Se Andrés Sánchez tivesse deixado o Corinthians apenas em 2012, sua memória estaria praticamente intacta — dois títulos da Libertadores, uma Copa do Mundo de Clubes e um Brasileirão. O problema é que ele voltou em 2018, e o segundo mandato (encerrado em 2021) é exatamente o que a Comissão de Ética e Disciplina agora coloca na mesa como argumento central para sua expulsão do quadro associativo.

O Conselho Deliberativo do clube agendou para 25 de maio a reunião que decidirá se Sánchez perde seu vínculo formal com o Corinthians. A recomendação da Comissão de Ética foi aprovada com base em dois pilares: malversação da gestão financeira e pouca transparência nos contratos firmados durante seus mandatos. A dívida consolidada do clube, que hoje orbita R$ 2,7 bilhões, tem raízes profundas naquele período.

Um precedente que o futebol brasileiro já conhece

A situação de Sánchez lembra o que o Flamengo viveu entre 2012 e 2013, quando ex-dirigentes foram afastados de instâncias do clube após investigações internas sobre contratos de patrocínio e gestão de receitas. Naquele caso, o processo foi conduzido via estatuto e resultou em suspensão administrativa — não expulsão. O Corinthians parece caminhar para um desfecho mais definitivo.

A diferença relevante é o volume de endividamento gerado. No Flamengo, a crise foi contida antes de escalar para o balanço geral. No Corinthians, os dois mandatos de Sánchez coincidiram com a construção da Neo Química Arena (custeada em parte por empréstimos bancários com encargos elevados) e com contratos de patrocínio que, segundo a própria Comissão de Ética, não tinham transparência suficiente para auditoria interna.

"A Comissão de Ética recomendou a expulsão com base em responsabilidade administrativa além das contas do clube e pouca transparência nos contratos firmados durante sua gestão", conforme comunicado oficial do Corinthians divulgado após a sessão.

O custo financeiro de cada conquista sob Sánchez

O primeiro mandato (2007–2012) entregou ao Corinthians um portfólio de títulos raramente visto em clubes brasileiros: Brasileirão de 2011, Libertadores de 2012 e Mundial de Clubes no mesmo ano. O custo operacional desse ciclo, no entanto, foi financiado por um modelo de receitas que dependia de transferências de atletas e direitos de imagem — estrutura frágil e pró-cíclica.

No segundo mandato (2018–2021), o clube contratou Luan por cifras que chegaram a R$ 35 milhões em luvas e salários anuais acima de R$ 8 milhões, segundo dados de mercado da época. O atacante nunca correspondeu ao investimento. O Transfermarkt registrava Luan com valor de mercado de € 9 milhões na chegada; ao sair, a marcação era inferior a € 2 milhões. ROI negativo de mais de 75% no ativo principal daquela janela.

Um precedente que o futebol brasileiro já conhece O que Andrés Sánchez construiu
Um precedente que o futebol brasileiro já conhece O que Andrés Sánchez construiu

A opacidade contratual apontada pela Comissão de Ética envolve intermediações cujos percentuais e beneficiários nunca foram plenamente divulgados ao Conselho. No mercado de transferências, comissões de agentes costumam variar entre 5% e 10% do valor bruto da operação. Contratos sem cláusula de disclosure dificultam o rastreamento desses fluxos — e é exatamente esse rastreamento que o processo interno tenta reconstituir agora.

"Sánchez foi presidente do Corinthians entre 2007 e 2012 e, depois, entre 2018 e 2021", registra o comunicado do clube, delimitando os períodos sob escrutínio da Comissão.

O que a expulsão muda na governança do clube

Expulsar um ex-presidente do quadro associativo é uma medida rara no futebol brasileiro. Politicamente, sinaliza que o atual Conselho Deliberativo está disposto a usar os mecanismos estatutários como ferramenta de accountability — algo que a maioria dos clubes evita por receio de precedentes internos.

Financeiramente, a expulsão em si não altera o balanço. Ela não cancela dívidas nem recupera valores. O efeito prático é de governança: estabelece que gestores respondem formalmente por decisões que comprometem a saúde financeira do clube. Decidiu.

Segundo apuração do SportNavo, a decisão do dia 25 de maio também tem leitura política interna. O presidente Osmar Stábile, que assumiu interinamente em 26 de maio de 2025 e foi eleito de forma indireta em 25 de agosto de 2025, enfrenta seu próprio impasse estatutário: o estatuto atual veta permanência superior a 18 meses, o que criaria um conflito com eventual candidatura à reeleição.

Os conselheiros já votaram 46 a 30 a favor de permitir a reeleição de Stábile — mas essa decisão contraria o texto estatutário vigente. A solução passa pela Assembleia Geral Extraordinária de 20 de junho, que decidirá se mantém ou reverte a rejeição anterior do texto-base da reforma estatutária. Um dos pontos paralelos em debate é a extensão do direito a voto para membros do programa Fiel Torcedor.

Duas datas que redesenham o Corinthians em junho

O calendário dos próximos 45 dias concentra decisões que afetarão a estrutura de poder do clube por anos. O dia 25 de maio define se Sánchez se torna o primeiro ex-presidente expulso do quadro associativo na história moderna do Corinthians. O dia 20 de junho — em plena Copa do Mundo de 2026 — define as regras do jogo político interno para o próximo ciclo eleitoral.

A coincidência com a Copa não é irrelevante: a atenção da mídia esportiva estará dividida, o que reduz a pressão pública sobre os conselheiros. Quem quiser acompanhar o desfecho dessas duas votações sem depender do noticiário de última hora deve marcar as datas na agenda — as sessões do Conselho Deliberativo do Corinthians costumam ter transmissão ao vivo pelo canal oficial do clube no YouTube.