recolheu o corpo de Edwilson para perícia no Instituto Geral de Perícias (IGP) de Blumenau, com objetivo de determinar se ele passou mal antes da queda ou se o traumatismo craniano foi a causa primária. Essa distinção é determinante para o debate de segurança: se houve colapso cardíaco prévio, o foco recai sobre triagem médica pré-prova; se o traumatismo foi o evento inicial, o foco vai para EPI e perfil do percurso.
O protocolo que o mountain bike brasileiro ainda não tem
No esporte de endurance em geral, a regra básica de segurança em percursos de difícil acesso é simples: nenhum ponto do trajeto pode estar a mais de 10 minutos de resposta de uma equipe de primeiros socorros. Em provas de trail running de nível internacional — como as da ITRA, federação que regulamenta corridas de montanha —, esse tempo máximo de resposta é auditado antes da largada. No mountain bike nacional, esse padrão ainda não existe de forma sistematizada.
O próprio Corpo de Bombeiros confirmou à CNN Brasil que o acesso ao ponto onde Edwilson foi encontrado exigiu logística excepcional. Helicóptero mais veículo 4x4 mais equipe especializada em montanha — três recursos que não estão disponíveis em todo município brasileiro. Pomerode teve acesso a eles; outras cidades menores que sediam provas similares não teriam.
"Com muita tristeza, comunicamos o falecimento de Edwilson Louis de Oliveira, integrante querido do Pedal Batistense, que partiu fazendo o que mais amava: pedalando."
A nota do grupo Pedal Batistense é tocante. A da organização do Desafio dos Rochas, embora respeitosa, não traz nenhum comprometimento concreto de revisão de protocolos. Lamentou, prestou homenagens, declarou luto. Nenhuma palavra sobre o que vai mudar na próxima edição.

O que precisa mudar antes da próxima largada
Existem medidas objetivas que organizadores de provas de mountain bike podem — e devem — adotar. Não são inovações; são práticas já aplicadas em modalidades de risco equivalente:
- Mapeamento médico do percurso: cada trecho deve ter tempo de resposta documentado e equipe posicionada proporcionalmente. Trechos com acesso superior a 8 minutos exigem posto médico avançado fixo ou equipe motorizada dedicada.
- Triagem cardiovascular obrigatória: atletas acima de 50 anos em provas de alta intensidade deveriam apresentar atestado cardiológico com ergometria recente, não apenas atestado de aptidão genérico. Edwilson tinha 57 anos.
- Capacetes com certificação de impacto lateral: traumatismo craniano em quedas de mountain bike é previsível. A exigência de capacete homologado para a modalidade — não apenas qualquer capacete — precisa ser item de inscrição, verificado antes da largada.
- Comunicação em tempo real: cada participante deveria portar dispositivo de rastreamento GPS ativo, com alerta automático para a central de segurança em caso de parada prolongada. A tecnologia custa menos de R$ 200 por unidade.
Para se ter escala do problema: em 2023, levantamento da Confederação Brasileira de Ciclismo identificou mais de 1.200 provas de mountain bike realizadas no país naquele ano. A fiscalização de protocolos médicos cobriu menos de 15% delas. Um evento pode reunir centenas de competidores de vários estados e do exterior — como foi o caso do Desafio dos Rochas — sem nenhuma auditoria de segurança prévia obrigatória por parte de um órgão regulador.

"Hoje, durante a realização do Desafio dos Rochas, vivemos um momento de profunda tristeza com o falecimento de um atleta participante do evento. Nos solidarizamos com seus familiares, amigos e toda a comunidade do mountain bike."
A solidariedade é necessária. Mas a morte de Edwilson Louis de Oliveira exige mais do que isso. A Confederação Brasileira de Ciclismo e as federações estaduais têm até a próxima temporada de provas para apresentar um protocolo mínimo de segurança vinculante — com checklist auditável, exigência de cobertura médica proporcional ao percurso e penalidades para organizadores que não cumprirem. Sem isso, o ciclo de tragédia e nota de pesar vai se repetir.








