Diz-se que a Chapada dos Veadeiros é um dos destinos de ecoturismo mais seguros do Brasil. Tecnicamente, essa afirmação precisa de um asterisco — e o ataque ocorrido na tarde de quinta-feira (14/05) na Cachoeira do Cordovil, no distrito de São Jorge, em Alto Paraíso de Goiás, é exatamente esse asterisco. Uma menina de 8 anos, que celebrava seu aniversário com a família, foi derrubada por uma onça-parda durante o retorno da trilha. O animal mordeu a criança no rosto e causou fratura em um dos braços antes de ser contido.

O que aconteceu na trilha do Santuário Volta da Serra

A família, oriunda de Brasília, acompanhava um colaborador da Fazenda Santuário Volta da Serra — o funcionário responsável pelo fechamento da área — quando o felino saltou sobre a criança. O pai reagiu imediatamente e entrou em confronto físico com o animal. O guia, por sua vez, arremessou uma mochila na direção da onça.

"A onça mordeu a mochila e, em seguida, fugiu para a mata", informou o Corpo de Bombeiros de Goiás.

A criança foi transportada ao Hospital Municipal de Alto Paraíso e, ainda na noite de quinta, transferida de ambulância — acompanhada por médico e equipe de enfermagem — para o Hospital de Base de Brasília. A tentativa de aeroremoção foi descartada pela impossibilidade de operações noturnas nos municípios de Alto Paraíso e Formosa.

Por que a mochila arremessada funcionou como freio de emergência

Aqui entra a física do comportamento predatório. A onça-parda — também chamada de puma ou suçuarana — opera por uma lógica de gatilho de perseguição: qualquer objeto em movimento rápido ativa o instinto de caça, mas um objeto grande e imprevisível que surge do nada ativa o instinto contrário, o de recuo. A mochila arremessada funcionou como um disruptor de padrão — o equivalente felino de um freio de emergência acionado em alta velocidade.

Pesquisadores que monitoram a fauna do Cerrado já registraram a presença desses felinos em diversas localidades da região, e visitantes relataram ouvir rugidos nas trilhas próximas à Cachoeira do Cordovil. O local do ataque fica a 9 km da Vila de São Jorge e a 29 km do centro de Alto Paraíso — área de mata densa onde a onça-parda tem território estabelecido.

O protocolo de segurança que todo visitante precisa conhecer antes de entrar na trilha

Especialistas e moradores da região, incluindo proprietários de pousadas locais, consolidaram um conjunto de orientações que funcionam em sequência lógica — não como lista de regras soltas, mas como um fluxo de decisão:

  1. Nunca corra. A corrida ativa o reflexo de perseguição do felino. Recuar lentamente, de frente para o animal, é a resposta correta.
  2. Pareça maior. Levantar os braços, abrir o casaco ou erguer a mochila acima da cabeça aumenta o perfil visual — o animal tende a recalcular o risco.
  3. Pegue crianças no colo imediatamente. Crianças pequenas têm porte próximo ao de presas naturais da onça-parda. Tirá-las do chão elimina esse gatilho visual.
  4. Mantenha o grupo unido. Predadores preferem alvos isolados. Um grupo compacto é percebido como uma entidade única e maior.
  5. Use comandos verbais firmes e contínuos. Vozes graves e constantes sinalizam presença dominante — não gritos agudos, que podem ser lidos como sinal de presa em pânico.
  6. Nunca vire as costas. Manter o animal no campo de visão durante todo o recuo é determinante para não provocar o avanço.

O efeito cascata sobre o ecoturismo na Chapada após o ataque

O Santuário Volta da Serra informou que acionou imediatamente seu Plano de Atendimento a Emergências e que colabora com as autoridades na apuração do ocidente. Casos de ataque de onça-parda na região são descritos como raros — o que, paradoxalmente, é parte do problema: a raridade cria uma falsa sensação de que o protocolo de segurança é dispensável.

"Assim que a onça saltou sobre a criança, seus pais e o funcionário da Fazenda interromperam o ataque e o animal fugiu para a mata", afirmaram os responsáveis pela fazenda em nota ao G1.

A Chapada dos Veadeiros recebe dezenas de milhares de visitantes por ano. O ataque de quinta-feira deve pressionar os atrativos particulares e o próprio Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros a revisar briefings de segurança — especialmente nas trilhas que cruzam áreas de mata fechada onde a fauna do Cerrado circula ativamente. A menina segue em atendimento no Hospital de Base de Brasília, acompanhada pela família.