O cheiro de pólvora ainda não saiu das ruas de Bogotá quando as urnas abriram neste domingo (31) para uma das eleições mais polarizadas da história recente da Colômbia. E no meio do ruído sobre narcoterrorismo, decretos executivos e planos de pulverização de 330 mil hectares de plantações ilícitas, uma pergunta específica ficou órfã no debate: o que acontece com o esporte colombiano se Abelardo de la Espriella — o advogado criminalista de 47 anos que gosta de ser chamado de "O Tigre" e que lidera as simulações de segundo turno — chegar ao Palácio de Nariño?
A narrativa dominante e o que ela esconde sobre o esporte
A leitura mais imediata sobre De la Espriella é que ele representa um impulso de ordem num país que acumula décadas de violência endêmica. Seu programa "País Milagroso" promete reduzir o Estado em 40%, cortar impostos corporativos e assinar 90 decretos nos primeiros dias de mandato. Para uma camada do eleitorado colombiano, esse discurso soa como música — e, superficialmente, poderia parecer positivo para o esporte: menos burocracia, gestão mais corporativa, mais eficiência.
Essa leitura, porém, ignora uma engrenagem silenciosa. A Colômbia tem usado grandes eventos esportivos como plataforma diplomática e de coesão nacional há pelo menos 15 anos. O país sediou a Copa América de 2001 — e foi retirado da organização da edição de 2016 por instabilidade institucional — e voltou a ser cotado para competições continentais de ciclismo e atletismo. O ciclismo colombiano, em particular, vive um momento de prestígio global: Egan Bernal, Nairo Quintana e a nova geração formada em Boyacá e Cundinamarca projetaram o país num esporte que exige infraestrutura de estradas, segurança em percursos e investimento público em base.
Programas como o Plan Decenal del Deporte, financiado com recursos do Estado e metas de inclusão social até 2032, dependem exatamente do tamanho de governo que De la Espriella quer encolher em quase metade. Segundo análises do Instituto Colombiano del Deporte (Coldeportes), hoje rebatizado como Ministerio del Deporte, mais de 60% do orçamento de programas de base vem de transferências federais. Cortar 40% do aparato estatal sem uma contraparte privada estruturada não é uma reforma — é uma amputação.
A contra-leitura que De la Espriella prefere que você não faça
Há, no entanto, uma dimensão menos explorada que desafia a narrativa catastrofista: a segurança pública como pré-condição para o esporte. E aqui o argumento de De la Espriella tem lastro empírico que não pode ser descartado por conveniência ideológica.
A Colômbia registrou, nos últimos três anos do governo Gustavo Petro, um aumento preocupante de ataques a ciclistas em estradas do interior — especialmente nas rotas do departamento de Antioquia, tradicional celeiro de talentos. Treinos coletivos foram interrompidos por grupos armados em pelo menos quatro municípios entre 2023 e 2025, segundo relatórios da Federação Colombiana de Ciclismo. Eventos de atletismo em Cali e Medellín precisaram de reforço policial não previsto em orçamento, encarecendo a operação para os organizadores.
A promessa de erradicar o narcoterrorismo com medidas de choque — inspiradas no modelo de Nayib Bukele em El Salvador e na retórica de Javier Milei na Argentina — poderia, em tese, devolver às estradas e estádios colombianos uma sensação de segurança operacional que hoje falta. Bukele, por exemplo, conseguiu reduzir a taxa de homicídios de El Salvador de 103 para 2,4 por 100 mil habitantes entre 2015 e 2024, o que viabilizou competições regionais que antes eram inviáveis.
"A segurança não é um luxo para o esporte — é o chão sem o qual nenhum atleta consegue treinar", resumiu um diretor técnico da Federação Colombiana de Atletismo em declaração à imprensa local durante os protestos pré-eleitorais de abril.
O problema é que o modelo Bukele custou liberdades civis documentadas, e a aplicação desse receituário num país com a complexidade geopolítica da Colômbia — fronteiras porosas com Venezuela, Equador e Panamá, guerrilha fragmentada em mais de 30 grupos — pode produzir uma militarização que afasta, em vez de atrair, eventos internacionais. A FIFA e o COI têm histórico de retirar sedes de países em estado de exceção prolongado.
O doping, o financiamento e o que está em jogo nos próximos quatro anos
Existe ainda um terceiro plano de análise, raramente discutido na cobertura política convencional: a política antidoping colombiana. A Agência Colombiana Antidoping (ACAD), criada em 2012 como resposta às exigências da WADA para sediar competições internacionais, opera com orçamento anual de aproximadamente 8 bilhões de pesos colombianos — algo em torno de R$ 12 milhões na cotação atual. Numa agenda de corte radical do Estado, esse tipo de agência regulatória especializada é exatamente o perfil institucional que entra no radar do enxugamento.
Sem certificação antidoping ativa e auditada pela WADA, a Colômbia perde automaticamente o direito de sediar competições sob égide de federações olímpicas. Isso afetaria diretamente o ciclismo — onde o país tem três potenciais candidatos a pódio no Tour de France de 2026 — e o atletismo, cuja Federação Internacional (World Athletics) exige compliance antidoping para organizar mundiais regionais. A matéria do SportNavo apurou que há pelo menos dois projetos de evento internacional suspensos em fase de candidatura aguardando estabilidade institucional colombiana.
- Ciclismo de estrada — rota do Tour Colombia passa por regiões hoje dominadas por grupos armados; segurança é pré-condição para qualquer licença UCI
- Atletismo — Cali já sediou o Mundial Sub-20 de 2022; candidatura para 2028 depende de manutenção do sistema antidoping
- Futebol — a Conmebol avalia a Colômbia como co-sede potencial para o Mundial de Clubes ampliado; instabilidade política pode reabrir a disputa
"Não somos contra a eficiência, somos contra a irresponsabilidade de cortar sem saber o que se corta", disse o presidente da Federación Colombiana de Fútbol, Ramón Jesurún, numa entrevista à rádio Blu Radio em março, sem citar De la Espriella nominalmente mas em claro contexto eleitoral.
A síntese que emerge desse quadro é desconfortável para os dois lados do debate. De la Espriella não é nem o salvador do esporte colombiano nem necessariamente seu algoz. Ele é um fenômeno político — outsider, antissistema, formado entre Miami e a Toscana, defensor de clientes como Alex Saab e David Murcia — cujo programa econômico radical colide frontalmente com a arquitetura de financiamento público que sustenta o esporte de base, ao mesmo tempo em que sua agenda de segurança endereça um problema real que paralisa treinos e afugenta organizadores. O resultado prático depende de quais 90 decretos ele assina primeiro — e quais agências esportivas ficam de fora da tesoura. As urnas fecham às 16h (horário local) deste domingo, e os primeiros resultados oficiais devem ser divulgados pelo Consejo Nacional Electoral colombiano ainda na noite de hoje.










