Diz-se que o brasileiro dos médios do UFC tem evoluído em defesa de wrestling. Na verdade, não tem — e a noite de sábado (9) em Newark foi a prova mais cruel disso. No UFC 328, Djorden Santos caiu por finalização no terceiro round diante de Baisangur Susurkaev, encerrando em nocaute uma sequência que havia começado com promessa em outubro de 2025, quando o mineiro venceu sua estreia no octógono.

O terceiro round que apagou dois rounds de coragem de Santos

A luta foi longe de ser um passeio para Susurkaev. Nos dois primeiros rounds, Santos mostrou queixo e mão — literalmente. O brasileiro aguentou uma sequência pesada de calf kicks que o russo usou para cortar o ritmo de movimento, e respondeu com combinações que abriram cortes no rosto do adversário no segundo round. O próprio Susurkaev — parceiro de treinos e protegido do campeão peso-médio Khamzat Chimaev — pareceu genuinamente impressionado com a resistência do brasileiro, chegando a trocar palavras com Santos dentro do cage durante a luta.

DOUBLE KNOCK DOWN! #ufc328

No terceiro round, o roteiro mudou. Susurkaev acelerou, encostou Santos na grade, converteu um takedown limpo e passou para as costas com a fluidez de quem treina isso todos os dias ao lado do campeão. O rear-naked choke foi executado com frieza, e Santos dormiu. Décima segunda vitória na carreira do russo, terceira no UFC — todas por finalização.

"Ele é um lutador durão, deu trabalho de verdade. Mas eu sabia que quando chegasse o momento, eu ia terminar", disse Susurkaev após a vitória, segundo relatos do MMA Fighting.

O que os números revelam sobre as fragilidades de Santos

A análise round-a-round deixa um diagnóstico claro: Santos tem striking funcional — reach compatível com a divisão dos médios, bom timing de contragolpe e disposição para absorver pressão. Esses atributos ficaram visíveis nos dois primeiros rounds contra Susurkaev. O problema aparece quando o oponente muda o plano e vai para o chão.

O terceiro round que apagou dois rounds de coragem de Santos O que Djorden Santo
O terceiro round que apagou dois rounds de coragem de Santos O que Djorden Santo

A defesa de wrestling de Santos — medida pela porcentagem de takedowns negados — esteve abaixo da média aceitável para quem pretende disputar posições relevantes na divisão. Susurkaev não é um grappler de nível mundial por acaso: ele treina diariamente com Chimaev, cujo wrestling defense e clinch work estão entre os melhores do planeta. Quando o russo decidiu ir para o chão no terceiro round, Santos não teve resposta técnica para impedir o takedown nem para sair das costas.

Na avaliação do SportNavo, o gap não está no gás — Santos claramente chegou ao terceiro round com energia. O gap está na transição: o mineiro ainda não tem o reflexo defensivo para reconhecer o setup do takedown antes que ele já esteja acontecendo.

"Santos brigou bem, mas no momento decisivo Susurkaev mostrou por que treina com o campeão", observou o comentarista do MMA Fighting após a finalização.

Onde Santos se encaixa entre os brasileiros dos médios do UFC

O peso-médio brasileiro no UFC vive um momento de reconstrução. Com nomes como Carlos Prates migrando para outras divisões e a geração de André Muniz buscando consistência, Santos — 27 anos, cartel de 9 vitórias e 3 derrotas — ainda tem margem de desenvolvimento real. Mas a janela não é infinita.

A derrota para Susurkaev é a segunda da carreira no MMA profissional por finalização, o que indica um padrão — não um acidente. Lutadores que chegam ao UFC com esse perfil técnico — bom striking, wrestling defense abaixo do nível da divisão — costumam ter trajetórias de altos e baixos enquanto não resolvem o problema no chão. O histórico da divisão médio do UFC é repleto de exemplos: atletas com mãos pesadas que estagnam no ranking porque qualquer wrestler de nível médio encontra o mesmo caminho para a vitória.

Santos precisa de, no mínimo, seis meses focados em defesa de takedown e trabalho de back defense antes de voltar ao octógono. O mineiro tem atributos físicos e mentais — ficou em pé dois rounds contra um invicto que treina com o campeão. Mas atributos sem correção técnica são teto, não trampolim.

Se Santos voltar ao UFC antes de resolver o wrestling defense e encontrar outro grappler de nível similar, qual será o resultado diferente que ele pode apresentar?